Artigo Anterior

As oito magníficas: Paloma Elsesser

Próximo Artigo

#StayConnected: as cinco notícias da semana

Connected 21. 8. 2019

Porque é que os Millennials se sentem tão sozinhos?

by Sarah Raphael

 

Com a descoberta de que 30% dos Millennials se sentem sozinhos, a Vogue questiona o porquê da geração que cresceu com Friends ter mais em comum com Fleabag – “apenas uma rapariga, sem amigos e com um coração vazio” – e como será o futuro da amizade entre Millennials.

©Getty Images

Os primeiros millennials (nascidos em 1981) tinham acabado de chegar à adolescência quando Friends chegou ao pequeno ecrã, em 1994. Um ano depois, a música de abertura da série, I’ll Be There For You, dos The Rembrandts, chegou ao topo das tabelas em todo o mundo (onde permaneceu durante semanas), com o inesquecível “So no one told you life was gonna be this way/ Your job’s a joke, you’re broke/ Your love life’s D.O.A”. Tanto a música como a série ofereciam um antídoto quase perfeito para estas verdades duras: um grupo de amigos que se encontravam todos os dias para rir e chorar, sempre juntos.

Posto isto, como é que aqueles que cresceram com esta comédia — uma comédia que nos ensinou que as amizades que temos são a melhor forma de sobrevivermos — se tornaram na geração mais sozinha? De acordo com um estudo publicado pela YouGov em julho, 30% dos Millennials inquiridos responderam que se sentem muitas vezes ou sempre sozinhos, comparado com os 20% da Geração Z e os 15% dos Baby Boomers. 27% dos Millennials inquiridos responderam que não tinham nenhum amigo próximo (apesar de 70% terem respondido que têm, pelo menos, um melhor amigo). Talvez mais alarmante que isso são os 22% que reportaram não terem amigos.

Serão as redes sociais as culpadas por tudo isto?

“Estas estatísticas não me surpreendem, e não são assim tão diferentes daquelas relativas a gerações passadas”, diz, à Vogue, Aminatou Sow, coapresentadora do podcast Call Your Girlfriend e coautora (com Ann Friedman) do livro Big Friendship (que chegará às prateleiras em 2020). “Os americanos não estão mais sozinhos do que nunca, mas existe uma lacuna enorme entre os amigos que temos e a forma como nos sentimos ligados a eles. Apesar da tecnologia não causar solidão por si, eu suspeito que seja capaz de a agravar.”

Graças a plataformas como o Facebook, o Twitter, o Instagram e o Snapchat, todos nós temos mais “amigos” que nunca — mas esses amigos não estão sentados no nosso sofá a desabafar sobre as suas relações amorosas, estão a identificar-nos em memes e a comentar as nossas publicações. As redes sociais alargaram o nosso ciclo, mas também o diluíram de uma forma drástica. Das centenas e centenas de “amigos”, aqueles que regularmente gostam ou comentam as nossas fotos não são necessariamente aqueles que chamaríamos numa crise.

Então, de quantos amigos precisamos, mesmo?

Segundo Robin Dunbar, antropologista evolucional e autor de How Many Friends Does One Person Need?, não conseguiríamos ter relações significativas com este número de pessoas, mesmo que quiséssemos. Com base no tamanho do cérebro do ser humano quando comparado com aquele de outros mamíferos, Dunbar defende que existe um número finito de amigos que conseguimos ter, que o especialista organiza em “camadas” dependendo da profundidade emocional. O antropologista estima que na nossa camada mais próxima (por exemplo, os amigos que chamamos em situações de maior necessidade), existe espaço para até cinco amigos. Na próxima camada, para 10 amigos. Na terceira, podemos ter 35 e, na última camada, temos espaço para mais 100, simbolizando uma capacidade máxima de 150 pessoas na nossa esfera (o especialista batizou isto como o “Número Dunbar”).

Devido à prevalência das redes sociais nas nossas vidas, é possível que estejamos a dispensar mais tempo a nutrir estas relações superficiais — os 35 na terceira camada, ou os mais de 100 na última — do que aquelas que estão no nosso ciclo mais imediato e que nos são mais valiosas e próximas. Por mais ligação que tenhamos, se essa primeira camada não estiver lá, vamos sentir-nos sozinhos.

Em 2015, Taylor Swift apresentou ao mundo a sua primeira camada, que chamou de “squad”, um grupo de amigas que estavam visivelmente ali, umas para as outras. Quatro anos depois, num artigo intitulado “30 coisas que aprendi antes dos 30” para a revista Elle, a líder do “squad” admitiu que o grupo de amigas que parecia tão sólido durante os seus vintes tinha acabado por se afastar: “É triste mas, às vezes, quando cresces, acabas por superar algumas relações.”

Estamos a dar mais prioridade a nós mesmos do que aos nossos amigos?

A cientista comportamental Sarah Hopwood oferece-nos outra perspetiva. Não necessariamente a ideia de superarmos algumas relações, mas antes o facto de priorizarmos o nosso crescimento individual em detrimento das nossas relações com os outros. “Na nossa sociedade neoliberal capitalista, criámos uma cultura muito individualista onde o sucesso é visto como algo que se deve a uma ação ou a um comportamento individual”, explica Hopwood. “O sucesso pessoal e o bem-estar pessoal são postos num pedestal acima do nosso papel interpessoal na sociedade e as nossas ligações com os outros. Daí o crescimento da cultura do wellness.”

Longe do sonho do “squad” de Taylor Swift, a maior parte das imagens que vemos são de pessoas sozinhas, em selfies no ginásio, a experimentarem um novo look de maquilhagem no quarto, a trabalharem. Neste regime de aperfeiçoamento pessoal, é possível que estejamos a esperar pouco dos nossos amigos e demasiado de nós mesmos. “Olhamos à nossa volta e temos a perceção de que as outras pessoas estão bem: que estão ocupadas, a apressarem-se para a próxima atividade ou compromisso,” Hopwood continua. “Posto isto, sentimos que não podemos contar com as pessoas, e acabamos por fazer o mesmo que elas — enchemos a nossa vida com distrações, mas não temos ligações próximas. Na nossa cultura, não estar bem é visto como um sinal de fraqueza, ao invés de algo que faz parte da natureza humana.”

Como é, então, a amizade entre Millennials?

Apesar dos Millennials terem crescido com sitcoms dos anos 90 como Friends e Sex and the City, as séries que esta geração viria a escrever narram uma história mais semelhante àquela das estatísticas da YouGov. Na última temporada do sucesso de Lena Dunham, Girls, o grupo de amigas separou-se, deixando Marnie e Hannah com as remanescências das suas amizades. Já Fleabag de Phoebe Waller-Bridge é, para muitos, a imagem mais relacionável da experiência Millennial — uma série onde a protagonista é descrita, por si própria e pela sua psicóloga, como “uma rapariga que não tem amigos e tem um coração vazio.” Apesar de ser a anti heroína da geração Millennial, Fleabag estaria entre os 22% que não têm um único amigo.  

A importância dos amigos próximos na felicidade a longo prazo

Em 2017, uma investigação sobre relacionamentos comparou dois estudos distintos: o primeiro realizado com mais de 270 mil pessoas em 100 países; e o segundo a 7.500 pessoas reformadas nos Estados Unidos da América. William Chopik, autor do relatório e investigador, psicólogo e diretor do Close Relationships Lab da Michigan State University, concluiu que ter amigos próximos em idades mais avançadas é um fator mais importante para a felicidade e o bem-estar do que a família. “Manténs essas pessoas por perto porque elas te fizeram feliz ou, pelo menos, porque contribuíram para o teu bem-estar de alguma forma”, explicou o investigador à revista Time. “No decorrer das nossas vidas, deixamos que as amizades mais superficiais desvaneçam e mantemos só aquelas que são realmente importantes.”

À luz do estudo de Chopik, as estatísticas da YouGov são alarmantes — no que toca à felicidade a longo prazo, parece bastante óbvio que as prioridades dos Millennials precisam de mudar. Posto isto, da próxima vez que sair para ir tomar o café, deixe aquela camada de amizades superficiais no ecrã do telemóvel, ligue aos amigos que lhe são mais próximos e passe umas boas horas com eles.

Artigos Relacionados

Tendências 9. 11. 2018

Redes sociais: no limiar da loucura?

Ansiedade, pressão, estilos de vida irrealistas e imagens irreais. De Meghan Markle a Gigi Hadid, passando pela mais recente ferramenta do Instagram, a Vogue foi perceber o porquê das redes sociais poderem ser um poço sem fundo.

Ler mais

Palavra da Vogue 28. 8. 2017

Humanos, demasiado humanos

Mais de 300 milhões de pessoas sofrem de uma doença invisível chamada depressão. A sociedade moderna acelerou-a, mas também a transformou num tabu. Está na altura de começarmos a falar sobre o assunto – abertamente. O pior que pode acontecer é descobrirmos que até o cérebro tem razões que a razão desconhece.

Ler mais

Este website utiliza cookies. Saiba mais sobre a nossa política de cookies.   OK