Artigo Anterior

O futuro da Moda Nacional | 560 é o novo 1... 2... 3...

Próximo Artigo

Matthew M Williams, o novo diretor criativo da Givenchy

Notícias 15. 6. 2020

Os melhores momentos queer na passerelle

by Rosalind Jana

 

Das noivas lésbicas da Chanel às coleções de Grace Wales Bonner, inspiradas nos grandes nomes da literatura James Baldwin e Essex Hemphill, reunimos os desfiles de Moda mais memoráveis que homenageiam a comunidade LGBTQIA+.

Thom Browne Menswear Spring/Summer 2018

A Moda sempre esteve envolvida com a cultura e a história queer. É uma indústria profundamente moldada por várias gerações de designers LGBTQIA+, desde um número notável de costureiros gays do pós-guerra a visionários como Rudi Gernreich, Willi Smith e Stephen Burrows. Tal como Elspeth H Brown escreve no seu livro Work! A Queer History of Modeling, a participação de Burrows na lendária batalha de marcas francesas e norte-americanas em Versalhes em 1973 “introduziu ao público branco da Moda o movimento energético que há muito tempo era uma caraterística distintiva dos desfiles negros produzidos tanto para o público negro quanto para os negros queer, assim como a pose camp de final de desfile que ficou conhecida como vogueing.” 

No entanto, só foi possível reconhecer abertamente esse relacionamento recíproco nas décadas mais recentes - e persistem dúvidas sobre a distinção entre mercantilização e colaboração. Aqui, a Vogue destaca alguns dos melhores e mais memoráveis ​​momentos da passerelle, celebrando indivíduos, movimentos e comunidades queer

Thierry Mugler, primavera/verão 1992

Conde Nast Archive 

A estética ousada e atrevida de Mugler levou a muitos momentos na passerelle que podem ser lidos como queer. Para o seu desfile da primavera/verão 1992 no Century Plaza Hotel, em Los Angeles, Mugler convocou o artista drag Lypsinka, cujo estilo de performance se baseia em old Hollywood (atriz Joan Crawford) e Alta Moda (modelo Dovima da década de 1950), para fazer lip-sync em quatro outfits separados: cada um com outro por baixo. Começando com um fato dos anos 50-80 e terminando com um slip dress preto, foi uma performance espetacular, formando apenas um exemplo da complexa relação entre Moda e a cultura drag

Walter Van Beirendonck, primavera/verão 1996

Walter Van Beirendonck, 1996 ©Getty Images

A crise do HIV teve um profundo impacto no mundo da Moda e a dor foi agravada pelo silêncio e vergonha que cercavam as imensas perdas sofridas. O designer belga Walter Van Beirendonck, que sempre abraçou a provocação e recusou o silêncio, deu uma resposta explícita em sua coleção Killer/Astral Travel/4D-Hi-D, de 1996. Anunciando a liberdade e a rebelião da vida noturna queer e do sexo, o desfile apresentava cores brilhantes e ousadas, muito latex (referenciando as roupas de fetiche e sexo seguro) e máscaras em forma de almofadas com slogans como Get off my Dick e Blow Job

Jean Paul Gaultier, Alta-Costura, primavera/verão 1998

Jean Paul Gaultier Haute Couture SS98 ©Getty Images 

Entre a lista de grandes designers, o enfant terrible Jean Paul Gaultier é notável pela sua adoção e celebração da estética queer, desde colocar homens de saia em 1985 até repetidamente desenhar o motivo homoerótico do muscly marinière (marinheiro) do estilo Genet. Ao longo dos anos, Gaultier também colaborou com o amigo e musa Tanel Bedrossiantz em vários projetos visualmente impressionantes. No seu desfile de Alta-Costura da primavera/verão 1998, influenciado pelo Age of Enlightenment, Bedrossiantz apareceu num vestido de espartilhos apertados, por cima de uma camisa branca e gravata - uma imagem duradoura que foi incluída no catálogo de 2019 da exposição Camp: Notes on Fashion do Met.

Alexander McQueen, outono/inverno 1998

Alexander McQueen, outono/inverno 1998 © Getty Images

Qualquer história queer na Moda é tanto uma história de lacunas, referências provocadoras e significado implícito quanto um reconhecimento explícito do desejo e da identidade de género - especialmente devido ao sigilo em torno da vida pessoal de muitas figuras queer. A coleção do outono/inverno 1998 de Alexander McQueen - uma visão sombria e ardente de malha de metal, tons terra e ombros angulares - foi inspirada em Joana d'Arc. A mártir católica vestida de homem tem sido frequentemente lida como uma figura queer, seja por Vita Sackville-West especulando sobre lesbianismo no seu livro Saint Joan of Arc, de 1936, ou em textos mais recentes sobre a potencial identidade trans de Joan. Embora este aspeto não tenha sido abordado por McQueen aqui, depois do desfile, ele comentou: “Qualquer um pode ser um mártir pela sua causa. Talvez eu próprio tenha sido um mártir da homossexualidade aos seis anos.”

Chanel, Alta-Costura, primavera/verão 2013

 Chanel, SS13 ©Getty Images

A noiva está sempre presente na passerelle. Muitas vezes encerrando um desfile em grande estilo, costuma andar sozinha - uma imagem potente de aspiração heteronormativa "embrulhada em branco como um presente" - emprestando a descrição de Angela Carter em Poema para uma fotografia de casamento - ou ocasionalmente acompanhada por um noivo bem vestido. Vários designers tentaram melhorar essa imagem, como na coleção da primavera/verão de 2006 de John Galliano, com várias configurações de casais, ou na coleção inclusiva de noivas de Dilara Findikoglu em 2018. Em 2013, Karl Lagerfeld colocou na passerelle duas noivas de mãos dadas para fechar a sua coleção de alta costura. O designer declarou que era um gesto de apoio ao casamento gay na França, uma lei que foi aprovada no mesmo ano. 

Raf Simons, primavera/verão 2017

Vários artistas e criadores queer tornaram-se cada vez mais populares entre os designers na última década. Do diretor de cinema Derek Jarman (citado em Burberry Prorsum, primavera/verão 2009 e Matty Bovan primavera/verão 2019) ao pintor David Wojnarowicz (Jonathan Anderson trabalhou com ele na sua coleção para o outono/inverno 2020), estas figuras radicais representam reflexões desafiadoras sobre a natureza e a execução da homenagem. No desfile de moda masculina da primavera/verão 2017, Raf Simons colaborou de perto com Robert Mapplethorpe, apresentando o trabalho monocromático e duro do fotógrafo numa série de peças de vestuário. Cada uma representava o tecido que era impresso numa moldura, as imagens variavam entre close-up homoeróticos e retratos informais. Simons também procurou pessoalmente a permissão de todos os participantes, o que influenciou fortemente o processo de design.

Ashish, outono/inverno 2017

LFW February 2017 ©Getty Images 

Os designs irreverentes de Ashish Gupta e o amor pelo brilho formam um ADN de design cintilante que é instantaneamente reconhecível, mesmo à distância. Comentários políticos e identidade queer também são codificados na marca de Gupta e na produção criativa mais ampla, seja através de slogans ou projetos de fotografia independentes. A sua coleção para a estação fria de 2017 não foi exceção, apresentando arco-íris de lantejoulas e alguém chamado Frankie, vestindo uma t-shirt com as palavras: "Porquê ser azul quando se pode ser gay!". Na temporada seguinte, Gupta debruçou-se num território mais sombrio - o desfile da primavera/verão 2018 foi inspirado, disse ele, pela ideia de bruxas queer

Burberry, primavera/verão 2018

Adwoa Aboah desfila para Burberry SS18, ©Getty Images 

O uso da bandeira arco-íris na Moda tem por vezes sido questionável, o que leva a um questionamento sobre o uso de imagens e símbolos queer. No entanto, a coleção final de Christopher Bailey para a Burberry revelou-se numa grande referência para a comunidade LGBTQIA+: reconhecendo as raízes gays e de classe trabalhadora do próprio Bailey e anunciando o potencial de uma nova geração de criativos queer. Além de criar um padrão arco-íris a partir do clássico da Burberry e apresentar um desfile de cores vibrantes, a marca também ofereceu o seu apoio, doando a três instituições de caridade LGBTQ+: o Albert Kennedy Trust, o Trevor Project e a ILGA

Thom Browne Menswear, primavera/verão 2018

Thom Browne Menswear Spring/Summer 2018, ©Getty Images 

No desfile da primavera/verão 2018 de Thom Browne, o designer passou um tempo a refletir acerca perspetiva de género de uma criança. Apresentando um par dos seus próprios sapatos de bebé mergulhados em ouro como peça central da passerelle, Browne explorou - e rejeitou - as rígidas expectativas em termos de vestuário impostas aos meninos à medida que crescem. Com uma banda sonora do filme Orlando de 1992, de Sally Potter, e uma série de designs, incluindo saias às riscas e vestidos elegantes coordenados com blazers de alfaiataria, o desfile culminou com um híbrido de noivos: um smoking e uma cauda branca arrebatadora. No ano seguinte, o desfile de outono/inverno 2019 de Browne produziu impressões gráficas da Una Troubridge: ávido utilizador do monóculo e parceiro do autor Radclyffe Hall.

Wales Bonner, primavera/verão 2018

Wales Bonner, primavera/verão 2018 © Getty Images

Os belos desenhos de Grace Wales Bonner são construídos sobre um conjunto de referências e conexões profundamente consideradas, muitas dedicadas à examinação da masculinidade negra e a história e narrativas da diáspora africana. Para o seu desfile da primavera/verão 2018, ela forneceu um recurso adicional composto por material de leitura, incluindo o ensaio de Hilton Als sobre amor, legado e arte negra queer, intitulado James Baldwin/Jim Brown and the Children, imagens da fotografia homoerótica de Carl Van Vechten, por Anatole France e James Smalls, e um poema de Essex Hemphill. E também citou o intenso romance de Baldwin, do ano 1956, Giovanni's Room como fonte de inspiração. 

Opening Ceremony, primavera/verão 2019

Opening Ceremony 

Nos últimos anos, a indústria da Moda assistiu a uma onda emocionante de designers a oferecer uma abordagem refrescante à sexualidade e ao género: NO SESSO, Telfar, Christopher John Rogers, Art School, Gogo Graham, Patrick Church, Ella Boucht, Nicolas Lecourt Mansion, Luar e Hana Holquist estão entre eles. Isso coincidiu com um diálogo muito necessária sobre a visibilidade queer na Moda, desde o casting para os desfiles aos consumidores. O desfile da primavera/verão 2019 da Opening Ceremony foi um ótimo exemplo de um evento que deu aos criadores queer espaço para executar a sua própria visão, sendo que o formato habitual do desfile foi então reinventado como uma extravagância drag produzido pela vencedora do RuPaul Drag Race Sasha Velour e com 40 modelos e artistas LGBTQIA+.

Artigos Relacionados

Compras 9. 6. 2020

Género? Irrelevante.

Moda sem género, porque quando se fala em comunicar com o mundo é, afinal, um dado irrelevante.

Ler mais

Notícias 8. 6. 2020

Um guia para eventos virtuais LGBTQ+ durante o mês do Pride

O mês do orgulho chegou e muitos eventos em todo o mundo se tornaram digitais. Desde a transmissão ao vivo do New York Pride até uma after party internacional no Zoom com o Club Quarantine, estão aqui 10 maneiras de celebrar a cultura LGBTQ+ este mês.

Ler mais

Curiosidades 4. 6. 2020

Over the rainbow, o orgulho de uma comunidade

Em junho erguem-se orgulhosamente bandeiras arco-íris por este mundo fora. Um símbolo de união, força, resiliência e, sobretudo, orgulho. Mas como é que esta bandeira se tornou num símbolo para a comunidade LGBTQIA+? Eis a sua história.

Ler mais