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Project Union 8. 9. 2020

Project: Vogue Union | Luís Sanchez, o contador de histórias

by Sara Andrade

 

O nome por detrás da marca Storytailors será sempre um representante de um ADN nacional que se escreve em dupla.

Luis Sanchez, Storytailors © Nuno Beja

Apesar de hoje carregar a marca a solo, depois de João Branco ter decidido partir a 17 de dezembro de 2018, a etiqueta que fundaram em conjunto continua a espelhar um projeto que foi sempre pensado em duo e que reflete as influências tanto de Sanchez como de Branco - e que Luís tão bem abordou nesta entrevista, pouco depois da morte do parceiro. 

Hoje, numa fase que admite ser de "redefinição de projeto e de vida", não considera desistir, mesmo depois do plural Storytailors ter passado a singular: "Desistir é uma palavra que nunca me agradou, acredito na transformação natural das coisas, na mudança e na renovação. Os 'terramotos' durante estas duas décadas foram muitos, mas teimamos em persistir, assim como o prédio que nos acolhe. Aprendemos a ser resilientes e a encontrar uma solução para cada problema e a transformar cada obstáculo em oportunidade. Neste momento, estou numa fase de redefinição de projeto e de vida, a trabalhar num novo conceito de marca." Uma reinvenção que certamente não matará a essência de uma etiqueta que sempre se propôs contar histórias e que o nome tão bem espelha. Focados em trazer a mestria do atelier e da alfaiataria para o dia-a-dia, nunca nenhuma coleção obedeceu a uma temporada, mas sim, a histórias. Ainda que pudessem ser balizadas pelos parâmetros impostos pelas temperaturas e nuances de cada estação, a Storytailors não tem outono/inverno ou primavera/verão, tem antes fábulas e capítulos e contos que, no seu conjunto, formam o livro que continua a ser escrito desde que a marca surgiu, no início dos anos 2000: "Tudo começou entre o nosso 4º e 5º ano da faculdade, entre 2000 e 2001, com a ideia de criar uma marca conceito que representasse a paixão pela moda e o universo de nós os dois, João Branco e Luís Sanchez. A 30 de março de 2001, estávamos a participar na 7ª edição do Sangue Novo da ModaLisboa já como Storytailors. A coleção Maturation foi a nossa resposta ao Manifesto de Li Edelkoort -'Acredito que nos revoltemos. Acredito que a erupção criativa está prestes a libertar-se. A explodir contra o sistema que nos sufoca.' Uma afirmação que continua tão verdadeira e atual passados quase 20 anos e com toda crise que estamos a viver.", contextualiza o criador. "Em julho de 2002, estávamos a apresentar individualmente a nossa primeira coleção, Narkë, A História de um Vestido, num pequeno teatro em Belém. Em 2003, formalizamos a criação da empresa e abríamos o nosso atelier em Sete Rios. Em 2006, mudamo-nos para o Chiado, onde sempre quisemos ter o nosso espaço, e, em agosto de 2007, abrimos a nossa loja com inauguração oficial em setembro. Desde então, é onde nos temos mantido, num belo edifício pré-pombalino que resistiu ao terramoto de 1755."

Luis Sanchez e João Branco, no desfile de primavera/verão 2019. © Portugal Fashion

Não foi sem alguns percalços que a história se escreveu. Além do desaparecimento de Branco, a empresa já tinha passado pela insolvência, alguns anos antes, e, claro, como os seus pares, experienciado todos os obstáculos de se fazer Moda de autor no país, no mundo e nos dias que correm. Apesar da maioria ter sido ultrapassada, e ainda com algumas contigências naturais da era pela qual passamos, não há nada que não se ultrapasse com um pouco de amor à camisola, porque, "por mais que custe, acho que tudo o que é feito com AMOR é sempre bem feito! Mantendo este espirito, tento sempre manter-me otimista. Muitas vezes questiono-me, reavalio e continuo o sonho!", garante Luís, acrescentado que, à pergunta "Como se consegue manter um negócio de Moda em Portugal?", explicaria que apenas "com muita muita dificuldade e esforço. Ser-se criador e gerir a parte empresarial é uma tarefa árdua e que consome muito tempo. É extremamente exigente e cansativo ter que alternar entre estas duas áreas. É igualmente necessário ser-se muito criativo!" E quando lhe perguntamos se voltaria atrás para mudar o que quer que seja, é perentório em nem considerar essa hipótese: "Acho que não! Muitas vezes, após uma apresentação, pensamos em mudar muita coisa, faz parte do processo do evolução e de auto-crítica. Gosto de pensar que o que está feito está feito e fez parte de uma aprendizagem que nos vai conduzir a algo de melhor. Como perfecionistas, exigimos sempre mais de nós, mas temos que fazê-lo com conta, peso e medida, senão caímos num ciclo vicioso de perfecionismo e insatisfação. A perfeição é algo que tentamos sempre alcançar, mas é uma ilusão inalcançável. É uma procura incessante que só existe na nossa mente."

O que não quer dizer, nesta busca incessante, que não tenha havido peças mais representativas do ADN do duo do que outras. "Considero que uma das peças mais representativas da Storytailors é a nossa Corset Armour da coleção Gentlewomen, agora no acervo do FIT Museum em Nova Iorque.", aponta o designer. "É uma peça disruptiva e romântica e que representa todo o nosso trabalho de tailoring de paixão de construção e pela estrutura. É uma criação intemporal assim como muitas outras do nosso trabalho."

Corset Amour, Storytailors

Um exemplo no meio de muitas que se tornaram assinatura da etiqueta. O corset tornou-se peça-tipo-cartão-de-visita e o modo como tentaram revolucionar a Moda com novas propostas é de louvar: de peças criadas a partir de painéis que se poderiam trocar e comprar à parte para construir peças completamente novas, a colaborações de cerâmica e vestidos com linhas que parecem ter sido tiradas de contos de fadas, 'alfaiates de histórias' não poderia ser melhor nome para uma casa que tem uma identidade tão demarcada que dificilmente poderá defraudar um público que se lhe tem mantido fiel.

Work in progress: corset Storytailors. © Cláudia Damas

Para as novas temporadas, a etiqueta promete não desiludir, mantendo a intemporalidade com que sempre coseu as suas propostas: "no Verão 2020, temos uma SPECIAL EDITION de peças plissadas, versáteis e atemporais e com múltiplas formas de utilização nas cores preferidas das nossas clientes - nude, sand, taupe, red, black e white. São peças que devido a sua versatilidade se tornaram ícone da marca.", assegura Sanchez. 

O caminho que agora faz a solo, nunca fará sozinho, uma vez que se move numa indústria com pares que têm tanto de concorrente como de amigos. Diz que sente "uma grande afinidade com a Alexandra Moura e com o Dino Alves, até porque são pessoas que me estão mais próximas, muito provavelmente seria com eles", quando colocamos na mesa a hipótese de uma colaboração, e não coloca de parte uma maior proximidade na indústria em geral: "para mim, falar da união nesta industria é como falar da união entre as nações ou as etnias. Esta industria assim como muitas outras serve-se de muitos e variados interesses. O que  melhor se adapta a uns não quer dizer que seja o que melhor serve a outros. Vão sempre existir divergências. Acredito que existe a vontade de uma mudança e que muitos acreditam que estamos melhor juntos que separados. Há muita costura a fazer neste sentido! Sou um otimista por isso acredito que com o empenho de todos poderemos construir algo de melhor."

Storytailors para o outono/inverno 2018 © Portugal Fashion

É essa aitude positiva que tem mantido a atividade viva e de saúde estes anos todos, sempre de mão dada com a reinvenão e atualização. Uma viagem que só pode ser feita com a ajuda do público e clientela, que mantêm a marca viva. Para (continuar a) contribuir para tal, basta visitar o número 8 da Calçada do Ferragial, um espaço que, se já visitou, vai ainda assim encontrar novidades: "a Storytailors está sofrer uma metamorfose e vai ganhar novas asas. Irá manter-se enquanto projeto criativo mas irá evoluir numa nova marca mais descontraída, holística e sustentável dentro do slow fashion. Ainda não posso revelar mais detalhes sobre este novo projeto que tanto me entusiasma. Será um novo recomeço.", começa por dizer Luís Sanchez. "O espaço Storytailors, na Calçada do Ferragial 8, já foi transformado numa nova concept store mais diversificada - de momento, inclui o showroom da antique c’est chic, uma loja online de moda sustentável com peças vintage e pre-loved, a Sabores do Chiado uma oyster bar e uma mercearia com degustação de vinhos e champagne e um screet room-espaço-galeria.", remata. 

E um slogan para a marca, perguntamos. "Happiness hunters", diz Luís. O júri aceita, mas sugere que se mude para "Neverending story", tal como a as linhas como que se escreve a história de Storytailors. 

Atelier StoryTailors © Cláudia Damas.

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