Guo Pei © Getty Images
A designer chinesa integra a exposição Arte & Moda, que abre hoje, 18 de abril, na Fundação Calouste Gulbenkian.
O título é curto e conciso para descrever uma mostra que tem muito mais camadas que uma simples junção de obras de arte e peças de moda: é uma conversa entre campos criativos que mostra a multiplicidade das suas convergências e pontos em comum. Arte & Moda, com curadoria de Eloy Martínez de la Pera, convida-nos a entrar num espaço onde a arte desperta a moda e a moda respira a arte, revelando o quanto uma área influencia a outra.

Vestido Magnificent Gold (2006), de Guo Pei
Fundação Calouste Gulbenkian
Numa experiência que apura conhecimentos e promove descobertas, obras da Coleção Gulbenkian dialogam com figuras maiores da Alta-Costura e do design contemporâneo: partindo do profundo interesse de Calouste Sarkis Gulbenkian (1869–1955) pela arte e pela moda, cerca de 100 obras do Museu surgem lado a lado com aproximadamente 140 peças de vestuário assinadas por Dior, Balenciaga, Yves Saint Laurent, Versace, Jean-Paul Gaultier, Vivienne Westwood, Alexander McQueen, Hubert de Givenchy e Azzedine Alaia e, no panorama nacional, por criadores como Alves/Gonçalves, José António Tenente, Maria Gambina, Nuno Gama ou Nuno Baltazar.
A chinesa Guo Pei é também, mas não apenas, um desses nomes: é a designer que abre e pontua com seis peças a exposição coletiva, uma estreia para si, esta de Portugal, uma vez que não participa em mostras que não sejam as suas. A raridade da ocorrência é exponenciada quando se conhece a fundo o CV da criadora: responsável, entre outros, pelo icónico vestido amarelo de Rihanna na MET Gala de 2015, Guo Pei é também a primeira asiática a ser convidada para integrar a Chambre Syndicale de la Haute Couture. A honra é merecida: cada peça sua é uma inconfundível obra de arte, personificando, em cada design, esta simbiose entre Moda e Arte. A começar pelo look dourado, o seu icónico vestido Magnificent Gold (2006) - a primeira vez que é exposto de forma completa - que dá as boas-vindas ao visitante, logo ao lado da máscara funerária do Egito (380 - 343 a.C), um duo que dá o pontapé de saída para uma exposição que é mais, muito mais, que o espaço que lhe serve de palco.

Rihanna em Guo Pei, MET Gala 2015
Getty Images
A Vogue sentou-se com Guo Pei, ali mesmo, na Fundação Calouste Gulbenkian, acabada de aterrar da sua China-natal. Não fala outra língua que não a materna, mas nada foi perdido na tradução: as suas palavras, tal como cada uma das suas peças - ou, melhor dizendo, obras, como lhes chama recorrentemente -, são maiores que qualquer obstáculo na comunicação.
A Guo Pei nunca diz que sim a exposições coletivas, esta “Arte & Moda” na Fundação Calouste Gulbenkian é a primeira vez que faz uma exposição coletiva em Portugal sem ser a título individual. O que a fez dizer que sim?
É a primeira vez que eu participo numa exposição coletiva, porque eu costumo fazer só exposições individuais e confesso que estou muito feliz por participar nesta em particular. Porque emociona-me muito ver as minhas peças ao lado de outras obras que mostram que a Moda pode atravessar o tempo e o espaço. Isso é algo que me deixa feliz, é muito emocionante, e, especialmente nesta exposição, em que vejo outras peças de outros designers que admiro, como Lacroix, Givenchy, Valentino, Worth… Eu acho que na Moda não há fronteiras, e na Arte permanece o ser humano. E eu vi peças minhas que foram feitas há 20 anos misturadas com obras intemporais como a máscara fúnebre, e isso deixou-me emocionada no momento em que vi, porque senti que isto é algo maior que eu, as minhas obras, esta obra, não é só minha, não pertence só a mim, pertence ao agora, pertence a esta geração. É uma expressão do ser humano. E estou a confirmar que a Arte é uma expressão humana, é algo que atravessa o tempo e o espaço. E participar nesta exposição coletiva é uma oportunidade de estabelecer, de certa forma, um diálogo com os outros designers. É um lugar onde se encontra o nosso pensamento, o que queremos expressar. Este momento é muito importante para mim - foi por isso que aceitei fazer esta exposição, porque é uma importante conversa entre mim, as minhas peças, e os outros criadores.
Falando em conversa, acredita que é cada vez mais importante manter e promover o diálogo entre Moda e Arte, ambos tão humanos e artesanais, principalmente numa era de Inteligência Artificial?
Relativamente à Moda, Moda, em chinês, significa Shíshàng. Shí significa hora, tempo. E o tempo influencia e muda o que gostamos - e a Moda muda com isso. Mas a Arte não, a Arte atravessa o tempo e o espaço, a Arte não está limitada pelo tempo, é o espírito do ser humano, é o que nós pensamos, é a filosofia. Só a Arte é que nos pode levar ao futuro - a Moda é o presente. Hoje em dia, com o desenvolvimento da Inteligência Artificial, a Moda será sem dúvida influenciada. Mas a Arte não. Porque a Arte é sobre humanidade, é o nosso espírito, é o nosso pensamento, que não pode ser limitado a um tempo. É por isso que Arte não será substituída.
Nessa linha de pensamento, então, e sendo que as suas peças, que estão dentro da área da Moda, mas, ainda assim, não perdem relevância ao longo do tempo, considera que são Arte, e não Moda?
As minhas obras não estão limitadas pelo tempo. E a arte não tem uma forma concreta de expressão. Como a literatura, poemas, por exemplo: os poemas que lemos hoje podem ser considerados arte, tal como pinturas. As minhas obras, o vestuário, pode ser arte, não apenas Moda. A minha peça que abre a exposição [o vestido dourado Guo Pei], juntamente com a máscara funerária egípcia, foi a minha primeira obra de Alta-Costura, há 20 anos atrás. Hoje, passadas duas décadas, ainda estamos a admirar esta obra em Lisboa, em Portugal, e eu não acho que seja apenas uma moda: esta peça desperta emoção nas pessoas que a vêem, porque a arte não é sobre uma forma, é a expressão do artista. Não apenas as minhas obras; eu acredito que muitas das peças nesta exposição são Arte, porque têm muitos anos, mas continuam atuais.
A sua infância e o facto de ter crescido na China, com todas as condicionantes sociais e políticas, dificultou o seu acesso à Moda e a Arte? E como superou isso para chegar onde chegou agora?
Nos anos 80, na China, não havia sequer a palavra Moda. Em 1982, comecei a estudar vestuário. Tinha pouco mais de 15 anos. Na altura, quando falava disso com a minha mãe, ela perguntava-me: “porque é que é preciso fazer um design para fazer roupa?!”. Na altura, nos 80, as mulheres, as chinesas, as pessoas usavam as roupas todas do mesmo estilo. Naquela altura, pouquíssimas mulheres usavam roupas bonitas, diferentes. Eu fui das primeiras designers de moda na China. Na altura, quando eu comecei a estudar e a fazer roupa, na altura não havia informação, não havia internet, não havia meios para ter mais conhecimentos em design de moda. Eu vivi sempre na China e nunca recebi nenhum tipo de educação ocidental. Muitas pessoas têm esta dúvida, porque é que eu consigo fazer os meus desenhos tão diferentes, e eu acho que é por causa de ser chinesa. Porque mesmo que até há cem anos não tenha existido Moda, eu tenho uma cultura que tem 5.000 anos de história, com tantas coisas para aprender. Eu cresci em Pequim, que é o lugar em que consegui aprender essa cultura, essa história, e absorver essa história em mim. Ao longo do tempo, consegui desenvolver o meu estilo pessoal, que faz com que eu seja muito diferente dos outros designers internacionais. Nesta exposição, senti que as minhas obras e o meu desenho é tão diferente dos demais criadores do mundo, de alguns dos meus favoritos, como Givenchy e Lacroix… e estou muito feliz de constatar essa diferença. Porque eu, aqui, represento aquela geração, aquela época, e represento a China.
Está orgulhosa do percurso que fez até aqui, das suas conquistas - entre elas, ser a primeira asiática a entrar na Chambre Syndicale de la haute Couture?
Sinto-me orgulhosa, mas é um orgulho modesto, não é um orgulho desmesurado, porque espero ainda fazer melhor no futuro. Quando olho para o passado, olho claro com orgulho para o que já fiz, mas não me dou por satisfeita, porque o passado está no passado e eu quero continuar de olhos postos no futuro. Porque espero que amanhã seja melhor do que ontem.
Arte & Moda está patente na Galeria Principal da Fundação Calouste Gulbenkian, de 18 de abril a 21 de junho de 2026. Aberta todos os dias, exceto terças-feiras, o bilhete tem um custo de €8.
Na próxima edição da Vogue Portugal, publicada em maio de 2026, mergulhe ainda mais a fundo nos meandros deste Arte & Moda, num artigo que inclui uma entrevista ao curador Eloy Martínez de la Pera.
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