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Tendências 9. 2. 2022

Como é que James Bidgood reinventou o imaginário queer

by Pedro Vasconcelos

 

© via YouTube

“Arte se não nasce de dor, angústia, orgulho, vergonha, desejo ou da alegria esmagadora, é meramente decorativa”, esta era a filosofia de James Bidgood, conceituado fotógrafo e cineasta queer. Considerado um dos mais importantes artistas underground do século XX, a maioria do seu património é estabelecido previamente ao movimento de direitos LGBTQIA+. E ainda assim a sua arte era severamente queer, contrastando homoerotismo pornográfico com temas de fantasia camp. O legado do artista, que morreu no passado dia 31 de janeiro, realça a importância de potenciar arte como forma de expressão identitária.

James Bidgood nasceu no estado de Wisconsin, em 1933, no ápice da Grande Depressão, a mais devastadora crise financeira que os Estados Unidos alguma vez sentiu. À terna idade de 18 muda-se para Nova Iorque, vindo de uma zona rural do pais, para Bidgood a metrópole foi um verdadeiro renascimento. Submergindo-se nos obscuros submundos da cultura gay, drag e da pornografia, aos olhos do jovem artista Nova Iorque era “mais entusiasmante do que um segundo orgasmo” como o próprio afirmou em entrevista à Another Magazine, em 2019. 

Bidgood caiu desamparado na cidade, sem qualquer tipo de apoio ou plano, encontrou o seu abrigo na arte de drag sobre o nome de Terri Howe. Foi através do dinheiro que recebia das suas performances que conseguiu financiar a sua formação na Parsons School of Design, onde estudou Design de Moda. As suas competências naturais, suplementas pela legitimidade que a sua educação lhe proporcionou, possibilitaram que este encontrasse segurança financeira como designer para a alta sociedade de Nova Iorque. A estabilidade que a sua nova ocupação lhe assegurou marca uma reflorescência na sua carreira artística. 

Ainda que a sua arte seja apreciada e respeitada pela sua estética inovadora, enquanto artista Bidgood sempre se manteve às margens do tormento do mercado de arte, devido sobretudo ao conteúdo das suas obras. O seu trajeto artístico começou declaradamente performativo, mas eventualmente a sua abordagem tornou-se puramente visual, divergindo para fotografia e filme. Foi nestes que Bidgood encontrou sucesso, potencializando os meios através da sua estética idiossincrásica. As suas fotografias surgem como uma mistura complexa entre erotismo masculino e fantasia estética, marcada por uma paleta de cores exorbitante. A arte de Bidgood é um perfeito exemplo de camp, o seu estilo característico de fotografia funde elementos de alta cultura com obscenidade homoerótica de uma forma exagerada. Ao invocar a estética do glamour de Hollywood, a iluminação ilusória e a sensualidade masculina, o artista criou uma harmonia peculiar que lhe é exclusiva. As fetichizações tradicionalmente homossexuais, como o motociclista ou o polícia, metamorfoseiam-se sobre cenários ridiculamente românticos e kitsch.      

O ápice da sua abordagem artística efetua-se em Pink Narcissus, o filme pelo qual é mais conhecido. A longa-metragem narra, de forma ambígua. as alegorias eróticas de um prostituto masculino à medida que diferentes clientes entram e saem do seu apartamento. As fantasias sexuais que representa vão de matador a motociclista, mas a atmosfera está entre o sonho e a realidade. A estética é a representação do estilo de Bidgood, alternando entre erotismo sórdido e cenários românticos decorados monocromaticamente de cor-de-rosa. Ainda que o sucesso do filme tenha sido praticamente imediato, o envolvimento de Bidgood foi escondido durante quase três décadas. Devido a diferenças criativas com produtor do filme, Bidgood retirou o seu nome dos créditos, apesar da sua dedicação incessante, tendo filmado Pink Narcissus ao longo de seis anos exclusivamente no seu apartamento. Só em 1999 é que Bidgood confessa o seu envolvimento com o filme de sucesso, revelando-o como uma biografia das suas fantasias de juventude.

O trabalho de Bidgood dependia do seu engenho, em grande parte por necessidade. Tanto o artista como a sua arte eram inflexivelmente gays numa época anterior a Stonewall, o inicio do movimento de direitos LGBTQIA+. Face à ameaça de discriminação, violência ou detenção policial Bidgood produzia cenários e adereços, assim como fotografava e filmava quase todo o seu trabalho, a partir do seu apartamento em Manhattan. Através de truques e ilusões criava ambientes de fantasia extraordinários, como atmosferas subaquáticas ou florestas encantadas. A dedicação à sua arte era tal que as suas produções ocupavam a maioria do seu apartamento, acabando frequentemente por dormir e comer dentro dos cenários que criava. 

O artista americano revolucionou o imaginário queer através da materialização estética da sua homossexualidade, Bidgood desvaneceu a linha entre o que era considerado perversão e arte erudita valorizada por uma elite cultural. Os seus contributos podem ser observados tanto em artistas como o conceituado fotógrafo David LaChapelle, como sensações da cultura popular moderna, como Lil Nas X ou Charli XCX.  E ainda assim o impacto de Bidgood não se limita à sua influência estética, escolhas de cor ou narrativas eróticas, também a sua ideologia artística perdura até aos dias de hoje. O realizador era um defensor ávido da arte como uma concretização emocional, não como acesso vertiginoso para a fama e dinheiro. Pelas palavras do próprio: “Arte nunca deveria ser definida exclusivamente por aqueles que tem o poder de compra. Arte tem de se sentir. Exige uma resposta física.”

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