Moda   Roteiro  

Arte & Moda (mas, acima de tudo, beleza) na Fundação Calouste Gulbenkian

07 May 2026
By Rita Petrone

Pintura Pallas Athena (1657), Rembrandt Harmenszoon van Rijn e pupilo; e vestido em lamé, da coleção de outono-inverno de 1986, Thierry Mugler para Azzedine Alaïa.

Quando se fala de Arte e de Moda, a tendência é separá-las em diferentes cantos do campo de batalha. Mas essa perspetiva nem sempre se traduz para o que se faz sentir na realidade humana. Agora, numa exposição única na Fundação Calouste Gulbenkian, ambas as áreas são vistas (e tratadas) como os ingredientes secretos da equação da beleza, indissociáveis à criação artística.

Há caminhos que se traçam lado a lado. De forma tão paralela e entrelaçada que, por vezes, torna-se crucial perceber até que ponto não se trata apenas de um caminho só. É o caso da Arte e da Moda, dois universos artísticos que agora se encontram sob um único teto: numa exposição na Galeria Principal da Sede da Fundação Calouste Gulbenkian. Patente até dia 21 de junho, e com o mote de espelhar o laço singular que os dois mundos partilham — assim como as narrativas fruto dessa união — a mostra Arte & Moda é uma experiência ambiciosa e única. Ao longo de 270 peças, a coleção reúne o que Eloy Martínez de la Pera Celada, responsável pela curadoria, descreve como “a melhor Arte e a melhor Moda”. O projeto reflete a riqueza e a diversidade da coleção do museu, evocando a organização da sua exposição permanente e apresentando-se como uma metáfora visual para uma variedade de diálogos; aqui, o antigo e o contemporâneo, o artístico e o quotidiano assinam uma nova narrativa partilhada, criada após um processo de curadoria de quatro anos.

A mostra vê mestres da pintura — como Rembrandt, Rubens, Monet e Degas — a partilhar palco com ícones do design de Moda — como Cristóbal Balenciaga, Jean Paul Gaultier, Alexander McQueen e Guo Pei. Mas é também uma homenagem ao próprio Calouste Gulbenkian e ao seu amor pela Arte e pela Moda. “Gulbenkian e a esposa Nevarte Essayan adoravam coisas bonitas e eram genuínos quanto a isso”, partilha o curador, “Viviam rodeados desse tipo de peças na sua casa [o roupeiro e as mesinhas de cabeceira, por exemplo, incluem-se na exposição]; um pouco barroco, um pouco exagerado, às vezes, mas queriam ter tapetes bonitos, candeeiros bonitos, um piano bonito e tapeçaria bonita. Eram também colecionadores de revistas e livros de Moda. Eram realmente pessoas que amavam Moda”. Na sua essência, a exposição é uma ode à beleza e às pessoas que a sabem apreciar e colecionar.

Esquerda: roupeiro em carvalho e madeiras exóticas, bronze, tartaruga e latão (circa 1700), André-Charles Boulle; e coordenados da coleção Haute Couture de outono-inverno de 1990, ambos Hubert de Givenchy. Direita: pintura Virgin and Child (1508-10), do círculo de Jan Gossaert intitulado Mabuse; e vestido e capa da coleção de Haute Couture da primavera-verão de 1997, Alexander McQueen para Givenchy.

Esquerda: roupeiro em carvalho e madeiras exóticas, bronze, tartaruga e latão (circa 1700), André-Charles Boulle; e coordenados da coleção Haute Couture de outono-inverno de 1990, ambos Hubert de Givenchy. Direita: pintura Virgin and Child (1508-10), do círculo de Jan Gossaert intitulado Mabuse; e vestido e capa da coleção de Haute Couture da primavera-verão de 1997, Alexander McQueen para Givenchy.

O projeto museográfico partiu da coleção do museu, e o desafio passou por encontrar Moda capaz de dar continuidade à narrativa da exposição: “Moda capaz de dialogar com Rubens, capaz de dialogar com Carpaccio e capaz de dialogar com uma das mais belas máscaras de ouro egípcias de sempre”, diz Martínez de la Pera Celada. A mostra conta com cerca de 140 peças de Alta-Costura provenientes dos arquivos do MUDE-Museu do Design, Museo del Traje de Madrid, Museu Nacional do Traje de Lisboa, Givenchy, Fundação Azzedine Alaïa, entre outros. Além disso, inclui também seis peças da emblemática Guo Pei — a designer chinesa responsável pelo inconfundível vestido amarelo usado por Rihanna na Met Gala de 2015 —, vindas diretamente da China e algumas das quais expostas pela primeira vez na Europa. No seu cerne, o projeto é um manifesto visual, cultural e histórico que visa reiterar a presença da Moda e da Alta-Costura como crucial à história da humanidade. “A Arte deve à Moda a sua inspiração, e a Moda deve à Arte a sua permanência no tempo”, defende o curador. “Sabemos como as pessoas se vestiam no Quattrocento graças aos frescos de Florença ou pinturas de Carpaccio, porque não existe uma única peça de vestuário desse período em nenhum museu do mundo. Por isso, esta exposição transmite também uma homenagem à Arte como memória da Moda”.

Esquerda: Pintura Landscape in a Park (circa 1850) , Eugène-Louis Lami, e vestido com bolero, da coleção Tarnished Beauty de Haute Couture de 2012, Jantaminiau. Direita: Ilustração Les Adieux (1777), Robert Delaunay, pós-Jean-Michel Moreau, intitulado le Jeune, e corpete Panniers e saia Inês de Castro, da coleção primavera-verão de 2012, Storytailors.

Esquerda: Pintura Landscape in a Park (circa 1850) , Eugène-Louis Lami, e vestido com bolero, da coleção Tarnished Beauty de Haute Couture de 2012, Jantaminiau. Direita: Ilustração Les Adieux (1777), Robert Delaunay, pós-Jean-Michel Moreau, intitulado le Jeune, e corpete Panniers e saia Inês de Castro, da coleção primavera-verão de 2012, Storytailors.

A mostra é uma antologia de histórias, contadas de forma intencional, partilhada e visual. Para Martínez de la Pera Celada, sempre foi óbvio que a mesma devia começar com uma máscara egípcia e terminar com uma obra de Burne-Jones — “queria que o alfa e o ómega da coleção fossem também o alfa e o ómega da exposição”, revela. “Ficou bem claro que, para [combinar com] a máscara, queria usar o magnífico ouro de Guo Pei e que queria representar as dez deusas da pintura de Burne-Jones. (...) Queria prestar uma espécie de homenagem, através da Moda, a algumas das pessoas que mais admiro na minha vida”, continua. É graças a esse conhecimento e intuição profundos que a mostra inclui peças de Mariano Fortuny, Madame Grès, Hubert de Givenchy e Philippe Venet. Mas, para o curador, não se trata apenas de conhecimento, mas sim uma questão da nossa memória estética criar estes diálogos na nossa mente. A dificuldade chegou sob a tarefa de selecionar. A exposição começou com cerca de 200 peças de Arte e mais de 350 vestidos. “Trata-se de filtrar, escolher e tentar encontrar esses diálogos que acreditamos que o público irá sentir, mais do que compreender”, admite Martínez de la Pera Celada. “Essa foi uma das minhas ambições com esta exposição: que, mesmo que o público não leia uma única linha da exposição, saia da sala a apreciar a beleza. Como disse Fiódor Dostoiévski, ‘a beleza salvará o mundo’; e com a beleza, acredito que nos tornamos pessoas melhores”.

Esquerda: Busto em mármore Herm of de Vestal Tuccia (1818), Antonio Canova, e vestido com bolero, da coleção Tarnished Beauty de Haute Couture de 2012, Jantaminiau. Direita: Bule em porcelana e bronze do séc. XVIII (circa 1750-55), da dinastia Qing, e vestido, da década de 1960, Pierre Balmain.

Esquerda: Busto em mármore Herm of de Vestal Tuccia (1818), Antonio Canova, e vestido com bolero, da coleção Tarnished Beauty de Haute Couture de 2012, Jantaminiau. Direita: Bule em porcelana e bronze do séc. XVIII (circa 1750-55), da dinastia Qing, e vestido, da década de 1960, Pierre Balmain.

Ao longo de uma variedade de peças que se situam no limbo entre a Arte e a Moda e percorrem séculos da História da Humanidade, a exposição reitera uma máxima que, apesar de simples, por vezes, se mantém longínqua na mente do público: que todos os génios, de ambas as indústrias, olhavam para os dois universos como uma fonte inesgotável de inspiração. “Percebemos que tinham curiosidade pelo que se passava nas outras esferas da criação artística. Percebemos que McQueen adorava saber tudo sobre a história da Arte. Percebemos que Givenchy era um grande colecionador de mestres antigos, mas também de artistas contemporâneos. Percebe-se que Carpaccio adorava a Moda, devido à forma como a representa nas suas pinturas. Por fim, percebe-se que todas as pessoas representadas na exposição tinham curiosidade pela criação dos artistas que as precederam e pelas criações dos artistas da sua época”, diz. “Não há dúvida de que os melhores designers de Moda possuem um profundo conhecimento da história da Arte, e os grandes artistas estavam plenamente conscientes de que a Moda era essencial nas suas pinturas — pois representa tendências, a sociedade e a dignidade das pessoas retratadas nas suas obras”, conclui o curador. Essencialmente, Arte & Moda é uma exposição repleta de histórias e diálogos — estéticos, conceptuais, emocionais e, por vezes, sociais. Com lugar reservado num dos principais museus da capital portuguesa, durante apenas dois meses, é uma mostra onde, acima de tudo, se pode encontrar beleza através de 270 peças consideradas todas (e cada uma delas) verdadeiras obras de Arte.

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Originalmente publicado no The Heart & Reason Issue, a edição de maio de 2026 da Vogue Portugal, disponível aqui.

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