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Guestlist 15. 1. 2021

O projeto de up-Cycling Levi's® + BÉHEN

by Vogue Portugal em colaboração com Levi's®

 

A união entre uma marca com história e uma marca apaixonada por histórias por contar resulta em 15 peças de roupa únicas que vai querer guardar para sempre.

Todas as imagens Ricardo Palma Veiga.

O compromisso que a Levi’s® assumiu com a sustentabilidade não se trata de uma moda. É mais do que isso. Lançou a estação passada a sua coleção mais sustentável de sempre, servindo-se de todos os materiais e métodos de produção que desenvolveu até hoje. E este compromisso continua em 2021. Em sinergia com as equipas locais da Vogue, a marca decidiu avançar com a criação de projetos de up-Cycling com designers e/ou artistas de vários países Europeus. Em Portugal a designer de Moda Joana Duarte, aka BÉHEN, colheu a oportunidade de demonstrar a sua visão criativa através da reciclagem de stocks parados e peças antigas da Levi’s®.

Com uma visão particular sobre a Moda e o design, BÉHEN destacou-se no panorama da Moda nacional pelo trabalho experimental que desenvolve e abordagem não só amiga do ambiente, mas também de forte cariz social. A cultura popular e tradicional portuguesa têm um lugar especial no coração e peças da designer que nos transporta no tempo a cada coleção, recorrendo a colchas antigas e outros tecidos que encontra no baú da avó. “Sediada no soalheiro Portugal mas imaginada na Índia, a marca BÉHEN acredita que a Moda pode existir sem desperdício e em peças únicas feitas a partir de têxteis antigos ou tecidos com a magia do tempo em terras distantes. Uma marca nascida para contar histórias, traz-nos os contos de mulheres a cantar em hindi e a dançar debaixo do sol do Rajastão. De mulheres que andam pela calçada portuguesa com ‘saudade’ no peito”, pode ler-se no site da ModaLisboa onde faz parte da plataforma LAB.

O resultado deste projeto serão três looks de homem e três looks de mulher pensados e transformados livremente com a ajuda preciosa da Fundação Ricardo Espírito Santo e Silva. No processo de produção e tingimento das peças nas oficinas da FRESS em Lisboa foi privilegiada a utilização de técnicas e materiais amigos do ambiente. Para a criação de todas as partes de baixo foram usados excedentes de stocks dos Levi’s® High Loose e Levi’s® Stay Loose (os primeiros jeans sustentáveis da marca e feitos com Cânhamo Suavizado) que ainda existiam em showroom. Para a criação de todas as partes de cima, foram usadas peças em denim antigas e que seriam stocks parados e/ou “desperdício/lixo”. O lançamento do projeto na sua totalidade está agendado para Fevereiro de 2021. As peças estarão à venda nas plataformas digitais da Béhen Studio e uma parte das vendas será doada à Fundação Príncipe.

A Vogue apresenta-lhe em primeira-mão o making of e as três primeiras peças que resultam desta colaboração que nos faz sonhar e falou com a jovem BÉHEN sobre todo o processo criativo, valores que a acompanham e inspiração.

Como é que surgiram as primeiras ideias para o temadeste projeto de up-Cycling com a Levi’s®? Em que é que te inspiraste para os marmoreados e qual a história que queres contar?

Começou com o sabão azul e branco e um bocadinho na continuação da minha pesquisa sobre faiança portuguesa. Soube logo que queria pintar as peças e recriar o famoso sabão azul e branco. A ideia da pintura, da água e do efeito que o sabão cria na água levou-me a uma pesquisa sobre técnicas ancestrais de pintura. Foi aí que descobri o marmoreado feito pela Fundação Ricardo Espírito Santo Silva. É uma técnica com um saber imenso e que exige alguma prática, pelo que o apoio da mestre responsável foi fundamental para o processo. Considero que é óbvia a ligação do sabão azul e branco à ganga. Exatamente pelo facto da ganga ser um material normalmente associado à classe trabalhadora, tal como o sabão que também carrega uma enorme história e está muito presente no universo feminino em Portugal. Símbolos de luta e esforço. O marmoreado foi a minha forma de representar o sabão. As formas, as cores e mesmo a maneira como reage no material!

A ganga é símbolo de liberdade, revolução, um estilo de vida muito próprio... Como é que foi trabalhar com este material enquanto blank canvas? Já o tinhas feito antes, sentiste alguma ligação com o tecido?

Nunca tinha trabalhado com ganga, pelo menos desde que a BÉHEN existe. Mas queria muito experimentar, até porque é um material bem diferente das colchas e toalhas a que estou habituada, a ganga não traz com ela toda a bagagem emocional do antigo dono ou donos por onde já passaram as toalhas e colchas que costumo usar. Mas a ganga é símbolo de luta, e são muitas as mulheres que fazem parte da BÉHEN que são luta também.

O trabalho que tens desenvolvido desde o início privilegia processos e técnicas manuais de execução e ajuda também a dar vida e trabalho a mestrias até há pouco tempo desvalorizadas. Transformas o tradicional e a herança cultural numa coisa cool e que está totalmente oposta à ideia de antiquado/datadoÉ intencional?

Claro, e o objetivo é mesmo esse. Um dos pontos principais da BÉHEN é o envolvimento da comunidade local, o trabalhar com artesãos e explorar técnicas e saberes regionais. O convite à Fundação Ricardo Espírito Santo Silva não foi por acaso, são mestres das mais variadas técnicas e que muita gente mesmo em Lisboa, desconhece. Tal como a FRESS, existem dezenas de outras iniciativas que guardam segredos incríveis e que cabe a nós designers, fazer a ponte com o universo do design.

Como é que começaste a traçar o plano para aquilo que viria a ser a Béhen? Como é que decidiste os valores nos quais te ias apoiar, nomeadamente a questão da responsabilidade social e ambiental? O que é que te motivou a pensar numa abordagem tão inovadora no contexto da Moda nacional?

A melhor forma de explicar a BÉHEN é recuar até ao meu mestrado e enquanto estudante de Moda em Londres. Para mim a questão foi “Como é que enquanto designer de Moda posso contribuir para os outros e para uma menor pegada ecológica na indústria da Moda?” Na altura pareceu-me uma missão impossível, mas estava fora de questão ser Designer de Moda apenas porque sim. Claro que o facto de estar envolvida em vários projetos de ação social e o meu interesse por arte política vieram influenciar todo o meu percurso e perspetiva em relação ao papel do design e do próprio designer.

Fiz muita pesquisa de materiais antigos quando estava na Índia, onde aprendi muito sobre a importância dos saris e do passar de geração em geração, conceito que afinal sempre esteve presente comigo já que na minha família o enxoval ainda existe. Na altura procurava por materiais que já existissem e que ainda ninguém estivesse a explorar, começou com uma colcha há 4 anos atrás comprada numa feira de antiguidades em Santarém e que se transformou num casaco.

Apesar da BÉHEN ser um projeto recente, todo o conceito e comunidade de mulheres envolvidas na produção levou muito tempo a construir. Levou tempo porque o objetivo nunca foi criar uma marca só porque sim, tinha de ter realmente impacto nas comunidades envolvidas. E a prova do impacto é ver o número de pessoas envolvidas a crescer a cada coleção e o número de colchas e toalhas antigas que ganharam uma nova vida.

O up-Cycling está na ordem do dia enquanto forma de consumo mais consciente. Tudo o que fazes parte deste princípio de produção contra o desperdício e pro-reaproveitamento? Porque é que é tão importante, na tua opinião?

Durante o meu mestrado e na Índia, fiz muita pesquisa sobre sustentabilidade e alternativas possíveis ao uso de raw materials. A verdade é que produzir com têxteis novos tem uma pegada ecológica muito mais elevada do que utilizar materiais que já existem no nosso planeta e ainda mais se esses materiais estiverem para ir para o lixo ou sem uso. Reaproveitar materiais antigos é ainda mais sustentável do que utilizar materiais novos feitos com fibras recicladas. Para mim, é uma questão de pegada ecológica porque retira fases da produção como farming, spinning, weaving and processing que têm um grande impacto ambiental.

Um par de calças de ganga é essencial num guarda-roupa mas produzi-lo é caro para o planeta em termos de químicos prejudiciais e desperdício de água e energia. A Levi’s® tem vindo a trabalhar para ser o mais sustentável possível. O que é que torna este projeto tão especial? 

Enquanto designer considero que mostra o quão importante é marcas como a Levi’s® não terem receio de procurar colaborações e soluções para o desperdício. A verdade é que nada é 100% sustentável mas há que ser ativo na procura por alternativas e ser criativo. Neste projeto em específico sinto que foi sem dúvida uma colaboração à maneira BÉHEN, usaram-se peças antigas, envolveu-se a comunidade local na produção e ainda contribui para a proteção da vida marinha na ilha do Príncipe.