Moda   Tendências  

As razões para o inesperado ressurgimento da Alta-Costura

17 Jan 2019
By Jessica Bumpus

Contrariando a crença popular de que a Alta-Costura havia sido banida para os livros de História, a Balmain vai regressar a este universo e a Celine deverá fazer o mesmo. Mas porquê agora? A Vogue investigou a questão.

Contrariando a crença popular de que a Alta-Costura havia sido banida para os livros de História, a Balmain vai regressar a este universo e a Celine deverá fazer o mesmo. Mas porquê agora? A Vogue investigou a questão.

Viktor & Rolf, Alta-Costura, outono/inverno 2018 © Getty Images
Viktor & Rolf, Alta-Costura, outono/inverno 2018 © Getty Images

"Quando as pessoas dizem que a couture está morta… talvez esteja para elas, mas não para nós." A citação é de Karl Lagerfeld, imediatamente depois de ter supervisionado os 68 looks, inteiramente feitos à mão, pisarem a passerelle do desfile para a primavera/verão 2018 de Alta-Costura da Chanel. As palavras foram recolhidas por Andrew Rossi para a série documental do Netflix Os 7 Dias Antes - que se centra nos bastidores de grandes eventos de áreas distintas - e contestam claramente a ideia de que a fantasia da Alta-Costura está morta. 

De facto, a ideia de que a couture está em declínio desvanece-se face ao cenário deste ano, com grandes marcas a assegurarem um foco renovado na arte de criar roupa para indivíduos e não para o mercado de massas. A Balmain, sob a liderança de Olivier Rousteing, vai regressar ao calendário pela primeira em 16 anos; Hedi Slimane, agora o diretor criativo da Celine, planeia expandir a marca para esta categoria, como parte da sua visão para a etiqueta; e, mais do que nunca, marcas mais recentes de pronto-a-vestir (incluindo a Mary Katrantzou, a Richard Quinn e a Marine Serre) têm explorado a noção de "couture-pronto-a-vestir".

Uma questão de liberdade e individualidade

"A Alta-Costura é um mercado em crescimento; as marcas de Moda continuam a aumentar as vendas neste ramo e a clientela está a expandir-se e a diversificar-se," explica Ralph Toledano, presidente tanto da Fédération de la Haute Couture como da Chambre Syndicale de la Haute Couture, o organismo encarregue de toda a produção de couture. "A Alta-Costura sempre foi, e continua a ser, uma terra de livre expressão para designers, uma terra onde a criatividade se encontra com a tradição e com a inovação."

As novas tecnologias, diz Toledano, estão, no que toca à couture a ajudar a expandir fronteiras e possibilidades com materiais, técnicas e abordagens a despertarem o interesse de um público anteriormente desinteressado pelo assunto - incluindo os millenials. 

E assim um universo que anteriormente era visto como sendo propriedade exclusiva da velha guarda e de grandes eventos de passadeira vermelha parece agora mais próximo, tocando aliás em pontos pertinente no que toca às nossas necessidades emocionais enquanto consumidores. 

"Há mais interesse [na couture] porque hoje tudo [o resto] parece querer fazer-nos pertencer à mesma cultura de massas," diz o couturier parisiense Alexis Mabille, notando especialmente um desejo por autenticidade e individualidade. Mabille cita ainda a importância da relação única que se estabelece entre a marca e o consumidor e a magia de desfrutar de uma experiência feita à medida, que se destaca como uma verdadeiro luxo no mar de estilos similares dos dias de hoje. “A questão sensorial também é fundamental”, acrescenta Toledano. "Enquanto existirem pessoas a procurar o excecional, vai haver Alta-Costura."

O conceito de couture-pronto-a-vestir

Mas a couture está a influenciar também o pronto-a-vestir. "Tornou-se mais perceptível que as marcas têm procurado expandir a sua oferta de couture pronto-a-vestir", observa Elizabeth von der Goltz, diretora global de compras da plataforma Net-a-Porter, que tem aumentado substancialmente a oferta na categoria de vestidos de de noite, com um crescimento de 50% em 2018, face ao ano anterior. "Estamos a ter ainda mais procura da parte dos nossos EIPs (Extremely Important People), que querem encontrar peças extraordinárias para fazerem uma entrada em grande nos seus eventos." Alexandre Vauthier e Ralph & Russo (ambos produzem pronto-a-vestir e Alta-Costura), nota von der Goltz, tornaram-se favoritos. 

De facto, o efeito foi avassalador nas coleções de primavera/verão 2019 - as passerelles encheram-se de penas, formas volumosas e aplicações intricadas, elementos característicos da couture. "É aquilo a que estamos a chamar ‘couture moderna’", diz ela. Também o Matchesfashion.com se está a focar em "demi-couture" para a nova estação - um estilo que se viu claramente no desfile que assinalou o 10º aniversário de Mary Katrantzou, na última semana de Moda de Londres.

A designer, conhecida pelas suas silhuetas exímias, apostou fortemente em técnicas de Alta-Costura para a coleção, com cerca de 90 por cento dos looks a revelarem um incrível nível de detalhe e mestria técnica. Uma abordagem que não é estranha a Katrantzou, que, para além do pronto-a-vestir, trabalha muitas vezes com clientes privados criando peças exclusivas para celebridades como Beyoncé ou Cate Blanchett. 

A expansão sem a perda da exclusividade

A expansão da couture para lá das paredes de Maisons selecionadas data de 1997, quando o estatuto de "membro convidado" foi criado pela Fédération de la Haute Couture et de la Mode. Este novo estatuto garantiu a presenças de nomes novos, menos tradicionais e não exclusivamente franceses no calendário de uma indústria que anteriormente funcionava apenas por convite e à porta fechada (a Alta-Costura rege-se por regras rigorosas sobre quem pode apresentar, quando pode fazê-lo e o que é, ou não, considerado "couture"). Seguiu-se a exploração de novas técnicas, a estética começou a diversificar-se e a afastar-se do estilo tradicional da alta sociedade. E depois veio a estratégia de negócio. 

Em 2014, tanto a Jean Paul Gaultier como a Viktor & Rolf decidiram encerrar a divisão de pronto-a-vestir e centrarem-se na Alta Costura e nas fragrâncias - e nenhuma marca tem resultados piores desde que o fez. Os lucros da Jean Paul Gaultier têm crescido a cada ano. E, ainda que seja discutível, o estilo conceptual e artístico da Viktor & Rolf faz mais sentido enquadrado no universo criativo da couture do que no mundo de restrições do pronto-a-vestir. 

"A magia da Alta-Costura é que praticamente tudo é possível", diz Alexis Mabille. "É um mundo secreto, criado para uma pessoa especial." E a premissa é inegavelmente atraente - e tão exclusiva que muito poucos a podem de facto experienciar. Como o incontornável cabeleireiro Sam McKnight afirma na série Os 7 Dias Antes: “Estas peças são algo que a grande maioria das pessoas nunca poderá ver ao perto, nunca poderá tocar, nunca poderá estar na mesma sala que elas. É tão aspiracional que é assoberbante.” E quando o propósito é reinventar tradições artesanais de forma contemporânea não é de estranhar que a couture tenha ganho ímpeto na era do Instagram. 

Jessica Bumpus By Jessica Bumpus

Relacionados


Atualidade  

Morreu Claude Montana, icónico designer dos anos 80

23 Feb 2024

Curiosidades   Atualidade  

Cisnes entre patos

23 Feb 2024

Moda   Street Style  

LFW | Models Off-Duty

23 Feb 2024

Beleza  

LFW outono/inverno 2024 | A beleza nos backstages

22 Feb 2024