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Palavra da Vogue 3. 9. 2020

To be continued: Let there be light

by Ana Murcho

 

Era uma vez um mundo sem cores. Era uma vez um mundo de todas as cores. Era uma vez um mundo sem géneros. Era uma vez um mundo com todos os géneros. Era uma vez um mundo sem raças. Era uma vez um mundo com todas as raças. Era uma vez um mundo sem religiões. Era uma vez um mundo com todas as religiões. Era uma vez um mundo sem deficiências. Era uma vez um mundo com todas as deficiências. Era uma vez outro mundo, não este mundo, um mundo melhor. Será que algum dia encontraremos esse mundo?

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© Getty Images

É mundialmente conhecido pela frase “I Have A Dream” e, de certa forma, é um dos pontos altos da sua carreira. Porque o discurso de Martin Luther King Jr. - proferido na escadaria do icónico Lincoln Memorial, na capital dos Estados Unidos da América, a 28 de agosto de 1963, como culminar da famosa Marcha sobre Washington, que reuniu mais de 250 mil pessoas que lutavam por liberdade, trabalho, igualdade e, principalmente, pelo fim da segregação racial contra a população negra - marca um antes e depois dessa batalha. A dada altura, o pastor batista e ativista político, que seria morto cinco anos depois, afirma: “Não podemos caminhar sozinhos. À medida que caminhamos, devemos assumir o compromisso de marcharmos em frente. Não podemos retroceder. Há quem pergunte aos defensores dos direitos civis: ‘Quando é que ficarão satisfeitos?’ Não estaremos satisfeitos enquanto o Negro for vítima dos incontáveis horrores da brutalidade policial. Não poderemos estar satisfeitos enquanto os nossos corpos, cansados das fadigas da viagem, não conseguirem ter acesso a um lugar de descanso nos motéis das estradas e nos hotéis das cidades. Não poderemos estar satisfeitos enquanto a mobilidade fundamental do Negro for passar de um gueto pequeno para um maior. Nunca poderemos estar satisfeitos enquanto um Negro no Mississipi não pode votar e um Negro em Nova Iorque achar que não há nada pelo qual valha a pena votar. Não, não, não estamos satisfeitos, e só ficaremos satisfeitos quando a justiça correr como a água e a retidão como uma poderosa corrente.” Passaram 57 anos sobre este dia e, no entanto, as mudanças que ocorreram, nos EUA e no mundo, provam que muito há a fazer no que diz respeito a esta última frase - “a justiça correr como a água e a retidão como uma poderosa corrente.”

Por mais que queiramos, por mais que desejemos, sabemos no nosso íntimo que o sonho de Martin Luther King Jr. ainda não foi concretizado. “Tenho um sonho que um dia esta nação levantar-se-á e viverá o verdadeiro significado da sua crença: ‘Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas, que todos os homens são criados iguais’". Em junho de 2016, a discoteca Pulse, em Orlando, na Flórida, foi alvo de um atentado terrorista perpetuado por Omar Mir Seddique Mateen, um muçulmano norte-americano de origem afegã, que prometeu lealdade ao Estado Islâmico (e que acabou por ser abatido por agentes do FBI). Do ataque, mais tarde declarado oficialmente como “homofóbico”, resultaram 50 mortos e mais de 53 feridos. “Tenho um sonho que os meus quatro pequenos filhos viverão um dia numa nação onde não serão julgados pela cor da sua pele, mas pela qualidade do seu caratér.” Em novembro de 2014, Tamir Rice brincava com uma arma de plástico no playground de seu prédio em Cleveland, Ohio, quando o polícia Timothy Loehmann saiu do carro, disparou três tiros e matou-o. O oficial tinha recebido uma chamada sobre um “homem negro armado” no bairro quando avistou Rice. Uma testemunha disse que ouviu os disparos pouco depois de Loehmann gritar a frase-cliché “mãos ao ar”. A tragédia comoveu os norte-americanos (em especial os afro-americanos) e levou a uma série de protestos contra a violência policial em relação aos negros. “Tenho um sonho que um dia todo os vales serão elevados, todas as montanhas e encostas serão niveladas, os lugares ásperos serão polidos, e os lugares tortuosos serão endireitados, e a glória do Senhor será revelada, e todos os seres a verão, conjuntamente.” Em março de 2019, um homem de 28 anos natural de Grafton, New South Wales, na Austrália, irrompeu por duas mesquitas, na cidade de Christchurch, Nova Zelândia, enquanto os fiéis rezavam o tradicional Friday Prayer. Tanto numa como noutra, atirou a matar: 51 perderam a vida e 40 ficaram feridas. O indivíduo, que seria identificado como supremacista branco e membro da chamada alt-right, transmitiu em direto o primeiro massacre na sua conta de Facebook. Os exemplos sucedem-se. Será que o sonho de Martin Luther King Jr. alguma vez será realizado?

A maior parte destes episódios deve-se a algo que a psicologia social apelida de unconscious bias, ou, em português, “preconceito inconsciente”. É um conjunto de estereótipos sociais, subtis, e, queremos acreditar, acidentais, que todas as pessoas mantêm sobre diferentes grupos de pessoas. É uma espécie de “olhar automático” para responder a situações e contextos para os quais somos treinados culturalmente, como uma programação do cérebro. Como explicava o site da revista científica Galileu, “o ser humano tem a capacidade de pensar rápido ou devagar. Quando decidimos sobre a compra de uma casa, pesamos todos os lados para tomar a decisão. Ou seja, pensamos devagar. Mas, noutras situações do dia a dia, baseamo-nos em julgamentos intuitivos que são processados rapidamente pelo cérebro, sem nos darmos conta. São como atalhos que a mente usa porque é mais fácil. O problema é que ela também nos prega partidas. Toma decisões com base em associações com memórias antigas, noticiário, novelas, aulas, conversas com familiares e amigos. Nelas, há milhares de estereótipos.” E rematava: “Não adianta  ofender-se e dizer que não é preconceituoso. Se você tem um cérebro, possui um preconceito inconsciente. Sem que perceba, processos neurais e cognitivos tiram conclusões por você, e é aí que entra a discriminação disfarçada.” Será este unconscious bias motivo suficiente para os eventos relatados no parágrafo anterior? Não. Nunca. Mas poderá ajudar a entender outros, menores, com os quais nos confrontamos no nosso quotidiano - e dos quais nós próprios fazemos parte. Tal como precisamos sempre de ter presente o sonho de Martin Luther King Jr., é preciso ter noção daquilo que o impede de se tornar real. Será que alguma vez vamos ver o outro como igual em vez de o vermos, ou a vermos, um opositor? Não sabemos. Porém, acreditar que isso é possível faz parte da nossa mensagem de esperança. Essa é a luz ao fundo do túnel.

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