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Pessoas 30. 7. 2020

11 momentos em que as regras não entraram na red carpet

by Mónica Bozinoski

 

Um cisne à volta do pescoço, uma cabeça debaixo do braço, um pedaço de tecido que criou o Google Images, um vestido feito a partir de bifes crus. O que seria da Moda sem um bocadinho de choque, excentricidade e controvérsia?

Cher, 1986

©Getty Images

Numa altura em que mostrar muita pele na passadeira vermelha dos Óscares era quase impensável, Cher (como eterno ícone que é) disse adeus às regras e aos looks previsíveis. “Este foi um dos meus outfits favoritos”, explicou a cantora e atriz num vídeo para a Vogue US sobre o conjunto que usou para apresentar o Óscar de Melhor Ator Secundário na cerimónia de 1986. “Fui ter com o Bob [Mackie] com esta ideia. Disse-lhe que queria um mohawk, mas que não fosse indiano. Queria que fosse tão over-the-top como uma coisa da próxima semana. Aquele xaile lindo era de caxemira. Adorei tudo.” A juntar ao headpiece e ao xaile, o conjunto criado por Mackie consistia num bralette revestido com joias e uma saia a combinar, que exibia a barriga  de Cher em toda a sua glória. Como a própria viria a admitir mais tarde, a escolha foi uma forma de mostrar à Academia que ela era uma atriz séria – e apesar de arriscada, a decisão acabou por compensar. “A Cher é a eterna miúda de 15 anos que vai fazer exatamente aquilo que a mãe diz para ela não fazer”, disse Mackie sobre o famoso look. Tivemos um encontro no apartamento do Tom Cruise, em Nova Iorque. Ela tinha entrado em muitos filmes onde só usava T-shirts e calças de ganga, e já não vestia um getup há algum tempo. Eu disse, ‘Mas tu não podes usar isso nos Óscares da Academia’. Ela disse, ‘Eu não quero saber. Não quero parecer uma dona de casa num vestido de gala.’ No dia seguinte estava em todos os jornais.”

Lizzy Gardiner, 1995

©Getty Images

“Em 1993, a equipa de um filme low-budget foi de Sydney a Alice Springs num camião cheio de figurinos sensacionais e um autocarro lavanda que é hoje considerado como um objeto do cinema australiano. O filme com que regressaram acabaria por se tornar numa sensação em todo o mundo e num marco para o movimento LGBT.” O filme assim descrito pelo The Guardian é The Adventures of Priscilla, Queen of the Desert, uma produção de Stephan Elliot que valeu aos figurinistas Tim Chappel e Lizzy Gardiner o Óscar de Melhor Guarda-Roupa, em 1995. Quando a noite da cerimónia virou a esquina, Lizzy Gardiner chegou à passadeira vermelha com um look verdadeiramente inesperado – um vestido feito com 254 cartões American Express Gold, todos eles com o nome da figurinista australiana e todos eles ligados entre si com arames. “O vestido era comprido e tinha uma racha que ia quase até à cintura, porque essa era a única forma de o fazer. Vesti uma roupa interior dourada, e lá fui eu”, recordou numa entrevista à ABC News. “Nessa noite, o vestido deixou muitas pessoas chateadas. Acho que muitas mulheres se sentiram ofuscadas ou irritadas por eu não estar a levar as coisas com a seriedade que devia.” Then again, quem disse que a Moda tinha de ser sempre tão séria?

Rose McGowan, 1998 

©Getty Images

Ofuscar alguém como Marilyn Manson na passadeira vermelha não é a tarefa mais fácil de todas. Na verdade, muitos irão argumentar que é uma tarefa quase impossível. Mas, em 1998, aquando dos MTV Video Music Awards, foi precisamente isso que a atriz Rose McGowan conseguiu fazer. O coordenado em questão? Um vestido preto completamente transparente, intrincadamente criado com missangas muito pequenas, com um comprimento até aos joelhos. Hoje, o naked dress é uma escolha que não choca as massas como antes – em 1998, contudo, a história era completamente diferente. O vestido foi visto como altamente provocador, e as imagens do mesmo chegaram a ser censuradas e desfocadas. Nos vinte anos que se seguiram, o vestido foi reconhecido como um dos looks mais infames da passadeira vermelha – como a própria admitiu, e apesar de querer um coordenado que fosse capaz de “fazer uma entrada, causar uma cena, ou o que fosse”, Rose McGowan não tinha percebido que o vestido era assim tão transparente na parte da frente (a atriz só o recebeu na noite anterior à cerimónia). Uma década depois, o vestido continua a ser sinónimo de um dos momentos mais jaw dropping, e o porquê da atriz ter escolhido uma silhueta tão reveladora dá-lhe ainda mais significado. “Foi a minha primeira aparição pública depois de ter sido sexualmente agredida. E pensei, ‘Isto é o que tu queres?’”, explicou numa entrevista de 2018. “Nunca tinha usado nada assim antes, e nunca mais voltei a usar nada assim deste então. Foi uma posição política.”

Celine Dion, 1999 

©Getty Images

De roupa que não foi bem passada a ferro a peças que não servem como deviam, existe uma série de faux pas que são altamente condenáveis no mundo da Moda – e há quem diga que o coordenado usado por Celine Dion nos Óscares de 1999 é um daqueles crimes que ninguém devia ter a audácia de cometer. Numa altura em que correr riscos na passadeira vermelha não era o triunfo que é hoje, e numa cerimónia com um tom geralmente mais “sério” e “conservador” quando comparado com outros eventos do género, a cantora pegou nas normas que ditavam o que era ou não aceitável e virou-as todas ao contrário – literalmente. “Quando usei aquilo nos Óscares, toda a gente estava a usar vestidos, não calças...”, recordou Celine Dion sobre o coordenado que foi rotulado com um claro don’t, numa entrevista à People. “Eu era a única de calças, num fato ao contrário de Galliano. Se fizesse isto hoje ia resultar. Foi avant- garde na altura.” A decisão de usar um tuxedo virado ao contrário pode ter soado à ideia mais louca que alguma vez se ouviu. Fast forward para 2020 e aquilo que tantos identificaram como um miss de Celine Dion e John Galliano é uma lenda em nome próprio.

Lil' Kim, 1999

©Getty Images

Numa era pré-Cardi B – dos quatro coordenados tirados do arquivo de Thierry Mugler e usados pela cantora nos Grammy Awards do ano passado ao head-to-toe floral de Richard Quinn, é quase impossível contar pelos dedos todas as vezes em que a rapper deixou o mundo de queixo caído – eram poucas as artistas de hip-hop e rap que conseguiam enlouquecer a passadeira vermelha como Lil’ Kim. A prova disso mesmo foi o look usado pela artista nos MTV Video Music Awards de 1999: um jumpsuit roxo assimétrico e um tapa-mamilos a condizer, que deixava pouco (ou quase nada) à imaginação. Desde então, a peça customizada por Misa Hylton, como descreve a edição norte-americana da Vogue, “tornou-se o standard para agarrar todas as atenções em entregas de prémios através da moda, mas a sua criação surgiu do desejo de representar a personalidade de Kim, ao invés da necessidade de provocar.” Para Hylton, “o fashion statement de Lil’ Kim é o epítome de estilo autêntico, de coragem e de aguentares o teu poder. Toda a gente teve uma vista de primeira fila para ver a beleza de seres completamente livre na tua expressão artística.”

Jennifer Lopez, 2000

Jennifer Lopez em Versace, 2019 ©Getty Images

O início dos anos 2000 foi como um caldeirão “mágico” onde borbulharam alguns dos mais controversos momentos de estilo da história, mas nada superou Jennifer Lopez em Versace nos Grammy Awards desse ano. Apesar de não ter sido a primeira a usar o famoso Jungle Dress, foi graças a JLo que o vestido em chiffon verde com palmeiras se transformou no ícone que é hoje. O momento foi de tal loucura e furor que a Google não teve outra escolha a não ser criar o Google Images. “As pessoas queriam mais do que só texto. Foi algo que se tornou evidente depois dos Grammy Awards de 2000, quando a Jennifer Lopez usou um vestido verde que, bom, agarrou a atenção do mundo”, revelou Eric Schmidt, antigo CEO e presidente executivo da Google, em 2015. “Na altura, foi a pesquisa mais popular que alguma vez tínhamos visto. Mas não tínhamos nenhuma forma infalível de dar aos utilizadores aquilo que queriam: JLo a usar o vestido. Foi aí que o Google Images Search nasceu.” Ser o motivo pelo qual um motor de busca foi inventado é já por si uma loucura, mas ressuscitar o momento viral quase 20 anos depois de ele ter acontecido é como nada antes visto. Em 2019, Jennifer Lopez fechou o desfile primavera/verão 2020 da Versace numa versão upgraded do original dos anos 2000 – e o mundo, como seria de esperar, reagiu com o mesmo furor daquela noite de 23 de fevereiro de 2000. Se isto não é uma loucura, não sabemos o que será.

Björk, 2001

©Getty Images

A passadeira vermelha dos Óscares costuma ser um dos últimos sítios onde esperamos ver um look que seja completamente out there. Na verdade, são poucos os exemplos que ficam para a história pelas razões mais loucas – e o swan dress usado por Björk na cerimónia de 2001 é um deles. Criado por Marjan Pejoski, o look consistia num bodysuit com um tom nude e transparente, completo com um vestido “cisne” branco, cuja cabeça dava a volta ao pescoço de Björk, como se de um lenço se tratasse, ficando suspensa nos ombros da cantora. A natureza fantasiosa do vestido (que inspirou Maria Grazia Chiuri e Pierpaolo Piccioli a criarem a sua própria versão para a Valentino) teria sido suficiente para chocar meio mundo, mas Björk, que estava nomeada para a categoria de Melhor Música Original com o tema I’ve Seen It All, do filme Dancer in the Dark, decidiu elevar ainda mais a fasquia. “Tinha plena consciência de que aquela seria provavelmente a minha primeira e última ida aos Óscares”, comentou a cantora. “Por isso, pensei que a minha entrada deveria ser sobre fertilidade, e levei alguns ovos comigo.” O momento, por mais insano que possa parecer aos olhos de muitos, permanece um dos mais memoráveis dos Óscares. “Ela levou as coisas mais além e transformou aquilo num evento ao criar os ovos de avestruz e chocá-los na passadeira vermelha”, revelou o designer do famoso vestido ao The Hollywood Reporter. “Com os Óscares, existe um uniforme, como a polícia. A Björk é alguém que definitivamente está fora da caixa. Sem pessoas como ela, seria uma seca.”

Lady Gaga, 2010

©Getty Images

Daquela vez em que chegou à passadeira vermelha dos Grammy Awards dentro de um ovo (“Estive lá dentro cerca de 72 horas. Foi uma experiência muito criativa”) à performance que começou com um vestido rosa de Brandon Maxwell e envolveu mais três trocas de roupa em plena red carpet da Met Gala, Lady Gaga é o epítome do quão excessiva a Moda consegue ser – mas nenhuma das suas aparições na passadeira vermelha foi tão insana quanto a dos MTV Video Music Awards de 2010. “Nunca pensei que um dia pediria à Cher para segurar na minha carteira de carne”, disse a cantora quando subiu ao palco para receber o prémio de Vídeo do Ano com Bad Romance, vestida com uma criação do artista e designer Franc Fernandez, inteiramente feita com bifes crus. Completo com uma headpiece e um par de botas, ambos no mesmo material controverso do vestido, o Meat Dress (como desde então ficou conhecido) foi visto por muitos como uma loucura, uma ofensa. Mas a intenção de Gaga era outra: adotar uma posição contra a legislação anti-LGBT+ Don’t Ask Don’t Tell. “A implicação moral, ética e política daquele vestido ia muito além daquilo que muitas pessoas pensam, que é ‘ew’. Certo? ‘Ew’”, explicou numa entrevista com Anderson Cooper. “Se não defendermos aquilo em que acreditamos e se não lutarmos pelos nossos direitos, em breve vamos ter tantos direitos como aqueles que a carne nos nossos ossos tem. E eu não sou um pedaço de carne.”

Rihanna, 2015 

©Getty Images

Não precisamos de sugar coat it: tudo o que Rihanna usa na passadeira vermelha é uma loucura, no melhor e mais bonito dos sentidos. Do naked dress com assinatura Adam Selman nos CFDA Fashion Awards de 2014 ao coordenado papal de Maison Margiela na Met Gala de 2018 e passando Comme des Garçons de cortar a respiração do ano anterior a esse, não é preciso muito mais do que um ou dois minutos para relembrar o rol de momentos em que RiRi deixou o mundo num estado de histeria – mas é preciso refletir muito para escolher apenas um desses momentos. Atrevemo-nos a escolher a Met Gala de 2015, conduzida pelo tema China: Through the Looking Glass? “Estou tão apaixonada por este vestido, mas a cauda é insana!”, disse Rihanna à Vanity Fair, durante a passadeira vermelha do evento. “Não consigo andar nele sem ajuda – mas vale tanto a pena. Eu adoro tanto este vestido! É couture chinesa e é feito por Guo Pei. É feito à mão por uma mulher chinesa, que levou dois anos a fazê-lo. E eu encontrei-o online.” Não sabemos qual é a parte mais insana desta história: se o facto de o vestido ter demorado dois anos a ser feito, se o facto de Rihanna o ter encontrado online ou se aquela cauda, naquele amarelo canário, com aqueles detalhes impressionantes. Provavelmente aquela cauda. Definitivamente aquela cauda.

Rita Ora, 2017

©Getty Images

Quando Rita Ora pisou a passadeira vermelha dos MTV EMA de 2017, em Londres, o pensamento geral foi mais ou menos este: “I woke up like this”, but make it fashion. Não, a cantora britânica não estava a usar um coordenado ultrachique tipo pijama. Não, também não era um ressuscitar do vestido tipo cama apresentado por Viktor & Rolf no outono/inverno de 2005. Está quase lá, mas tem de pensar menos edredão e mais Towel Series. Bingo: um robe de banho branco até aos pés e uma toalha enrolada na cabeça, com diamantes e pumps a condizer, claro. A criação, essa, não tinha saído de um qualquer quarto de hotel por uma qualquer wardrobe malfunction que obrigou Rita Ora a improvisar com o que tinha à mão, mas era, antes, um look apresentado por Alejandro Gómez Palomo, fundador da Palomo Spain, no desfile primavera/verão 2018 da marca. Da próxima vez que sair do banho e for consumida por uma vontade enorme de não tirar o seu robe confortável, lembre-se: a Moda pode ser aquilo que quisermos que ela seja. E a loucura, ao que parece, segue a mesma tendência.

Jared Leto, 2019

©Getty Images

Quem precisa da última it bag da estação quando pode carregar a sua própria cabeça como o ultimate accessory debaixo do braço? Foi precisamente esse o pensamento (louco, alguns dirão) de Alessandro Michele para o outono/inverno 2018 da Gucci. Durante o desfile, que pretendia ser uma metáfora do modo como as pessoas constroem as suas identidades nos dias de hoje – nas palavras do diretor criativo, “nós somos o Frankenstein das nossas vidas” –, dois modelos carregaram réplicas das suas próprias cabeças, inspirando um muito viral #GucciChallenge e a interpretação de Jared Leto do tema da Met Gala de 2019. “Acho que o camp é celebrar coisas que talvez sejam descartadas, é não levar a vida e a Moda demasiado a sério, e eu estou muito feliz por fazer parte disto tudo”, disse o cantor e ator, cujo vestido de gola alta vermelho, completo com um arnês em cristais e com uma réplica do seu próprio rosto, foi uma das escolhas mais out-there de uma noite já por si completamente over-the-top. “É tudo Gucci. A cabeça também é Gucci. É um pouco bizarro.”

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