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Entrevistas 8. 10. 2019

Miss Fame: "Quero que a indústria continue a recompensar e a celebrar modelos como eu"

by Mónica Bozinoski

 

Há uma energia inexplicável no ar quando se fala com e sobre Miss Fame. Há também subtileza e elegância. Poder e dramatismo. Honestidade e segurança. E a verdade incrivelmente genuína de quem prefere a realidade do mundo à superficialidade dos filtros. 

O ano era 2015. Os Estados Unidos da América aprovavam o casamento homossexual, o primeiro-ministro canadiano formava um gabinete com igualdade de género, a NASA confirmava a existência de água em Marte e Madeline Stuart, modelo australiana com síndrome de Down, desfilava na Semana de Moda de Nova Iorque. Era 2015, quando o mundo parecia viver com um pouco mais de esperança. Coincidentemente, era 2015 quando ouvimos: “I’m Miss Fame, I’m 29 years old, and I’m beyond this planet beautiful.” Quatro anos depois da sua participação na sétima temporada de RuPaul’s Drag Race, agora modelo agenciada, mãe de uma marca de maquilhagem em nome próprio (a Miss Fame Beauty, lançada em 2018) e presença merecida nas páginas, nos eventos e nos desfiles mais cobiçados da indústria, Miss Fame continua a transmitir a mesma esperança que transmitia naquela altura.

Continua, também, a dar-nos a sua energia e o seu tempo. Continua a potenciar momentos e diálogos. Apesar de estarmos à distância de um voo rápido – ela em Londres, eu em Lisboa –, é como se ela estivesse aqui comigo, a olhar-me nos olhos, a segurar a minha mão. Quando me pede desculpa por interromper a nossa conversa para abrir a porta do hotel, a Miss Fame que é beyond this planet beautiful prova que é, acima de tudo, a Miss Fame beyond this planet human. Quando lhe digo que esgotei as minhas perguntas, mas que podia ficar a falar com ela por mais uma hora, a Miss Fame beyond this planet human fala-me do vestido dramático que vai usar naquela tarde, dos planos para Paris, depois Chicago, depois Los Angeles, depois Nova Iorque e depois de volta. “It’s never gonna stop”, diz-me.

Miss Fame beyond this planet human? Talvez seja mais Miss Fame beyond this planet superhuman

Miss Fame, olá? 

Olá! Bom dia, boa tarde! Acabei de me levantar há trinta minutos porque estive na festa da Love Magazine na noite passada, até às duas da manhã. Depois voltei ao hotel, tirei a maquilhagem toda e pedi um bom prato de massa.  

Acho que nos podemos ficar pelo bom dia, então. Como está a ser esta Semana de Moda de Londres? 

Bastante calma. Tenho ido apenas a alguns desfiles e eventos. Quando cheguei a Londres, pensei que ainda tinha de me preparar para a Semana de Moda de Paris, e não queria chegar lá cansada. Sinto que fazer as coisas assim me ajuda a manter a sanidade e ajuda-me também a construir uma relação mais forte com certos criadores e marcas. Também me ajuda a manter os pés bem assentes na terra, de forma a que consiga celebrar verdadeiramente todos estes momentos. Quando fazes demasiado, dás por ti a pensar: “Ok, calma, em que dia foi isto?” Mas tem sido incrível. Ontem fui a Erdem, hoje [a exposição Wonderful Things de] Tim Walker... Deixa-me pensar, que mais andei a fazer? Ah! British Fashion Council! Estive num painel muito interessante sobre as questões de fluidez de género na Moda, o impacto que está a ter e aquilo que isto significa para a indústria. E depois o Fashion For Relief com a Naomi Campbell. Foi fabuloso. 

Tem-se mantido bastante ocupada. Quem era a Miss Fame, antes de toda esta fama? 

Miss Fame before the fame... Eu era uma artista, sempre fui. Eu cresci no centro da Califórnia, numa zona chamada Templeton. É uma espécie de comunidade rural e agrícola. Fui educada pelos meus avós, nesse ambiente de quinta. Na verdade, eu era uma agricultora, estava sempre no exterior com eles, mas também com os meus tios e tias, a trabalhar na terra, a plantar vegetais, a colher fruta, a dar de comer às minhas galinhas e às vacas, e a caminhar numa longa estrada de terra batida até ao autocarro. Ou seja, uma experiência muito mais calma... Mas eu adorava. Penso nisso muitas vezes. Quando vou a locais onde se possa realmente observar a natureza, ou a espaços realmente amplos, consigo sentir o quão tranquilo e pacífico é para mim. Faz-me sentir ligada de uma forma muito bonita.  

Daí mudou-se para Nova Iorque, em 2011. 

Sim. Tinha 26 anos e estava a seguir a minha arte. Já andava a trabalhar nisso, a construir algo que permitisse que eu levasse as minhas ideias mais além. Comecei a experimentar com maquilhagem, num ambiente muito privado, aos oito anos. Mas não o fazia de forma pública. Não ia para a escola com maquilhagem no rosto. Mas quando experimentei o eyeliner das minhas tias, e o coloquei nos meus olhos, pensei: “Uau, isto é mesmo bonito.” Existe algo especial em veres os olhos delineados com um pouco de eyeliner preto. É realmente marcante e surpreendente. Isso fez-me abrir os horizontes, mas mesmo assim não me sentia preparada. Não cresci numa família que fosse capaz de aceitar esse nível de expressão. Quando cresces numa zona rural, que é tão tranquila, é estranho seres um rapaz pequeno com maquilhagem no rosto. Não era como nos dias de hoje, em que todos temos acesso ao Instagram e ao YouTube, onde todos os rapazes são celebrados por usarem maquilhagem. No meu caso, eu estava a fazer coisas que ainda não eram bem aceites. Mas sim, mudei-me para Nova Iorque, nessa altura, para me encontrar enquanto artista – e foi aí que me encontrei enquanto artista. 

Foi nessa altura que trabalhou com a MAC Cosmetics e com a lenda que é a Pat McGrath. Quais foram as maiores lições que retirou dessas experiências? 

Sabes, aquilo que recebo ao trabalhar com outras pessoas é isto, de formas diferentes. Se estou a maquilhar o rosto de alguém, é a conversa que vamos tendo no processo de transformação. É aprenderes mais sobre as pessoas, sobre quem são interiormente, sobre a forma como se querem apresentar ao mundo. Assim que têm o rosto maquilhado, existe um sentido de poder, um orgulho, um entusiasmo, um sorriso. É como se uma parte delas mesmas fosse finalmente revelada, uma parte que elas próprias se calhar não conheciam. É como se fossem maiores do que antes, mais expressivas, mais dramáticas. Trabalhar com artistas tão importantes como a Pat McGrath... foi um sonho para mim. Estava na mesma sala que esta lenda, que criou moods tão impactantes para momentos tão importantes na Moda. É saberes que ela tem uma panóplia de referências. E eu tenho o maior respeito pela Pat McGrath. Nem de propósito, estive com ela antes de ir para Londres. Tinha ido fazer um tratamento de rosto ao meu spa favorito, o Rescue, em Nova Iorque, e, quando saí, cruzei-me com ela. Foi mesmo no final da Semana de Moda de Nova Iorque. Trocámos um abraço, felicitámo-nos uma à outra pelos nossos projetos mais recentes. Foi maravilhoso. Foi uma espécie de dádiva do universo, ter estado com a Mother mesmo antes de vir para Londres. 

Falando sobre a sua linha de maquilhagem: foi uma das primeiras artistas drag a lançar uma marca em nome próprio, sem qualquer tipo de colaboração. O que a levou a dar esse grande passo? 

Sim, fui a primeira queen do Drag Race a fazer isso, com o lançamento da minha Lip Collection no ano passado. E, como disseste, não foi em colaboração com ninguém. Este ano, outras queens lançaram os seus próprios produtos e acho que faz sentido. Estamos todas a expressar-nos através da Beleza. Para mim, tudo começou com o YouTube: já tinha colaborado com o Jeffree Star, com a Nikkie Tutorials, maquilhei o Marc Jacobs. Apesar de estar focada nisso, comecei a perceber que adorava experienciar a vida para além do estúdio, e muito disso acontecia na front row. Estava sempre a receber muita inspiração da indústria da Moda quando ia a estes desfiles. No meio de tudo isto, comecei a desenvolver a Miss Fame Beauty e a procurar a forma perfeita para partilhar a minha visão. Os cinco primeiros batons e glitters consumiram muito tempo. Queria criar algo realmente perfeito para todos os meus fãs, algo que fosse tradicional, mas também muito sexy, moderno, elegante e fiel à Miss Fame.

Tudo foi pensado ao detalhe, e o resultado são produtos que funcionam e que são muito artísticos, e que eu uso – ontem saí com o meu batom vermelho e durante toda a Semana de Moda de Alta-Costura usei o Flash of Flesh, que é o meu go to nude. Aquilo que realmente adoro fazer é celebrar a maquilhagem. Com esta coleção que temos agora, decidi fazer um lançamento exclusivo no DragCon. O meu foco principal foi celebrar os meus fãs. Queria que eles fossem os primeiros a experimentar a coleção. Vamos lançar tudo no final do mês e uma parte dos lucros da Under My Skin será doada ao Hetrick-Martin Institute, em Nova Iorque. É um espaço LGBTQIA+, um santuário para jovens queer que foram renegados pelas suas próprias famílias e que não têm recursos. Quando trabalhei com eles, durante o verão, senti que era a iniciativa certa para eu apoiar. Senti que era aí que estava a minha comunidade, e quero não só chamar a atenção para estes jovens queer, mas também celebrá-los. Eu adoro-os, e eles precisam de saber que são acarinhados e que, como comunidade, vamos unir-nos para ajudá-los a prosperar. 

E é mesmo importante que tenham alguém que os possa inspirar. Pegando nessa ideia, e no facto de estar a redefinir a indústria da Beleza, gostava de recuperar uma coisa que disse recentemente numa entrevista: “Eu era um homem a usar maquilhagem antes de ser uma tendência. Antes do YouTube existir. Saía à rua numa pequena cidade com o rosto maquilhado.” 

É bom relembrar isso. Tem sido uma jornada. Sinto-me grata por ter experienciado aquilo que experienciei, porque faz parte da minha expressão artística. Ter sentido esse medo... Já é suficientemente horrível seres vítima de bullying, mas é ainda mais assustador quando percebes que a pessoa está ali à tua frente, e que se pode tornar perigoso. Sentes que não tens poder. Isso moldou-me enquanto artista. Eu quero que as pessoas se sintam empoderadas. Eu não quero que ninguém tenha de passar por estas situações. Mas, ao mesmo tempo, vivemos num mundo em que, independentemente de quem sejas, vais sempre passar por uma situação discriminatória. O mundo é complexo, e nem todos conseguem compreendê-lo. Aquilo que eu tento fazer é interagir apenas com o positivo. 

Na maioria das vezes não existe grande negatividade. Sinto que as pessoas estão comigo. Os meus fãs têm-me acompanhado durante anos e sei que eles me adoram. E eu adoro-os como qualquer outro ser humano. No fim do dia, eu sou uma artista. Tive sucesso e estou a experienciar coisas num nível muito elevado, mas continuo a ser humana. As pessoas dizem-me: “Não acredito, é tão fácil conversar contigo.” Claro que é, eu sou uma pessoa, eu estou contigo! Posso estar glamorosa, mas eu estou contigo, eu estou aqui, a olhar-te nos olhos, a segurar a tua mão. Eu gosto de garantir que tenho um momento com cada pessoa, não quero que ninguém sinta que vai ter comigo e que foi um meet and greet de dois segundos, quick, quick, bye. As pessoas vieram para me ver. Porque é que as haveria de desprezar? 

"A Moda é um animal muito complexo. Muda de ideias, anda para a frente, é uma espécie de batimento que está sempre presente."

Existem muitas pessoas com a mentalidade do “olá, adeus.”

Sim, é verdade. Eu sei que isso faz parte da nossa cultura, em parte por causa das redes sociais. É tudo tão rápido. Às vezes as pessoas só querem tirar uma fotografia. Não querem dizer nada, talvez porque estão desconfortáveis, ou nervosas, ou intimidadas. Mas é importante que as pessoas não se esqueçam da humanidade. Se admiras aquela pessoa, aproveita o momento que tens com ela. Tenta ter uma conversa. Por vezes, tenho experiências muito especiais com pessoas também elas muito especiais da indústria da Moda, e nem sequer tiro o meu telemóvel. Na noite passada, tive uma conversa longa com o Erdem, e não filmei o momento. Acho que algumas pessoas nos tiraram fotografias, sim, mas eu não tirei o meu telemóvel, não tirei uma selfie. Conversei apenas com ele, frente a frente. Trocámos elogios, eu admirei a coleção dele e ele apreciou o look que eu construí para ir ao desfile. Foi pessoal. E não preciso que ninguém saiba destes momentos, porque são os meus momentos. 

Foi uma das primeiras artistas drag na passadeira vermelha do Festival de Cinema de Cannes. Na altura, fez um vídeo a documentar a experiência, onde falou sobre todas as inseguranças que lhe estavam a passar pela cabeça. Sente que alcançou uma posição onde é finalmente respeitada e reconhecida nesta indústria? 

Eu sinto que tenho o respeito de determinadas pessoas e designers e que existe definitivamente uma admiração. Aquilo que tenho vindo a aprender é que a Moda é um animal muito complexo. Muda de ideias, anda para a frente, é uma espécie de batimento que está sempre presente. Também é muito sobre tendências: a rapariga nova, o rosto novo, o interesse novo. Por isso, aquilo que eu penso é: Como é que consegues reivindicar uma carreira longa quando existe um nicho de artistas a ser celebrado? Eu uso a minha dedicação à arte e o meu talento para estar lá pelos designers que me convidam para os seus desfiles e que me recebem de braços abertos. Para mim, isso significa nutrir as minhas amizades e relações. A dedicação destes designers ao seu ofício é visível nas coleções que constroem e a minha dedicação ao meu ofício é visível quando vou celebrar o trabalho deles. Construir uma carreira longa significa estar nos sítios que fazem fit comigo e que são certos para a minha imagem, mas também nutrir as minhas relações e ter contactos humanos e reais com estas pessoas incríveis. Nunca na vida acreditei que poderia estar nestes espaços. Mas também sei que o meu talento está a ser visto e que é por isso que tudo isso está a acontecer. A minha dedicação à Miss Fame está a ser respeitada. 

Este não é o único exemplo das barreiras que tem vindo a quebrar na indústria: é modelo agenciada e presença assídua na front row, vestida em Marc Jacobs ou Mugler. Como é estar na linha da frente desta mudança? Porque isto é, sem dúvida, uma mudança

É um pouco avassalador. Mas não significa que isto nunca tenha sido feito antes: o RuPaul, obviamente, teve imensos momentos revolucionários durante a sua carreira. Não é um território desconhecido, mas a magnitude que assumiu hoje... é massivo. Estares na linha da frente da mudança significa que és o exemplo daquilo que pode ser. Quando és a pioneira, vais sempre ser relembrada na história, porque és o pináculo daquele grupo de artistas que estava a protagonizar uma revolução naquela altura. Mas, por outro lado, a indústria pode não estar totalmente aí. O medo é que a tendência seja ultrapassada. Porque isso é algo que, historicamente, acontece. Mas enquanto eu estiver aqui, quero que a indústria continue a recompensar e a celebrar modelos como eu, modelos que não são conformes com o seu género, modelos com fluidez de género, modelos trans, modelos com uma beleza que não é convencional. Quebrar as barreiras, fazer a diferença, celebrar a diversidade. É isso que mostra que estamos num tempo de mudança.

Hoje, sinto que estou numa boa posição, mas quero continuar a lutar e a reivindicar o meu espaço, porque é muito importante para nós. Temos de trabalhar muito, para ficarmos, para não perdermos o momentum. Sabes, eu sou a minha própria artista. Eu não tenho uma equipa de Beleza – eu faço a minha própria maquilhagem, eu visto o meu corset, eu não tenho uma equipa para me dar ao luxo de ficar ali sentada ao telemóvel e fingir que sou só mais uma supermodelo. Eu sou a makeup artist, eu sou a diretora criativa, eu sou a visão e, muitas vezes, eu sou a pessoa que trata da agenda. Em alguns dias, sou celebrada ao mais alto nível e, noutros dias, sou só mais uma artista a tentar reclamar espaço na indústria. Dependendo do momento, posso estar no mais alto ou no mais baixo dos níveis. Felizmente, esses baixos já não são assim tão baixos. Acho que não estamos numa má posição, mas é importante continuarmos a fazer aquilo que temos feito. Eu sei que vou continuar. Vou continuar a criar, a ter uma mensagem poderosa e a partilhar com autenticidade. Isso é algo que ninguém me pode tirar. Com o tempo, vou ficar mais velha e a minha beleza vai mudar, mas isso não importa porque eu vou evoluir com os tempos. A minha arte, as minhas mãos e os meus olhos vão sempre fazer parte do meu diálogo. A maquilhagem e a criação vão estar sempre aqui. 

"Com o tempo, vou ficar mais velha e a minha beleza vai mudar, mas isso não importa porque eu vou evoluir com os tempos. A minha arte, as minhas mãos e os meus olhos vão sempre fazer parte do meu diálogo."

Quem foram os designers e as modelos que a inspiraram e foram referências na construção da sua arte? 

Sabes, eu não estava tão consciente dos designers em criança. Em casa, tínhamos apenas dois canais de acesso público que víamos em família, mas não tínhamos nada que fosse remotamente relacionado com Moda. Só comecei a ter acesso à cultura pop durante a minha adolescência. Apesar disso, consegui ter contacto com os rostos da indústria, com as supermodelos. A Linda Evangelista é uma das musas da minha criação. A Nadja Auermann, a Christy Turlington, com quem construí uma amizade, a Naomi Campbell, com quem já passei bons momentos, e a Kate Moss, que é uma pessoa fantástica. Quando eu era criança, eu via todas estas revistas no salão onde a minha avó costumava arranjar o cabelo. Quando via a Linda, ou a Naomi, ou a Kate, ou a Christy na capa, eu conseguia ver um tipo de beleza que era tão distante daquilo que eu conhecia. Elas eram as maiores supermodelos do mundo. Fiquei obcecada, não conseguia tirar aquelas imagens da minha cabeça. E mesmo agora, na idade adulta, continuo a pensar nelas.

Hoje, a diferença é que estou a trabalhar com elas, sou representada pelas mesmas agências que elas, vou jantar com elas, troco mensagens com elas. Não consigo acreditar que estou a construir relações com as mulheres que sempre admirei. No início, não conseguia compreender a Moda, mas conseguia compreender as mulheres. E as mulheres, nesta indústria, foram a minha primeira introdução à Moda. Essas são as mulheres que inspiraram a minha estética, são a razão pela qual faço as coisas da forma que faço, a razão pela qual evoluí para esta imagem de supermodelo. Mas mesmo antes delas, existiam os nomes do cinema, como a Marlene Dietrich e a Marilyn Monroe. Essas mulheres são influências monumentais na minha arte. 

Tudo o que faço é um tributo à beleza e às mulheres, mas também à minha feminilidade. Fisicamente, posso não ter nascido mulher, mas a minha energia e a forma como me expresso são femininas. O meu coração e o meu espírito sempre estiveram profundamente ligados às mulheres que me educaram. Era aí que sentia segurança. Nunca me relacionei muito com a energia masculina. Nunca fez muito sentido para mim. Adoro imensidão e a dimensão das mulheres. Acho que são as criaturas mais poderosas no universo. Para mim, poder celebrá-las através da minha expressão, e celebrar-me através da minha feminilidade, é algo muito poderoso e profundo.  

As revistas de Moda foram uma parte importante da sua vida? 

Eu não costumava comprar muitas revistas de Moda porque, durante muito tempo, passei por imensas dificuldades financeiras. Não cresci rodeada de riqueza. Tudo o que tínhamos era cultivado e colhido da terra. Quando decidi procurar a minha independência, a minha família e os meus avós não me deram grandes direções, foi mais um, “ou vais para a escola ou vais trabalhar.” Acabei por ir para uma Escola de Estética e trabalhar como cabeleireira porque era a única coisa que era acessível na minha comunidade. E era aí que via revistas. Quando trabalhava no salão, aquilo que eu fazia era estudar os rostos. Ainda hoje, quando vou ver um desfile, estou a olhar para a coleção e para as peças, mas também estou a olhar para as raparigas. Sempre olhei para as mulheres. Todas estas jovens que estão a fazer estes desfiles, eu olho para os rostos delas e penso: “Que casting tão diverso e tão bonito. Adoro que esta modelo esteja a representar esta marca. Consigo perceber o tipo de rapariga específico para cada designer.” Na noite passada, acabei por me encontrar com algumas delas e é incrível. Elas são os novos rostos, e é muito entusiasmante celebrar a carreira delas. 

Ainda não conversámos sobre um marco na sua carreira: a sétima temporada de RuPaul’s Drag Race, de onde muitas pessoas a reconhecem. Porque é que decidiu fazer a audição para o programa? 

Na verdade, eu não queria. [Risos] Eu tinha demasiado medo! Tinha receio de não estar preparada. Eu era conhecida em Nova Iorque por ser uma look queen. Eu não fazia muitas performances porque não sentia essa paixão pelo palco. A minha paixão era a Moda, a Beleza. Não tinha carinho pelo palco. Os meus talentos passam pela minha dedicação, pelas ligações que crio com outras pessoas, pelas conversas, pela honestidade, pela espontaneidade. É isso que eu adoro. Com o RuPaul’s Drag Race, tudo começou com o Mathu Andersen, que foi o maquilhador do RuPaul durante vinte e muitos anos, antes da Raven estar a trabalhar na maquilhagem. E o Mathu é uma verdadeira lenda, um dos melhores criativos do mundo. Eu fui a uma aula dele na Make Up Forever e criámos uma ligação. Ele escreveu-me e disse: “Devias fazer a audição para o RuPaul’s Drag Race. Ias ser um contributo incrível para o programa.” Foi por isso que decidi ir à audição, por causa do Mathu Andersen. 

Foi a primeira queen a entrar no workroom na sua temporada. Em que é que estava a pensar, nesse momento? 

Eu estava tão ansiosa e nervosa. De repente, no segundo em que entras naquele voo, estás numa competição e só pensas: “Ok, a minha vida está prestes a mudar.” Fazer aquele programa foi uma experiência esmagadora porque eu estava a tentar ser respeitadora em relação ao RuPaul, e estava a admirar o poder e a presença de alguém como ele. Ao mesmo tempo, estava preocupada com o bem-estar das outras pessoas e com as minhas amizades. E num reality show, quando estás a competir para ganhar, tens de ser um pouco mais feroz que isso. Mas eu nunca fui assim. Eu não me queria transformar em alguém que eu não era só para filmar o programa porque quando fazes isso, acabas com um mau read, acabas por ser a vilã. E isso é algo que não me cai nada bem. Quando fui eliminada, senti que era a altura certa para mim. As pessoas dizem sempre: “Foi tão triste, devias ter ganhado.” Mas eu não estava destinada a ganhar. E não há problema. Eu estou bem com a minha vida e ganhei de tantas outras formas. Eu tenho uma carreira, numa indústria à qual sempre quis pertencer.

O RuPaul’s Drag Race foi o catalisador para que eu conseguisse ganhar visibilidade. Mas a minha carreira estava nas minhas mãos, sabes? Muitas pessoas fizeram o programa e não souberam nutrir essa oportunidade, e acabaram por desaparecer. O programa vai dar-te uma plataforma, mas tu tens de nutrir essa plataforma. É algo que ninguém vai fazer por ti. O meu sucesso não aconteceu só porque alguém pensou: “És tão bonita, não conseguimos ter que chegue, mais, mais, mais.” Eu fui atrás dele. Eu sempre nutri as minhas relações, e isso é algo muito orgânico para mim. Eu não quero existir neste planeta de forma superficial. Eu quero construir ligações autênticas. 

"O meu sucesso não aconteceu só porque alguém pensou: 'És tão bonita, não conseguimos ter que chegue, mais, mais, mais.' Eu fui atrás dele."

Quando se apresentou na sétima temporada disse: I’m beyond this planet beautiful.” [em português, “a minha beleza vai além deste planeta] Como é que construiu essa confiança? 

Sabes, nesse momento, estava a afirmar aquilo que precisava para acreditar em mim mesma. Meditei muito nessa altura da minha vida para me sentir leve e livre, e desligar-me da energia de Nova Iorque, que é tão agressiva. Quando eu cheguei ao programa, quis trazer a minha tranquilidade, a minha paz interior. Mas a expressão, o “I’m beyond this planet beautiful”... eu tinha um amigo do Egito, que era um pouco psíquico, e ele disse-me que devíamos fazer uma leitura com os grãos de café. Eu tinha a mente muito aberta e estava disposta a tentar tudo. E ele disse: “O teu corpo é um vaso para uma energia além deste universo. Uma energia feminina está a usar o teu corpo como um vaso, para ajudar pessoas neste planeta, que possam estar em situações de perigo, que não se sintam seguras. E tu és uma espécie de tranquilidade, de equilíbrio, de amor.”

Quando me explicou esta energia da Miss Fame, eu pensei que fazia muito sentido, e que era algo que eu conseguia experienciar. Quando eu me arranjo, sinto que estou a canalizar alguma coisa poderosa. Mesmo o meu marido diz-me: “Tu ficas dramaticamente diferente. Tu transformas-te em alguém que eu sinto que é maior do que tu.” Eu percebi que tinha este chamamento e esta energia, e quando disse “I’m beyond this planet beautiful” era a essa energia que eu me estava a referir. Estava a ser muito literal sobre o facto de estar a canalizar algo além deste planeta. 

O que vem a seguir para a Miss Fame? 

Quero continuar a evoluir a Miss Fame Beauty, claro. Tenho alguns projetos muito entusiasmantes nesse sentido e estou muito ansiosa por ver os resultados do desenvolvimento de produto. Quero que continuem a espelhar uma qualidade elevada, a serem produtos bonitos com uma performance igualmente bonita. Também quero decidir onde vou viver, sabes? Tenho andado de cidade em cidade, entre Paris e Nova Iorque. Mas sinto um chamamento para ficar cada vez mais pela Europa, sinto que quero viver aqui.

Quero viajar mais, experienciar diferentes culturas, inspirar mais pessoas, partilhar a minha mensagem e a minha história com o mundo, na esperança de ajudar qualquer pessoa a encontrar-se, com diálogo e autenticidade. Quero contribuir para uma mudança, associar as minhas coleções e os meus produtos a associações solidárias, envolver-me mais com a minha comunidade e com o planeta. Não importa em que fase estejas na tua vida, se conseguires contribuir de uma forma positiva e deixar uma boa impressão, é muito importante. Não só receberes, mas dares, também. Quero encontrar um equilíbrio, celebrar a vida e as pessoas, encontrar o melhor nelas e em mim mesma. Basicamente, continuar a fazer aquilo que tenho feito até aqui. 

Ficha técnica:
Fotografia de Thibault Theodore Babin
Styling de Laurent Dombrowicz
Figurantes:
Vaiora Stroganoff e Antoine Dugrand Castaignède.
Cabelos: Charlie Le Mindu.
Maquilhagem: Miss Fame. 
Manicure: Nassifa Djabi.
Set design: Nicola Scarlino.
Bodypaint: Jade Guigue.
Assistentes de fotografia: Valentin Pereira e Maelle Joigne. 
Assistentes de realização: Timothé Grand Chavin.
Assistentes de cabelo: Simon Chossier.
Editorial realizado em exclusivo para a Vogue Portugal.

Artigo originalmente publicado na edição de outubro de 2019 da Vogue Portugal.
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