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Xavier Dolan fala sobre a atual era dourada das histórias de amor queer

04 Sep 2020
By Radhika Seth

Com a estreia do seu novo filme na Mubi - Matthias & Maxime - ator, realizador e guionista conta-nos tudo sobre a sua quarentena, os seus planos para o futuro e a razão pela qual os romances gay contemporâneos o deixam esperançoso para o futuro.

Com a estreia do seu novo filme na Mubi - Matthias & Maxime - o ator, realizador e guionista conta-nos tudo sobre a sua quarentena, os seus planos para o futuro e a razão pela qual os romances gay contemporâneos o deixam esperançoso para o futuro.

Xavier Dolan fotografado por Shayne Laverdière
Xavier Dolan fotografado por Shayne Laverdière

Alternativamente chamado de prodígio e enfant terrible do Cinema mundial, a ascensão de Xavier Dolan foi estratosférica. Nascido em Montreal, entrou para a indústria cinematográfica como um child actor antes de agitar as águas aos 20 anos, com um début audaz, J’ai Tué Ma Mère (2009). Quando estreou no Festival de Cinema de Cannes foi aplaudido de pé, ganhou três prémios no programa Directors’ Fortnight e o resto é história. 

Agora com 31 anos, já escreveu e realizou oito longas-metragens, ganhou três prémios César e arrecadou, em Cannes, o Jury Prize e o Grand Prix (para Mommy, 2014, e Juste la fin du monde, 2016, respetivamente) - sem mencionar a aclamação global depois de ter realizado o videoclipe de Adele, Hello, em 2015.

Mas quando pensamos que Dolan já fez tudo, o realizador prova que está apenas a começar. O seu último projeto, como ator e realizador, é um dos seus melhores: uma delicada e deslumbrante história de amor, filmada perto de sua casa, em Quebec, com um elenco que inclui muitos dos seus amigos próximos. Intitulado Matthias & Maxime, este filme é centrado num grupo de amigos que se junta várias vezes numa casa perto de um lago e quando a irmã (Camile Felton) do anfitrião exige que a ajudem com o seu filme. Ela recruta os melhores amigos Matthias (o fumegante Gabriel D’Almeida Freitas) e Maxime (um Dolan vulnerável) para serem os atores, esquecendo-se de mencionar que a cena requer um beijo. Aquele beijo acaba por mudar tudo, deixando-os a questionar as suas identidades sexuais e uma amizade conturbada.

A dupla é formidável nos papéis titulares, apoiada pela colaboradora frequente de Dolan, Anne Dorval, que dá vida a uma mãe abusiva de Maxime e Harris Dickinson, a estrela de Beach Rats (2017), de Eliza Hittman.

O que o fez querer contar esta história de amor e amizade entre dois homens?Em 2017 estava numa espécie de cabana com alguns dos meus melhores amigos. Por um lado, senti a necessidade de os homenagear - as pessoas que me deram uma sensação de segurança e equilíbrio no final dos meus vinte anos - e por outro lado, queria contar uma história sobre o amor. Tinha acabado de ver o Call Me By Your Name (2017), God’s Own Country (2017) e Beach Rats (2017) e estava a gravar o Boy Erased (2018) em Atlanta quando comecei a escrever o Matthias & Maxime. Acho que esses filmes me reconectaram com a minha paixão por histórias de amor, ou melhor, histórias de amor gay, e me fizeram querer contar uma para mim mesmo. 

Atualmente estamos a viver uma era dourada de histórias de amor gay complexas e reflexivas?Quando era jovem, os filmes gay que via eram o Brokeback Mountain (2005), Mysterious Skin (2004) e Happy Together (1997). Não eram os filmes mais felizes. Na adolescência, agradava-me o facto de ser capaz de me relacionar com personagens queer e adorava esses filmes pelas suas qualidades artísticas mas o destino trágico dos personagens deixavam-me sem esperança. Hoje, temos filmes como Love, Simon (2018), e isso é tão novo e reconfortante para mim. Saber que as crianças vão poder ver um filme como esse e sentirem que têm algo pelo qual ansiar, é lindo. Todos esses filmes recentes [que mencionei] são complexos, mas também são completos porque apresentam personagens queer que estão a evoluir e podem ser felizes, bem-sucedidos e válidos, e não apenas mal-tratados ou satirizados. 

Sabia desde cedo que iria interpretar o Maxime?Pensei em dar o papel para outra pessoa, mas um amigo disse-me que ficaria furioso comigo por deixar outra pessoa se divertir com os meus melhores amigos enquanto eu via tudo através de um monitor. Teria sido doloroso. Eu sabia que seria o Max, porque não me vejo na pele de homens confiantes. O Matthias é um homem sério e é quem lidera o grupo. Não consigo pensar em interpretar alguém assim. Sou baixo, e embora sinta que posso ser engraçado e um líder na vida, no ecrã tendo a colocar-me no papel de um rapaz tímido.

O Gabriel D’Almeida Freitas e o Harris Dickinson estão maravilhosos no filme. Pode contar-nos mais sobre o processo de casting?Escrevi o papel com o Gabriel em mente. Eu conheço-o há anos e pensei que seria perfeito. Viu tinha visto o Harris no Beach Rats (2017) e ele surpreendeu-me. O seu personagem era quieto e muito vergonhoso, então achei que seria divertido vê-lo a ser descaradamente arrogante e machista. Vi algumas entrevistas e vi também aquela mordida que faz de vez em quando. Percebi logo que iria conseguir entrar na personagem muito facilmente.

O filme explora como as noções sobre masculinidade e sexualidade estão a mudar. Esse é um tema que gostaria de destacar?Vi as percepções mudarem num curto período de tempo. Sentido-me um tanto ao quanto ignorante quando pela primeira vez começamos a falar sobre fluidez de género, nos mass media, quero dizer. Senti a necessidade de mostrar essa ignorância no ecrã.

Como é que foi gravar todas aquelas cenas grandiosas e espalhafatosas com os amigos?Foi muito divertido. Queríamos impressionar e inspirar uns aos outros. A energia que circulava era desafiadora, no bom sentido. As cenas de grupo foram coreografias e sobrou pouco espaço para improvisar. Nunca fui admirador disso, para ser honesto. Eu adoro cenas e diálogos com guiões pesados. Adoro escrever, rescrever, ajustar e moldar para a voz de alguém.

Esta quarentena fez com que valorizasse ainda mais o seu grupo de amigos?Durante o isolamento, quando estávamos trancados em casa, conversávamos todos os dias e fazíamos muito FaceTime. Encontrámo-nos este verão e tentamos ser super cuidadosos. Tem sido difícil, porque somos muito amorosos e sensíveis e estamos sempre a dar abraços. O contacto físico parece estar no centro do nosso grupo. Parece que estou a descrever uma orgia, mas agora a sério, tem sido muito difícil a muitos níveis, mas temos sorte. Nada te faz valorizar quem tu amas como a ideia de os perder. 

No que está a trabalhar agora, à frente e atrás das câmaras?Escrevi um minissérie, que deve ser gravada no início do próximo ano, espero. Uma história sobre uma violação, luto e drama familiar de 30 anos, da década de 90 até ao presente. É um suspense e mal posso esperar para mergulhar nele. Quero fazer algo diferente. Também estou a trabalhar num filme de terror e fiz um filme no ano passado como ator em França. Chama-se Lost Illusions, com Cécile de France, Jeanne Balibar e Gérard Depardieu - uma adaptação do romance de Balzac ambientado no início de 1800. Estou entusiasmado com isso.

Radhika Seth By Radhika Seth

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