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Connected 23. 7. 2019

As novas vozes da crítica de Moda

by Joana Moreira

 

Vários motivos ditaram que a crítica de Moda, tal como 
a conhecemos, se tenha eclipsado nos últimos anos. Falámos com Pierre A. M’Pele e Luke Meagher, duas vozes promissoras da nova vaga de jovens críticos que moldam o género com novos e originais contornos.

Anna Wintour e André Leon Talley © Getty Images

Em 2014, um artigo no The Huffington Post questionava: “Está a crítica de Moda a morrer?”. “É uma pena porque os mais reconhecidos e controversos críticos de Moda estão ora a abandonar os seus postos, ora a aproximar-se da reforma, deixando muitos de nós a questionar-nos o que raio vamos ler quando eles se forem todos embora”, escrevia a jornalista Ashley Clarke. Cinco anos depois, o cenário não está muito diferente no que diz respeito às publicações especializadas ou jornais de renome. As críticas de Moda são escassas, os profissionais dedicados somente a elas — vulgo, os críticos — mais ainda. No entanto, desde então, e com o boom das redes sociais, despontaram novos e frescos pontos de vista.

Luke Meagher tinha 17 anos quando fundou o canal de Youtube HauteLeMode. Hoje, com 22 anos, faz vídeos com críticas a desfiles de Moda e eventos de passadeira vermelha para mais de 250 mil subscritores. No Instagram (@hautelemode), partilha sobretudo memes em torno do universo da Moda. Meagher é o clássico exemplo de quem nasceu, cresceu e vive na Internet. “Até hoje, educo-me com tudo o que consigo encontrar”, conta à Vogue por telefone. “Quando comecei, lia muitos artigos no Twitter, foi aí que tudo começou. Lia tudo sobre editores de Moda, e quem ia para qual revista, e que diretor criativo ia para cada marca”. Depois de observar como o mercado se movia, Luke deu o passo seguinte. “Pensei ‘ok, percebo porque é que isto acontece. Agora devia perceber porque é que a Dior é a Dior e porque é que as pessoas se importam com ela’. Comecei a ler todos os artigos que conseguia encontrar online, porque os livros são muito caros. E a navegar no Youtube, que é este espaço gigante a que todos os desfiles no mundo vão parar. Por isso, também ficava a ver desfiles todo o dia lá.”

Ao perceber que a Moda no Youtube se resumia a arquivo e aos populares hauls [vídeos de pessoas a partilhar as suas compras], Luke percebeu que havia uma janela de oportunidade para fazer algo novo. “Via pessoas a fazer hauls a mostrar o que tinham comprado na Forever 21 e na H&M. E eu pensava ‘porque é que não há nenhum conteúdo em torno da própria Moda?' E foi aí que comecei a fazer reviews. Porque ninguém estava a fazê-lo. Pensei ‘deixa-me tentar e ver o que acontece’”. Aconteceu. Hoje, Meagher dispensa rótulos, mas, a ter de fazê-lo, diz que se considera um crítico de Moda. A mensagem subjacente a todo o seu discurso é sempre a democratização. “Consigo pegar num desfile, seja bom ou não, e trazê-lo às massas e educá-las sobre o que é a coleção, sobre o que gostei ou não”, diz.

Pierre A. M’Pele é outra voz pujante num mundo em que os seguidores nem sempre equivalem a qualidade de conteúdo. Com quase 16 mil seguidores, @pam_boy já se tornou uma conta de Instagram de culto para os apaixonados por Moda. Descrevendo-se como jornalista de Moda e especialista em emojis, Pierre conta à Vogue, por e-mail, como surgiu a ideia de usar os emojis — essa língua universal — para veicular a sua mensagem. “Os emojis são parte de uma linguagem visual eficiente que também inclui memes e GIFs. Comecei a usá-los como piada e rapidamente percebi que as pessoas eram muito recetivas. Hoje, com a nossa capacidade de atenção ainda mais reduzida, usar um emoji pode ser dizer muito de uma forma rápida e eficiente”.

Formado em jornalismo de Moda, Pierre utiliza o seu Instagram para fazer crítica de desfiles, de forma sucinta e clara, e, sobretudo, internet-friendly. Cada look de uma coleção tem direito a um emoji correspondente (se está curiosa, basta percorrer os destaques da conta de Instagram, organizados por Semanas de Moda). O trabalho mais aprofundado que o jornalista desenvolve aparece na revista que o próprio fundou, em papel, a SCRNSHT. Para Pierre, o papel do crítico continua a ser inquestionavelmente necessário: “A crítica é essencial para o bem-estar do ecossistema criativo. A crítica de Moda ajuda a regular a indústria, por isso é muito importante mantê-la viva. Permite o diálogo e a evolução.”

Apesar de hoje produzir um conteúdo muitas vezes capaz de ser reduzido a um rápido like, M’Pele acredita que a sua formação tradicional foi determinante para consolidar o seu espírito crítico. “Para se ser um bom crítico, é necessário ir além do gosto pessoal e preferências o mais possível para poder ser verdadeiramente objetivo. Não se trata simplesmente de ter uma opinião, é mais sobre uma questão de factos e investigação. Foi o estudar jornalismo que me ajudou a desenvolver essa abordagem”.

O jovem olha para Robin Givhan, crítica de Moda do The Washigton Post, como a sua principal referência. “A forma como ela pega na Moda e a insere num diálogo com um contexto social muito mais amplo é fantástica. E ela também é entertaining. É maravilhoso lê-la. É a única jornalista de Moda com um prémio Pulitzer, por isso é uma verdadeira inspiração”.

Contexto e verdade

A questão do contexto é essencial para a crítica, passado ou presente, no papel ou no digital. “Uma boa crítica tem de ter contexto. Tem de ter enquadramento histórico, tem de ter enquadramento político, enquadramento económico, enquadramento social, independentemente da área em que essa crítica se exerça”, explica Maria José Mata, professora e coordenadora do Mestrado em Jornalismo na Escola Superior de Comunicação Social. “Um bom crítico é aquele que, além de conseguir passar uma mensagem clara para todos aqueles que o estão a ler, consegue que essa crítica seja suficientemente esclarecedora e abrangente (...) Qualquer objeto de crítica insere-se dentro de uma realidade que é uma realidade mais vasta do que a do universo a que o objeto pertence.”

Além de contexto, a crítica exige também um sentido de lealdade para com a verdade, independentemente de tudo — dos amigos, das relações, das pressões. Tim Blanks, crítico de Moda e Editor-at-Large do site de moda The Business of Fashion, falava precisamente sobre isto em 2016, no The Telegraph: “Às vezes tenho de criticar pessoas com as quais me importo ou escrever coisas más sobre os meus amigos. Felizmente, eles compreendem que é simplesmente o meu trabalho.”

Luke Meagher está a descobrir agora que um crítico “tem de ser um bocadinho impopular”. “Nem toda a gente vai adorar a tua opinião. Uma marca não vai ficar necessariamente contente, nem os RPs. Infelizmente, o jogo é assim: tu dizes o que sentes e há pessoas que ficam ofendidas com isso”, diz. No dia em que falámos com Luke, ele tinha acabado de fazer uma crítica menos abonatória ao desfile da coleção primavera/verão 2020 da Jacquemus. “Já cheguei a um ponto em que, se eu nunca for convidado para um show da Jacquemus, está tudo bem. É o que é. Não me magoa. Vou continuar aqui e fazer a crítica da coleção mais tarde. É o jogo. Se queres ser um crítico de Moda, é isso que acontece. Mas não é um lugar fácil para se estar na indústria”, admite.

Uma das figuras incontornáveis, que ocupou desde sempre esse lugar, é Cathy Horyn. Durante anos crítica de Moda no The New York Times, e conhecida pela sua brutal franqueza, Horyn usava (e usa) a sátira e o humor para escrever críticas livres de qualquer constrangimento. “Não sou um sistema de apoio. O meu trabalho — sobretudo no Times porque é um grande jornal — é informar os leitores, e não trabalhar para os designers da indústria”, disse certa vez ao The Business of Fashion. Uma das suas “batalhas” épicas foi com Hedi Slimane, que lhe negou um lugar no desfile da Saint Laurent depois de uma crítica menos positiva ao criador. Mas Horyn é apenas uma das jornalistas que sofreu na pele com este tipo de pressões e constrangimentos. Na indústria, contam-se umas quantas histórias semelhantes, algumas mais públicas que outras. “Há universos como o da imprensa especializada em que, sendo o mercado mais pequeno, talvez isso seja mais evidente”, admite Maria José Mata, que lembra que “cabe sempre ao jornalista ter a capacidade de avaliar em nome daquilo que é verdadeiramente do interesse público. Interessa ou não interessa?”.

A professora compara a questão com a de
 quando um jornalista recebe um telefonema
 de um político na redação, com o intuito de
 pressioná-lo a publicar ou não publicar determinada notícia. “Pode ser bastante desagradável, porque muitas vezes é o principal anunciante da publicação, porque tem um peso bastante grande no mercado, porque pode ficar mal-visto, etc., no entanto, jornalismo é isto”, clarifica, ciente de que “o jornalismo está cada vez mais rodeado e permeado às áreas como o marketing, a publicidade, as relações públicas e o entretenimento”. No entanto, é perentória: “jornalismo é jornalismo. O jornalismo não é entretenimento, não é publicidade, não é marketing (...) Aquilo que me é dado a saber até em alguns estudos sobre a área da regulação e deontologia é que as pressões a que os jornalistas podem estar sujeitos, a tentativa de pressão por parte das instituições externas, sejam elas agentes económicos, agentes políticos ou outros, sempre existiram”.

Se, por um lado, a pressão sempre existiu, houve sempre (fossem muitos ou poucos) quem conseguisse fazer-lhe frente. Mas hoje o número é, sem dúvida, inferior. “Há críticos de Moda que não fazem o seu trabalho”, defende Pierre A. M’Pele. “O poder corporativo matou a crítica. As marcas de Moda e as empresas estabeleceram relações com os jornalistas que são contratados para escrever comunicados e fazer consultoria. Esses jornalistas não podem morder a mão que lhes deu de comer. Para se ser crítico, é necessário ser-se livre, mas também é preciso ter trabalho. Há vários elementos a impedir a crítica de ser ouvida, incluindo agências de relações públicas, bem como publishers, que precisam que as relações com os anunciantes continuem boas. É interessante porque também acontece com a arte, a gastronomia e o cinema. A crítica está a desaparecer porque os críticos estão a ser seduzidos e silenciados”. Mas podem as redes sociais ser silenciadas? “Os jovens estão tão fartos do sistema e das estruturas de poder”, desabafa Pierre. “É por isso que emergem vozes do exterior e é por isso que elas são tão refrescantes. Temos de agradecer à Internet e às redes sociais por providenciarem aos jovens estas incríveis plataformas globais para se expressarem e desafiarem o sistema.”

Desafiar o sistema não se faz apenas com a ousadia de ir contra os grandes grupos económicos e pressões externas em prol de uma crítica justa, mas também através da própria forma. M’Pele defende esta nova vaga de críticos de Moda: “Falamos a mesma linguagem que o público para quem as grandes marcas e revistas querem falar. Pessoalmente, sou muito espontâneo e às vezes irresponsável, por isso, acho que a minha voz acaba por ser real. É isso que é diferente (...). Mas é importante que as nossas opiniões sejam informadas para conseguirmos oferecer uma boa crítica e fazer a diferença.”

Ética e deontologia

Uma das questões que se coloca a estes jovens críticos de Moda tem a ver com a sua idoneidade. “Como não sou jornalista, não tenho um código ético muito definido”, assume o fundador do HauteLeMode, que explica que se baseia nos seus próprios princípios morais e os adapta para a sua ética profissional.

Mais do que a questão ética, que obriga o jornalista a trabalhar na constante busca pela verdade, há outros pontos que distinguem aquilo que é o trabalho jornalístico. Maria José Mata explica que a capacidade de avaliar o interesse público, por exemplo, é fundamental no papel de um crítico. “Aos jornalistas, é exigida a capacidade de avaliar em função do interesse público. Essa noção é fundamental. E nem sempre, ou muito raramente, quem está fora do universo da prática jornalística, consegue entender ou ter todas as ferramentas para permitir julgar ou avaliar a importância da escolha daquilo sobre o qual se vai falar, em função do interesse público. Não é porque eu gosto ou me interessa, mas é porque a maioria das pessoas vai querer ter informação acerca disto. Por muito que nós tenhamos um público-alvo, a missão do jornalista é ser o mais abrangente possível, não é satisfazer uma clientela, é sim satisfazer o público. São lógicas distintas”, esclarece.

A lógica de Luke Meagher, para definir o que é de interesse ou não, assenta, por um lado, em fazer críticas aos desfiles que as pessoas “valorizam ao ponto de se quererem sentar a ver uma review”. “Uma Prada, uma Louis Vuitton, uma Gucci, uma Dior, são todas marcas sobre as quais toda a gente quer sempre saber. Essas são garantidas. Vou sempre fazer reviews delas”, conta. “Depois, é uma questão de eu querer ou não falar de uma marca mais pequena (...), acaba por ser uma mistura entre o que é que as pessoas querem ver e o que é que eu acho que vale a pena ver e que mensagem é que a marca vai receber disso.”

Para onde caminhamos? Falar sobre o futuro é sempre ingrato, mas foi o que perguntámos a Meagher. “Gostava de ver mais marcas a perceber que não são perfeitas e um diálogo mais saudável entre o crítico e a marca”, diz. “A Moda não tem uma relação saudável com a crítica e com uma opinião diferente. Por isso, no futuro, espero que a indústria seja mais recetiva a isso”.

Com a diversidade a ganhar cada vez mais espaço na indústria da Moda, aos mais diversos níveis, resta saber se essa pluralidade também chegará, por fim, ao domínio da opinião.

 

Artigo originalmente publicado na edição de julho 2019 da Vogue Portugal.

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