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Notícias 16. 3. 2022

Philipp Vlasov, diretor da Vogue Ucrânia: "Vergonha"

by Philipp Vlasov

 

Vlasov escreve uma carta aberta à Vogue Grécia.

O retrato de Phillipp Valsov por Ksenia Kargina

Sempre acreditei que fosse, de certa forma, um cidadão do mundo. Nunca me incomodei muito com o fardo que o meu passaporte russo carregava, ainda que me tenha dado alguns problemas, como a renovação dos mais variados visas e certificar-me de que tinha espaço suficiente para carimbos de entrada noutros países. Ainda assim, as minhas mãos nunca estiveram atadas pelos procedimentos da fronteira. Mesmo quando era criança, com 13 anos a viver na União Soviética, numa pequena cidade no fim do mundo, acima do círculo polar, consegui vencer a competição All-Union Essay e visitar Washigton D.C. num programa de intercâmbio como um Jovem Embaixador. Mais tarde, após terminar o curso, vivi, estudei e trabalhei em vários países - Rússia, Noruega, Estónia e, mais recentemente, Ucrânia.

Nasci na Ucrânia, a antiga URSS da Ucrânia, na Crimeia. De sangue, sou metade russo, um quarto ucraniano e um quarto bielorusso. Após a queda da União Soviética, a escolha da cidadania não era minha, mas dos meus pais. Agora, se pudesse voltar a ter essa escolha, escolheria ser ucraniano.

Nunca estive tão feliz como quando estava a morar em Kiev. Uma cidade bonita, um trabalho de sonho, um doce e querido cão. No dia 24 de fevereiro, o dia em que a Federação Russa invadiu a Ucrânia, estava em Kiev, mas não senti qualquer tipo de medo, apenas choque, raiva e vergonha. O país que me emitiu o passaporte - se Putin insiste em chamar a isto uma “operação militar”, recuso-me a chamar ao seu país mais do que isto - privou milhões de ucranianos e estrangeiros que viviam na Ucrânia do seu direito à busca da felicidade.

Ilustração em aguarela: “Wounded” de Mykola Tolmachev

Desde 2014, o ano em que a Crimeia foi anexada à Federação Russa, que sempre que alguém me pergunta de onde sou, eu respondo que sou russo, sempre acrescentando “mas vivo na Ucrânia” - como se estivesse a pedir desculpa, simultaneamente distanciando-me do país onde cresci. Há alguns dias atrás, num elevador de um hotel em Varsóvia, após fazer festas ao meu cão, uma senhora perguntou-me esta mesma questão. Sem hesitar, respondi que era ucraniano. Pela primeira vez na minha vida. Tal como esta foi a primeira vez que tive de fugir - exatamente como acabei onde estou.

Philipp em exílio

Sinto me orgulhoso de ter amigos ucranianos. São amigos verdadeiros. Alguns deles salvaram-me a vida, e a do meu cão, por me ligarem na manhã de dia 25 de fevereiro, após uma noite passada em branco, repleta de sons de bombas a explodir por perto. Disseram-me que um táxi chegaria à minha porta em quinze minutos para nos levar para a sua casa fora de Kiev. Arrumei os meus documentos, umas t-shirts e camisolas, uma escova de dentes elétrica - ainda que me tenha esquecido do seu carregador - e muita comida de cão. À uma da tarde do mesmo dia, os meus amigos, os seus amigos, o meu cão e eu começámos a andar a pé para a fronteira com a Moldávia. Quatro dias depois, chegámos à Polónia - após horas sem fim de espera nas fronteiras de Moldávia, Roménia e Hungria.

Ari, o cão de Philipp, enquanto fugiam do país

Alguns de nós ficaram por aqui, outros viajaram mais para dentro da União Europeia. Os meus amigos e eu, as oito pessoas exiladas, e os nossos quatro cães estamos a ficar de graça numa casa de campo de uns amigos. Temos pequenos-almoços e jantares todos juntos numa mesa grande, a ver e a falar sobre as notícias, a ligar aos nossos amigos e família que ficaram na Ucrânia, a trabalhar - e a sentir uma vergonha impotente. Os ucranianos têm vergonha de deixar para trás o seu país, a sua família, os seus entes queridos, os seus amigos. Eu estou completamente envergonhado por ouvir o que quer que seja acerca do país que me emitiu o passaporte atacar e destruir a nação que eu tanto amo e respeito. De todos nós, os cães são os que estão a lidar melhor com a situação; parecem já se ter acalmado e já se estão a dar bem entre si.

Ari num hotel após 4 dias de viagem

Não que sejamos completamente inúteis aqui. Não de todo. Os meus amigos ucranianos estão a ajudar os cidadãos da sua nação a evacuar ou a sobreviver, acudindo aqueles que escolhem ficar na sua terra-mãe e lutar. Estão a trabalhar na angariação de fundos e a fazer os máximos para sensibilizar o mundo sobre esta guerra. Eu continuo a gerir a equipa da Vogue Ucrânia, agora espalhada pelo mundo. Obviamente, não vamos conseguir lançar edições impressas de momento, por isso estamos focados na nossa presença digital, criando conteúdo prestável e inspirador que possa ajudar e dar força ao ucranianos, e simultaneamente informar o mundo sobre o país que alguém se atreveu a dizer que não tinha direito a existir. Muitos dos meus colegas, na Ucrânia e no estrangeiro, estão a fazer voluntariado durante o dia, e a escrever para a vogue.ua à noite. Estou tão orgulhoso deles. Deus os abençoe.

Este texto é uma tentativa de me livrar da minha vergonha. E de ajudar os meus amigos ucranianos para que estes se libertem de alguma da sua culpa também. Porque existe alguém neste mundo que deveria estar envergonhado em vez de nós. E nós enviamos-lhe toda a nossa vergonha.

Já não há nada a dizer, exceto afirmar que não vamos perder a esperança - a justiça tem de prevalecer. E esperamos que tu, tal como nós, continues a ter esperança.

13 de março de 2022
P.V.

Publicado originalmente em Vogue.gr.

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