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Tendências 11. 11. 2019

Teoria da mudança

by Ana Murcho

 

Mais fast, menos fashion. Mais semanas, menos Moda. Mais looks do dia, menos tendências da estação. Retrato de uma indústria que começou por vender roupa, depois vendeu sonhos, e agora vende... bom, agora vende um pouco de tudo. 

© Andrew H. Walker / Getty Images

Domingo, 15 de setembro. São quase três da tarde e, apesar do calor infernal, estou enrolada no sofá com um chá e uma manta. Comigo estão cerca de nove mil pessoas. À medida que a hora se aproxima, vamos crescendo em número - dez mil, onze mil. Estamos à espera que comece o desfile primavera/verão 2020 de Victoria Beckham. Correção: estamos à espera que comece o livestream do desfile primavera/verão 2020 de Victoria Beckham, que daí a nada irá acontecer em Londres, para uma plateia restrita. Nós estamos nas nossas casas, um pouco por todo o lado, atrás dos nossos ecrãs. Une-nos essa curiosidade infame sobre o que será tendência daqui a um ano - ou então somos apenas predadores fashionistas com pouco que fazer. Em todo o caso, vamos poder ver, em primeira mão, os novos vestidos fluidos e sexy da designer inglesa, numa paleta de cores impossível de resistir, bem como a alfaiataria poderosa que transforma esta coleção num sucesso imediato.

Nos dez minutos que dura a apresentação, focamos o nosso interesse no imaginário da ex-Spice, e concedemos-lhe o benefício da dúvida que sempre acompanha os grandes espetáculos: será isto um sucesso ou um flop? Do conforto da nossa ausência, lançamos reviews instantâneas sobre coisas que não vimos (porque não vimos, o livestream é uma espécie de quinta dimensão da realidade, que nos chega pixelizada, cheia de ruído) e, em segundos, passamos para o próximo “espetáculo”. Pergunta para um vestido McQueen: onde é que isto vai parar?

Historiadores divergem quanto a datas, mas no final do século XIX muitos criadores empregavam modelos in-house (a que chamavam “manequins”) para mostrar as suas criações a uma clientela de elite. Como refere Caroline Evans no ensaio The Enchanted Spectacle publicada na compilação Fashion Theory, “estes primeiros shows apresentados em salões chegavam a durar três horas, e muitas vezes repetiam-se todos os dias ao longo de várias semanas.” E, ao contrário dos dias de hoje, estas apresentações eram quase silenciosas, apenas interrompidas por uma voz que, dos bastidores, descrevia cada um dos coordenados. À falta de um nome consensual, foram Paul Poiret, Lady Lucy Duff Gordon (mais conhecida como Lucile) e Charles Frederick Worth os impulsionadores dos desfiles como os entendemos hoje. Depois deles, Coco Chanel, Schiaparelli, Christian Dior e Cristóbal Balenciaga transformaram Paris na capital da Moda, e fixaram datas para a apresentação das coleções, criando as bases para o que hoje conhecemos como Semana de Moda. O resto é história. Ou melhor, era história. A globalização transformou o apreço pelas tendências numa ditadura consumista, e nessa exorbitância perdeu-se a linha que separa o apreço e a luxúria. Agora os desfiles transmitem-se via Facebook, via Instagram, via qualquer-coisa-que-tenha-ligação-à-Internet, e, em menos de 20 minutos, milhões de pessoas podem, mesmo não tendo qualquer contacto físico com a roupa (e não é disso que se trata, de roupa?) arrasar, ou exultar, o trabalho de uma vida. 

Façamos um ligeiro rewind até ao final dos anos 90, início dos anos 2000, quando dois enfants terribles saídos da Central Saint Martins injetavam a Moda de sonhos e emoções - muito à custa dos seus desfiles, verdadeiras peças de teatro que vivem para a posteridade. Tim Blanks, jornalista do site Business of Fashion, caracterizou a apresentação da alta-costura primavera/verão 1998 da Dior (então com John Galliano no leme) “como a mistura de todas as drogas possíveis que alguém possa já ter experimentado, concentradas em dez minutos, e multiplicadas por mil” - é um momento seminal, inesquecível, a que recorro vezes sem conta, sempre que quero exemplificar a transcendência da Moda. Semelhante efeito, imaginamos, terá tido o desfile primavera/verão 1999 de Alexander McQueen, onde no final dois robôs pintaram com spray o vestido branco da modelo Shalom Harlow. Houve lágrimas, e na edição online da Vogue, que então dava os primeiros passos, chamaram-lhe “performance art.”

Ainda há desfiles maravilhosos - até há bem pouco tempo tínhamos a mente de Karl Lagerfeld para desbravar novos mundos a cada coleção, Alessandro Michelle insiste em seguir um caminho de imaginação muito além das convenções, a Saint Laurent habituou-nos ao pôr-do-sol na Torre Eiffel, com sabor a rock and roll, e nunca se sabe o que sai da cartola de Miuccia Prada - mas algo mudou. É tudo demasiado imediato e possível. Amanhã já não é longe demais, porque amanhã é hoje. Na altura das Semanas de Moda oficiais, os editores e os compradores chegam a estar 30 dias, seguidos, fora de casa. E depois há as cruise collections, que deixaram de ser simples lookbooks para serem festas megalómanas em qualquer parte do mundo. E a Alta-Costura. E as “colaborações especiais…” É um desgaste. “A Moda ocorre todos os dias. Todos os dias são Semana de Moda. Mas seguramente a nossa capacidade de absorção nesta passerelle interminável é finita. A situação é esmagadora. E que desfiles causam um impacto real? Pela minha experiência, esta explosão fez com que, cada vez mais, todos estes shows tenham cada vez menos impacto. Pior ainda, estão a fazer com que nenhum perdure”, escrevia há pouco tempo Jo Ellison, diretora do suplemento How to Spend It, do jornal Financial Times. E concluía: “Todos ansiamos por conteúdo, mas raro é o programa atual que realmente detone a magia.”

"É um cliché dizer que a Moda está a mudar - a Moda sempre muda." Alexander Fury

Os americanos chamam-lhe crazy fashion fatigue e, na falta de uma tradução apropriada, ficamo-nos por “exaustão da loucura da Moda”. Há demasiada roupa, demasiadas opções, demasiado tudo. É como se as psicoses do mundo se refletissem na indústria, que fica refém das mudanças e das transformações de um planeta em delírio. Alexander Fury, diretor da Another Magazine e autor de títulos como Chanel: The Impossible Collection, escrevia na Harper’s Bazaar, em 2017: “É um cliché dizer que a Moda está a mudar - a Moda sempre muda. Ela é, pela sua própria natureza, maleável e mutável, transformando-se, a cada estação, em algo novo. É uma indústria baseada numa dinâmica perpétua de mudança, de renovação constante e de sangue fresco. Essas mudanças podem ser revigorantes. Podem redefinir o olho. A Moda, quando é realmente boa, pode mudar não apenas o quê, mas o porquê, alterando não apenas a forma física da roupa, mas também as ramificações psicológicas de a usar. A Moda pode mudar a perceção do eu.” E acrescentava: “Mas, no momento, a Moda parece estar preocupada com as perceções mutáveis de si mesma. A paisagem atual, como em tantas paisagens, está em perigo. As ‘regras’ antigas estão a ser questionadas, reescritas ou completamente descartadas. O calendário bianual da moda foi descartado, com os designers a mostrar as coleções entre as estações, em homens e mulheres simultaneamente, e em semanas tradicionalmente reservadas para um ou outro.”

Algumas dessas coleções são postas à venda logo após os desfiles, numa lógica see now, buy now que acaba com o tempo de espera entre a apresentação das roupas e a chegada às lojas, seis meses depois. Há marcas que preferem montar shows em ambientes mais intimistas, como garagens privadas (Ralph Lauren), ou os seus próprios ateliers (Maison Margiela), enquanto outras os trazem para as ruas (Alexander Wang). E há os que preferem apresentar novidades apenas quando faz sentido, como Azzedine Alaïa, que sempre preferiu aperfeiçoar o seu estilo e a sua estética em vez de sucumbir à busca incessante da next big thing. “Alaïa é acompanhado por relativamente poucos - Rick Owens, Alessandro Michele, da Gucci, Miuccia Prada, para citar alguns - cujas escolhas informarão as carreiras de gerações de designers. Eles recusam-se a obedecer a regras porque fazem as suas próprias. E, no momento, estão a destruir o livro de etiqueta da Moda e a exigir mudanças sérias”, sublinhava o jornalista.

 
 
 
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Os sinais, decretava Fury, “existem há anos - o domínio das plataformas sociais, o número cada vez maior de coleções, a ascensão do consumidor como árbitro do gosto contemporâneo e a necessidade geral de rapidez. Mas as repercussões dessas mudanças graduais no clima da Moda estão a ser sentidas apenas agora, e com uma força sísmica. [...] Portanto talvez seja a libertação das regras tradicionais o que criará o futuro da Moda - uma recusa em se adequar às exigências da indústria, por mais que as entendemos. A seu modo, todos os designers desafiam as convenções e vencem, criando novas regras que outros acabam seguindo.” A reflexão de Alexander Fury é sintomática do atual estado de coisas. Ele próprio é um homem ocupado. Tão ocupado que o ensaio citado, publicado há dois anos, é uma das raras vezes em que saiu da sua “bolha pessoal” para comentar a indústria onde se move há mais de 20 anos. A Vogue tentou, mais do que uma vez, chegar à fala com o homem que coleciona peças vintage e Alta-Costura, mas a pressão do calendário tornou impossível um testemunho para esta edição. O mesmo aconteceu com Robin Givhan, editora de Moda do The Washington Post e vencedora de um prémio Pulitzer, que se viu obrigada a declinar o convite para uma entrevista devido a uma agenda ultrapreenchida desde finais de agosto, quando arrancam os primeiros eventos da New York Fashion Week. Ora também isto são sinais claros de alterações no sistema. Também isto são, em si, danos colaterais de uma nova realidade. Quando duas vozes incontornáveis da Moda são obrigadas a escolher os seus compromissos em função do que o (escasso) tempo permite fazer, algo está (muito) errado.

“O acesso instantâneo diminui definitivamente a mística e o luxo que caracterizam a verdadeira Alta-Moda. Mas o acesso instantâneo também cria procura e permite que um designer se conecte diretamente com o seu cliente." Bronwyn Cosgrave

A culpa é do século XXI, que transformou a nossa relação com os bens materiais - e, por extensão, com a Moda. Os anos 2000 não trouxeram apenas um computador em cada secretária e um telemóvel em cada bolso - trouxeram uma nova forma de consumir, e usar, roupa. A historiadora de moda Bronwyn Cosgrave, autora do podcast A Different Tweed, aponta: “As mulheres já não estudam fotos de passerelle como costumavam fazer. Elas olham para o Instagram para ver como é que a Gigi Hadid está a misturar Topshop com Michael Kors ou como é que a Kendall Jenner está a usar Versace. E depois misturam o que já têm de novas maneiras. Isso faz com que praticamente ninguém precise de comprar nada de novo.” O digital é muito positivo, mas ninguém pensou nas consequências de mostrar as coleções, ao público, seis meses antes de chegarem às lojas. O fluxo de imagens é de tal forma intenso que, quando as peças estão finalmente disponíveis, o consumidor está farto de as ver - e, provavelmente, já comprou “réplicas imperfeitas” numa cadeia de fast fashion.

Será isto o fim da Moda como a entendemos? Cosgrave tem uma visão otimista: “O acesso instantâneo diminui definitivamente a mística e o luxo que caracterizam a verdadeira Alta-Moda. Mas o acesso instantâneo também cria procura e permite que um designer se conecte diretamente com o seu cliente. [...] A Moda high fashion, tanto pronto-a-vestir dispendioso como Alta-Costura, continua a ser produzida para um público de elite. A maneira como as pessoas adquirem Moda hoje, através de sites de revenda, por exemplo, teve um impacto claro nas tendências. Mas o mesmo acontece com as mudanças climáticas e com a decisão de misturar high e low dressing. Poucas pessoas se vestem da cabeça aos pés com peças de designer, como se fazia nos anos 80, por exemplo. A interpretação da fast fashion significa que tudo está disponível. No entanto, a atual procura pela redução do consumo pode provocar a quebra da procura de Moda, tanto fast como de luxo.”

 
 
 
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Isso também significa que o apelo das redes sociais e de outras plataformas do género, onde assistimos a livestreams e copiamos desenfreadamente outfits of the day (expressão que nos provocaria arrepios há anos atrás), pode ter os dias contados. Ok, mais ou menos contados. “O street style definitivamente inspira um certo grupo demográfico, mais jovem. Prova disso é que muitas estrelas de street style são pagas para usar roupas de marca, e vendê-las. Ou têm, até, as suas próprias marcas. Os resultados de um consumidor influenciado pelo street style levaram vários designers a criar roupa em cores néon e estampados vibrantes. Essas peças ficam fantásticas no Instagram, mas muitas vezes parecem ridículas para os civis.” Por outras palavras, os jeans de uma só perna, com fecho no rabo, partilhados até à exaustão por raparigas com três milhões de seguidores até podem até ser uma boa opção - num filme de série B. Na vida real, procura-se cada vez mais a autenticidade. E isso leva-nos a uma conclusão, talvez, inesperada.

A maior mudança, nas últimas duas décadas, é o ressurgimento das mulheres designers - das que fazem roupa que as outras mulheres querem usar. “Em tempos, mulheres como Coco Chanel, Jeanne Lanvin e Elsa Schiaparelli ditaram as mudanças na Moda. Depois da Segunda Guerra Mundial, os homens - incluindo Christian Dior, Pierre Balmain, Pierre Cardin, Valentino e Karl Lagerfeld - definiram o ritmo. Agora já não”, explica Cosgrave. “Virginie Viard e Maria Grazia Chiuri lideram a Chanel e a Dior. Estas são as maisons mais poderosas do mundo. Clare Waight Keller está à frente da Givenchy. Muitas das novas brands to watch são chefiadas por mulheres, incluindo a Koché, de Christelle Kocher, que recebeu o Prémio ANDAM de 2019. A Savage X Fenty, de Rihanna, promete ser a nova Victoria’s Secret. Laura Kim faz parte da dupla que ressuscita a Oscar de la Renta. Em Londres, Simone Rocha, Roksanda, Victoria Beckham e Molly Goddard usufruem de grande sucesso. Homens e mulheres são iguais no que diz respeito ao design, mas penso que as mulheres trazem uma certa sensibilidade à arte de fazer Moda.” Também foi por saber isto que, naquele domingo à tarde, preferi apoiar Miss Beckham (ainda que à distância) ao invés de enfrentar as habituais filas do brunch mais cool da cidade. 

Artigo originalmente publicado na edição de outubro da Vogue Portugal.

 

 

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