Numa noite dedicada ao dress code Fashion is Art, eis os looks que não se limitaram a fazer uma referência à história da Arte – citaram-na.
O dress code da Met Gala incentiva sempre a capacidade de interpretação, mas o deste ano praticamente implorou por ela.
Enquanto no interior do museu a exposição Costume Art oferece uma reflexão profunda, quase académica, sobre o corpo vestido na Arte ao longo dos séculos, na escadaria do Metropolitan Museum of Art, a passadeira vermelha, com o tema Fashion Is Art apresentou algo completamente diferente: um convite, ou mesmo um desafio, para se levar o tema um pouco à letra. Alguns convidados fizeram uma referência educada ao tema. Outros apareceram prontos para se destacar.
Se a exposição é sobre ideias, a Moda foi sobre referências – grandes, ousadas e, ocasionalmente, deliciosamente diretas. Enquanto Gracie Abrams brilhou como se tivesse saído diretamente do Retrato de Adele Bloch-Bauer I, de Klimt, Rachel Zegler apresentou um drama histórico completo através de A Execução de Lady Jane Grey. Madonna não se limitou a fazer referência a Leonora Carrington, encarnou-a – com comitiva e tudo – e Heidi Klum apostou tudo em A Virgem Velada. E depois houve o trio mais inesperado da noite: três interpretações distintas do Retrato de Madame X, de Sargent, cortesia de Claire Foy, Lauren Sánchez e Julianne Moore – prova de que até uma alça escandalosa pode ter uma longa vida após a morte.
Abaixo, eis os looks que não se limitaram a cumprir a tarefa e praticamente citaram as suas fontes.
Cardi B em Marc Jacobs – Esculturas de Hans Bellmer
Esquerda: Taylor Hill / Getty Images. Direita: © 2026 Artists Rights Society (ARS), New York / ADAGP, Paris. Fotografia de Bridgeman Images.
Cardi B surgiu como um sonho surrealista em estado febril, cortesia de Marc Jacobs, com o seu corpo transformado nas proporções inquietantes de Hans Bellmer. Bellmer, um provocador da década de 1930, é mais conhecido pelas suas fotografias perturbadoras e meticulosamente encenadas de bonecas – membros reorganizados, torsos duplicados, corpos fragmentados em algo simultaneamente hiperfeminino e profundamente inquietante. Jacobs inspirou-se diretamente nessa linguagem visual, exagerando as ancas, os ombros e a silhueta de Cardi, transformando-a em algo escultural e ligeiramente desequilibrado.
Gracie Abrams em Chanel - Gustav Klimt, Retrato de Adele Bloch-Bauer I (1907)
Esquerda: Jamie McCarthy / Getty Images. Direita: Heritage Images / Getty Images.
Gracie Abrams inspirou-se totalmente no Retrato de Adele Bloch-Bauer I de Klimt, mais conhecido como a Mulher de Ouro, um dos retratos mais famosos — e mais controversos — do século XX. O seu vestido custom Chanel ecoava a superfície em folha de ouro característica da pintura, construída a partir de um bordado denso, semelhante a um mosaico, que, visto de perto, parecia quase uma armadura.
Rachel Zegler em Prabal Gurung - Paul Delaroche, A Execução de Lady Jane Grey (1833)
Esquerda: Jamie McCarthy / Getty Images. Direita: Heritage Images / Getty Images.
Rachel Zegler optou por um visual impactante, através de um vestido de Prabal Gurung inspirado na obra A Execução de Lady Jane Grey. A pintura retrata os momentos finais antes da execução da rainha adolescente, com a venda nos olhos a simbolizar tanto a sua inocência como a sua total vulnerabilidade; ela, literalmente, não consegue ver o que está para acontecer. Zegler traduziu isso num vestido branco austero, com ombros à vista, deixando que a venda nos olhos transmitisse toda a carga emocional.
Claire Foy em Erdem - John Singer Sargent, Retrato de Madame X (1884)
Esquerda: Michael Buckner / Getty Images. Direita: Fine Art / Getty Images
O look Erdem de Claire Foy inspirou-se no Retrato de Madame X — o retrato de 1884 que causou controvérsia devido a uma alça fora do sítio e considerada (na época) chocantemente sugestiva. Sargent, como é sabido, repintou-o, recolocando a alça no ombro, mas a tensão nunca desapareceu por completo. Foy enfatizou esse jogo de tensões, ao usar um vestido justo de cetim preto combinado com um casaco Barbour bordado com cristais, que conferiu ao look um ar ligeiramente despojado.
Lauren Sánchez em Schiaparelli - John Singer Sargent, Retrato de Madame X (1884)
Esquerda: Kevin Mazur / MG26 / Getty Images. Direita: Fine Art / Getty Images
Lauren Sánchez, por sua vez, foi direta ao cerne da controvérsia original: o seu vestido custom Schiaparelli remetia para a versão do quadro de Singer que, pela primeira vez, chocou Paris com aquele pequeno detalhe revelador.
Julianne Moore em Bottega Veneta - John Singer Sargent, Retrato de Madame X (1884)
Esquerda: Dimitrios Kambouris / Getty Images. Direita: Fine Art / Getty Images
Julianne Moore apresentou a interpretação mais subtil de Retrato de Madame X da noite. Num exemplar custom da Bottega Veneta, a atriz deixou a alça do ombro cair apenas ligeiramente — uma referência discreta ao detalhe que causou tanto alvoroço em 1884. De certa forma, a sua abordagem estava em sintonia com o próprio legado do retrato de Sargent: o que contribuiu para a sua perdurabilidade não é o que é mostrado, mas sim o que é sugerido.
Amy Sherald em Thom Browne - Amy Sherald, Miss Everything (Unsuppressed Deliverance) (2013)
Esquerda: Michael Buckner / Getty Images. Direita: © Amy Sherald. Courtesy the artist and Hauser & Wirth. Fotografia de. Joseph Hyde
Amy Sherald interpretou o tema à letra — e depois deu-lhe a volta. Num look custom Thom Browne, inspirado na sua própria pintura, Miss Everything (Unsuppressed Deliverance), chegou ao Met tanto como artista e como obra de Arte. (Outros artistas visuais convidados para a gala deste ano incluíram Tschabalala Self, Anna Weyant e Maya Lin.) As bolinhas, as linhas gráficas nítidas, a paleta inconfundível — tudo remetia para o estilo altamente característico de Sherald.
Hunter Schafer em Prada - Gustav Klimt, Mäda Primavesi (1912)
Esquerda: Theo Wargo / Getty Images. Direita: Heritage Images / Getty Images.
O look Prada de Hunter Schafer fazia referência a Mäda Primavesi, o curioso retrato de uma criança vienense pintado por Klimt em 1912. Ao contrário dos retratos da alta sociedade dourados do artista, este é arejado e um pouco excêntrico — Mäda aparece, de olhos arregalados, contra um fundo de cores e padrões dispersos — e os padrões florais suaves e peculiares de Schafer faziam referência a essa sensibilidade.
Kim Kardashian em Allen Jones - Allen Jones, Body Armour (2013)
Esquerda: Michael Buckner / Getty Images. Direita: Bridgeman Images.
O visual de Kim Kardashian remetia diretamente para Body Armour (2013), de Allen Jones — uma série escultural inspirada em Kate Moss, na qual a forma feminina é representada como uma concha elegante e de alto brilho. A obra situa-se algures entre o vestuário e a escultura, transformando o corpo numa superfície polida, em vez de algo macio ou natural. A armadura de Kardashian retomou essa ideia, exagerando o torso até algo quase industrial na sua perfeição. Trata-se menos de vestir o corpo do que de o remodelar.
Naomi Watts em Dior - Naturezas mortas holandesas
Esquerda: Getty Images. Direita: VCG Wilson / Corbis / Getty Images.
O vestido custom Dior de Naomi Watts, desenhado por Jonathan Anderson, remetia para o look de Alta-Costura Tableau Final da marca, de 1951, originalmente apresentado numa paleta de tons claros com motivos florais em rosa suave. Aqui, as mesmas flores esculturais destacam-se sobre um fundo preto profundo, com as cores tornadas mais saturadas e marcantes. Esta mudança fez com que o vestido parecesse menos uma peça para uma festa no jardim e mais uma pintura de natureza morta.
Luke Evans em Palomo Spain - Desenhos de Tom of Finland
Esquerda: Mike Coppola / Getty Images. Direita: © 2026 Tom of Finland Foundation / Artists Rights Society (ARS), New York. Fotografia de Art Resource, NY.
Atualmente em cartaz na Broadway com o espetáculo The Rocky Horror Show, Luke Evans trouxe um pouco dessa confiança teatral para a passadeira vermelha, entrando no mundo de Tom of Finland com um look custom em pele da Palomo Spain. Tom of Finland — cujo nome verdadeiro era Touko Laaksonen — tornou-se conhecido pelos seus desenhos de homens hipermasculinos, vestidos com uniformes de couro e bonés, que esbatem a linha entre a autoridade e a fantasia. O look de Evans captou essa linguagem visual.
Alexa Chung em Dior - Claude Monet, série Nenúfares (c. 1897–1926)
Esquerda: Getty Images. Direita: Heritage Images / Getty Images.
O vestido custom Dior de Alexa Chung, desenhado por Jonathan Anderson, inspirou-se nos Nenúfares de Monet — mas de uma forma simplificada, quase monocromática. O vestido destacava um único nenúfar em flor sobre um fundo fluido em tom chartreuse, transformando a cena impressionista de Monet em algo mais gráfico e controlado. Mantinha-se uma sensação de suavidade e atmosfera, mas com um toque de nitidez suficiente para se destacar com clareza na passadeira vermelha.
Lisa Airan em Christopher Kane - Henri Matisse, A Dança (1910)
Esquerda: Matt Crossick / PA Images / Getty Images. Direita: © 2026 Succession H. Matisse / Artists Rights Society (ARS), New York. Fotografia de Getty Images.
Lisa Airan escolheu uma das propostas da coleção de primavera de 2015 de Christopher Kane, inspirada na obra A Dança, de Henri Matisse. O vestido refletia as cores intensas e a sensação de movimento da pintura, com as suas figuras a contornarem o corpo de forma divertida.
Madonna em Saint Laurent - Leonora Carrington, A Tentação de Santo António. Fragmento II (c. 1945)
Esquerda: TheStewartofNY / Getty Images. Direita: © 2026 Estate of Leonora Carrington / Artists Rights Society (ARS), New York. Fotografia de Bridgeman Images.
Madonna assumiu o papel de uma feiticeira sombria em Saint Laurent, inspirando-se em Leonora Carrington — a pintora e escritora do século XX cuja obra, na década de 1940, evocava mundos oníricos repletos de bruxas, seres híbridos e cenas de caráter ritual. As pinturas de Carrington não se centram tanto numa única figura, mas sim num elenco completo de personagens, e Madonna compreendeu isso: a sua capa violeta transparente, carregada por uma pequena procissão de mulheres, criou um quadro extenso e evocativo.
Kendall Jenner em Zac Posen (GapStudio) - Vitória Alada de Samotrácia (c. 190 a.C.)
Esquerda: Udo Salters / Getty Images. Direita: Stephane Ouzounoff / Getty Images.
Kendall Jenner ganhou literalmente asas na segunda-feira, inspirando-se em Vitória Alada de Samotrácia — a estátua de mármore do século II a.C. que dá as boas-vindas no topo da escadaria que conduz à saída da Ala Denon do Louvre. Zac Posen traduziu os drapeados esvoaçantes num jersey fluido, de aspeto quase molhado, que se moldava ao corpo e se movia nos pontos certos.
Yu Chi Lyra Kuo em Jean Paul Gaultier - Vitória Alada de Samotrácia (c. 190 a.C.)
Esquerda: Michael Loccisano / GA / Getty Images. Direita: Stephane Ouzounoff / Getty Images.
Yu Chi Lyra Kuo apostou no drama com um vestido Jean Paul Gaultier também inspirado em Vitória Alada de Samotrácia. Desde as pregas até ao volume, o look era uma maravilha escultural.
Ben Platt em Tanner Fletcher - Georges Seurat, Uma Tarde de Domingo na Ilha de La Grande Jatte (1884–1886)
Esquerda: Jamie McCarthy / Getty Images. Direita: Francis G. Mayer / Getty Images.
Ben Platt, o ator e cantor vencedor de um prémio Tony, optou por um fato custom Tanner Fletcher bordado e pintado à mão para a noite de segunda-feira — fazendo simultaneamente uma referência ao tema da noite e a uma obra clássica do teatro musical. O seu visual fazia referência a Uma Tarde de Domingo na Ilha de La Grande Jatte (1884–1886), de Georges Seurat — a obra que inspirou Sunday in the Park With George, de Stephen Sondheim e James Lapine —, com detalhes dispersos, quase pontilhistas, espalhados pelo tecido.
Miles Chamley-Watson em KidSuper - Cubismo
Esquerda: Taylor Hill / Getty Images. Direita: © 2026 Artists Rights Society (ARS), New York / ADAGP, Paris. Fotografia de Getty Images.
O fato custom, o capacete e a prancha de foil de Miles Chamley-Watson, da KidSuper, inspiraram-se nas geometrias fragmentadas de Pablo Picasso e Georges Braque, com a sua paleta de cores ousada e a alfaiataria rigorosa a criarem uma dissonância das mais exuberantes.
Heidi Klum em Mike Marino - Giovanni Strazza, A Virgem Velada (c. década de 1850)
Esquerda: . DTheStewartofNY / Getty Images. Direita: Shhewitt / Wikimedia Commons.
Ninguém se dedica a um tema como a Heidi Klum, que apareceu na Met Gala 2026 com um look custom de Mike Marino inspirado na Virgem Velada. O busto original do século XIX é famoso pelo seu espantoso nível de detalhe, e a versão de Klum aproveitou essa ideia ao máximo, envolvendo o rosto e o corpo em camadas que pareciam quase irreais. O resultado foi uma mistura de escultura renascentista com Halloween (da melhor maneira possível, ao estilo da Heidi).
Audrey Nuna em Robert Wun - Jackson Pollock, Número 1A, 1948 (1948)
Esquerda: Michael Buckner / Getty Images. Direita: © 2026 Pollock-Krasner Foundation / Artists Rights Society (ARS), New York. Fotografia de Digital Image © The Museum of Modern Art/Licensed by SCALA / Art Resource, NY.
O vestido-casaco de Robert Wun usado por Audrey Nuna parecia ter passado por alguma coisa — e, de facto, estava salpicado com 15 mil cristais pretos dispostos como manchas particularmente difíceis de remover. O look no seu conjunto lembrava muito Jackson Pollock — mais concretamente as suas telas do período drip do final da década de 1940.
Rosé em Saint Laurent - Georges Braque, Os Pássaros (1961)
Esquerda: Taylor Hill / Getty Images. Direita: © 2026 Artists Rights Society (ARS), New York / ADAGP, Paris. Fotografia de Getty Images.
Rosé manteve uma estética elegante, mas a referência era profunda. Em colaboração com a Saint Laurent, adaptou um motivo da obra As Aves, de Georges Braque, que já tinha aparecido em várias coleções da Yves Saint Laurent, optando por uma referência do arquivo que parecia perfeitamente moderna.
Alexi Ashe Meyers em Celine — série Antropometrias de Yves Klein
Getty Images
Para o seu grande momento Fashion Is Art, Alexi Ashe Meyers vestiu um vestido da Celine da coleção da primavera de 2017, com estampados azuis arrojados inspirados em Yves Klein. Klein é mais conhecido pelas suas Antropometrias — performances da década de 1960 nas quais utilizava corpos femininos cobertos de tinta como pincéis vivos, pressionando-os contra a tela para criar aquelas silhuetas inconfundíveis no seu característico azul Klein. O vestido de Meyers traduziu essa ideia diretamente, tornando-se uma das interpretações mais literais da noite — e uma das mais inteligentes.
Angela Bassett em Prabal Gurung - Laura Wheeler Waring, Girl in Pink Dress (1927)
Esquerda: Mike Coppola / Getty Images. Direita: © The Metropolitan Museum of Art. Fotografia de Art Resource, NY.
Com um vestido de Prabal Gurung, Angela Bassett fez uma alusão a Girl in Pink Dress, de Laura Wheeler Waring, cujos retratos de mulheres negras durante o Renascimento do Harlem se caracterizam por uma postura elegante e natural.
Traduzido do original, disponível aqui.
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