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Tendências 9. 11. 2018

Redes sociais: no limiar da loucura?

by Mónica Bozinoski

 

Ansiedade, pressão, estilos de vida irrealistas e imagens irreais. De Meghan Markle a Gigi Hadid, passando pela mais recente ferramenta do Instagram, a Vogue foi perceber o porquê das redes sociais poderem ser um poço sem fundo.

Gigi Hadid e Bella Hadid ©Getty Images

Passou-se pouco menos de um ano desde que Meghan Markle e o Príncipe Harry, agora Duques de Sussex, anunciaram o seu noivado. Para trás, Markle deixou aquilo que se considera ser uma vida relativamente normal – abandonou a sua carreira como atriz, apagou o seu blog de lifestyle, The Tig, e pôs um ponto final à presença pessoal e ativa nas redes sociais. Para muitas de nós, isto seria certamente impensável. Apagar o Instagram? Nunca, jamais, em tempo algum. Para a Duquesa de Sussex, que continua a exercer a sua voz para defender os direitos das mulheres e apoiar as mais diversas causas, eliminar as redes sociais, como a própria confessou, foi algo “verdadeiramente libertador”.

Durante a tour de duas semanas pela Austrália, Nova Zelândia, Fiji e Tonga, os Duques de Sussex juntaram-se a um grupo de voluntários da organização de saúde mental Live For Tomorrow, que tem como objetivo apoiar e espalhar uma mensagem positiva pelas camadas jovens. “É difícil para as pessoas mais novas. Vês uma foto nas redes sociais e não consegues perceber se aquela pessoa é mesmo assim, ou se é apenas um filtro”, defendeu a Duquesa de Sussex. “Os elogios e as críticas passam pela mesma plataforma. A tua opinião e o teu sentido de autoestima ficam destorcidos quando tudo se baseia em likes”.

“As questões que derivam das redes sociais e dos videojogos são um problema muito preocupante para as pessoas mais jovens no Reino Unido – e em todo o mundo”, confessou o Príncipe Harry, Duque de Sussex, durante a passagem pela Nova Zelândia. “Somos muito rápidos a apontar os dedos aos pais, e isso nem sempre é justo, porque eles também precisam de ser educados neste sentido”.

“Em média, passamos duas horas por dia nas redes sociais. Qualquer coisa que nos tire este tipo de tempo terá um efeito certamente prolongado em nós.”

 

Não é a primeira vez que o lado mais negro das redes sociais é publicamente questionado. Afinal de contas, acordamos com o telemóvel nas mãos e adormecemos com o telemóvel nas mãos. Filtramos quem somos em prol de um ou dois elogios de pessoas que, muito provavelmente, nunca vimos na vida. Pintamos um mundo que não existe em prol de um ou dois seguidores que, provavelmente, não representam nada mais do que números – segundo um estudo conduzido pela Allianz Global Assistance, 65% dos millennials publicam fotografias das suas férias com a intenção de causar inveja aos seus seguidores, e mais de um terço publicam imagens enganadoras com a intenção de transmitir um cenário que não corresponde à realidade. O pior de tudo? O efeito desgastante que esta ilusão tem na nossa estabilidade emocional e na nossa saúde mental.

“Em média, passamos duas horas por dia nas redes sociais. Qualquer coisa que façamos com este tipo de frequência, e durante tanto tempo, merece uma observação crítica. Qualquer coisa que nos tire este tipo de tempo terá um efeito certamente prolongado em nós”, defendeu Bailey Parnell, expert em redes sociais, durante uma conferência do TEDx Talks. O cenário preocupante não demorou a surtir ações práticas. Em agosto deste ano, o Instagram e o Facebook anunciaram a introdução de diversas ferramentas com o intuito de ajudar os utilizadores a medirem e a controlarem o tempo que passam nas plataformas – uma decisão tomada em prol da qualidade da nossa saúde mental.

“Desenvolvemos estas ferramentas em colaboração com experts, organizações e académicos na área da saúde mental, e com base na nossa própria pesquisa e no feedback da nossa comunidade”, explicaram Ameet Ranadive, product management director do Instagram, e David Ginsberg, director of research do Facebook, em comunicado, citados pela edição britânica da Vogue. “Queremos que os utilizadores passem tempo no Facebook e no Instagram de forma intencional, positiva e inspiradora. Temos esperança que estas ferramentas ajudem as pessoas a ter um maior controlo do tempo que passam nas nossas plataformas, mas também a promover uma conversa entre pais e jovens sobre os hábitos digitais que são melhores para eles”, defenderam.

 “Quem é que quer ligar o telemóvel às 7 da manhã e ler algo negativo sobre si própria?” 

 

A ideia de controlar o tempo que passamos nas redes sociais não é uma novidade. Em 2016, Kendall Jenner surpreendeu os seus seguidores ao apagar a sua conta de Instagram de forma inesperada. “Precisava de uma pausa. Estava sempre agarrada”, confessou numa entrevista com Ellen DeGeneres. “Era a primeira coisa que via quando acordava, e a última coisa que via quando me ia deitar. Senti que estava um pouco dependente”.

Dois anos depois, numa conversa com Lana Del Rey para a revista Elle, a modelo continuou a elaborar a questão. “É um vício. Quando estou num jantar com amigos, olho para alguém e essa pessoa está agarrada ao telemóvel. Não está a mandar uma mensagem, que é algo que eu consigo tolerar. Talvez esteja a tratar de algum assunto urgente, ou a ler um e-mail importante? Não. Está no Instagram ou no Twitter”, confessou. “É algo que me incomoda. Acabo sempre por dizer algo como, ‘Oh meu Deus, não precisas de estar a ver o que alguém está a fazer!’. Tento sempre não ser essa pessoa – tento que a minha vida não seja vivida através do meu telemóvel”.

Kendall Jenner não é a única personalidade que já embarcou no famoso detox digital. “Vou tirar um mês das redes sociais, durante o Ano Novo”, contou Gigi Hadid em 2016, durante a apresentação da campanha #PerfectNever da Reebok. “Não vou apagar a minha conta, mas vou apagar as aplicações do meu telemóvel”. Bella Hadid seguiu o exemplo da irmã mais velha. “Preferia não estar presente nas redes sociais”, confessou em entrevista à W Magazine, em 2017. “Especialmente nestes dias, é algo que me deixa louca. Quando tiro alguns dias das redes sociais, sinto-me uma pessoa mais feliz. Aliás, recentemente, tomei a decisão de não ver o meu telemóvel assim que acordo. Acho que é por isso que muitas vezes começas o dia de uma forma negativa, quando lidas com esse tipo de energia logo pela manhã. Quem é que quer ligar o telemóvel às 7 da manhã e ler algo negativo sobre si própria?”.

A lista não acaba com alguns dos nomes mais influentes da indútria da Moda. Recentemente, Ariana Grande decidiu afastar-se das redes sociais poucos dias depois do seu noivado com Pete Davidson ter terminado (“Está na hora de dizer adeus à Internet, só por uns tempos. É muito difícil não ver notícias que estou a tentar evitar neste momento”, foi a mensagem partilhada pela cantora no Instagram), Kylie Jenner rompeu a presença ativa no Instagram durante a gravidez, e Selena Gomez publicou a sua última foto no Instagram em setembro deste ano.

“Update: vou tirar uma pausa das redes sociais. Outra vez.”, escreveu a cantora e atriz na descrição da imagem. “Se é verdade que me sinto grata pela voz que as redes sociais dão a todos nós, também é verdade que me sinto grata por poder dar um passo para trás e viver a vida no presente, e neste momento que me foi dado. Bondade e encorajamento só por um momento! Lembrem-se – os comentários negativos podem magoar os sentimentos de qualquer pessoa”.

Um digital detox pode parecer uma ideia fora das nossas capacidades, mas olhar para a nova ferramenta do Instagram levanta a questão do porquê de ser tão necessário. Uma visita ao separador “A tua atividade” pode revelar um lado assustador, um lado do qual não temos, muito possivelmente, consciência ou controlo. Ainda assim, o dedo toca e o gráfico aparece. Nos últimos sete dias, calcula-se uma média de uma hora e dez minutos passadas, por dia, a scrollar o mundo imaginário do Instagram – um mundo que tantas vezes nos deixa com um sentimento de vazio, de inveja miudinha, de elogios falsos e críticas escondidas, de “ela tem e eu não tenho”, de “ela está mais magra” ou “ela está mais gorda”. Um mundo de imagens falsas, de filtros coloridos, de cenários irrealistas. Todos eles desenhados para despertar o pior que existe em nós. Será mesmo este o mundo onde queremos viver duas horas por dia?

 
 
 
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