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Entrevistas 7. 9. 2022

Yuliia Shchelkonogova: retratos de mulheres ucranianas em tempo de guerra

by Maria Mokhova

 

Fotografia de Lesha Lich

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Criar e interessar-se por Beleza no meio da guerra não é uma tarefa fácil, no entanto ao longo dos últimos meses os ucranianos descobriram uma imensa e interminável fonte de inspiração: as pessoas que estão a lutar pelo seu país e pelas suas vidas. A ideia de criar um projeto dedicado às mulheres a servir na guerra surgiu em março - quando a equipa da marca ucraniana NUÉ se encontrava a tentar resgatar a sua produção de Kiev. O resultado de vários dias de sessões fotográficas e entrevistas são seis histórias da constante batalha pela vida, pela pátria e pela Beleza - como uma humilde forma de agradecer a estas e a todas as mulheres ucranianas que lutam, protegem e reconstroem o seu país. 

Yuliia Shchelkonogova era maquilhadora profissional antes da guerra, mas, depois do dia 24 de fevereiro, tornou-se voluntária de forma inesperada. Durante estes meses, Yuliia dedicou-se a resgatar animais, a ajudar idosos, crianças, equipas militares e todos os que conseguia, mudando por completo a sua vida e a sua profissão. Atualmente, Yuliia integra a organização de caridade Trinity e continua sistematicamente a ajudar quem mais precisa. 

Sobre a própria 

“Nasci na região de Donetsk e tenho vivido em Kiev nos últimos 14 anos, a trabalhar como maquilhadora. Antes do início da invasão, este trabalho era a minha vida, vivia para ele. Agora tudo mudou, tanto a minha vida como o que faço com ela.”

Sobre o voluntariado

“Até ao dia 24 de fevereiro, não tinha qualquer experiência em voluntariado - à exceção, claro, da ajuda que oferecei a alguns amigos em Madain durante a Revolução da Dignidade [a revolução ucraniana de 2014]. A guerra mudou tudo. O meu trabalhou parou, ainda que tenham havido diversas sessões fotográficas desde a invasão, numa base de caridade. E se antes do início da invasão pensava em deixar a Ucrânia e ir viver para o estrangeiro com amigos ou familiares, agora não penso nisso. O meu lugar é aqui, em casa, e no primeiro dia [da invasão] senti que tinha de ficar e ajudar. Ao início, era apenas um chat de grupo com pessoas do nosso complexo residencial - escrevíamos o que era preciso. Comecei por juntar as almofadas e cobertores que tinha em casa, os medicamentos que possuía, e levei-os comigo para onde era preciso. Durante os primeiros dias passava horas nas filas das farmácias para comprar medicamentos para os idosos e depois entregá-los pessoalmente. Para além disso, há uma loja de equipamentos militares perto de minha casa, por isso comecei a ir lá comprar o que me pediam. A dado ponto, falei com os membros do batalhão Azov e comecei a comprar munições para eles. Fiz isto com a Kateryna Kovalyova, ajudámo-nos uma à outra, porque eu vivo no lado esquerdo de Kiev, ela vive no lado direito, e nas primeiras semanas não havia quase comunicação entre os dois lados, por isso coordenámos esforços. Um dia, ela disse ‘temos de criar uma uma organização de caridade para que possamos receber ajuda humanitária oficial e colaborar com organizações e voluntários estrangeiros’. Não consigo imaginar como esta mulher frágil e delicada conseguiu e continua a conseguir fazer tudo isto, mas começámos a receber camiões e camiões de ajuda do Reino Unido e outros países e distribuí-la entre as pessoas ao nosso cuidado.”

Fotografia de Lesha Lich

Sobre salvar animais  

“A nossa organização nunca se concentrou numa ‘especialização’, por isso ajudamos toda a gente - militares, civis, deslocados, e também vários abrigos de animais. Quando comecei esta onda de voluntariado, as pessoas enviavam-me informação sobre quem precisava de ajuda e, a certo ponto, havia muitas mensagens sobre os cavalos no Hipódromo de Kiev. Foi assim que conheci o Anatoly Levytsky - um médico que trabalhou toda a sua vida na pista e cujo estábulo abriga mais de 50 cavalos. Muitas pessoas que deixaram o país deixaram os seus cavalos cá, pois é muito difícil mudá-los de sítio. O Anatoly disse-me que tinham comida naquela altura, porque comprava tudo para os seus cavalos com três meses de antecedência, mas não havia serradura suficiente, que é o que está no chão dos estábulos. Ainda estava muito frio, por isso, sem a serradura, os cavalos teriam frio e começariam a adoecer. O médico também me disse que tipo de serradura precisava, onde estava e como podia encontrá-la, e este foi o início de como comecei a ajudar cavalos. Naquele tempo, as autoestradas estavam bloqueadas, as serrações estavam fechadas, porque estavam bastante ativas as hostilidades na região de Kiev e no Norte do país. Mas algures na região de Zhytomyr, encontrámos serradura, depois, um camião e dinheiro para o combustível - 12 mil hryvnias [cerca de 327 euros] para 60 toneladas de serradura. Depois as pessoas da vizinhança começaram a contactar-me - a situação delas era muito mais difícil, não tinham serradura nem comida, e depois trouxemos mais 20 toneladas de serradura, depois muitas cenouras, o que também foi difícil de encontrar, pois os supermercados estavam fechados. Agora, felizmente, a situação está melhor e já não precisam da nossa ajuda.”

Sobre ter amigos na linha da frente

“Tenho um primo lá, muitos amigos, e graças às atividades de voluntariado, tantos outros conhecidos. Está a ser difícil. Pessoalmente, ganho muita energia ao falar com quem está na linha da frente, porque se os ânimos estão em alta lá, como é que nós, na retaguarda, nos atrevemos a estar em baixo. E agradeço-lhes [a quem está na linha da frente] por todas as manhãs, por cada café que bebo. Quem vai lutar tem uma atitude completamente diferente face à vida, tem um humor militar particular. E, de forma geral, estão muito animados, muito calmos, não podem ir abaixo, é absolutamente impossível fazê-lo. Conheço muitas mulheres que estão na guerra também, e é muito difícil para elas. Não é só arco-íris e unicórnios na linha da frente, a guerra não é só sobre feitos heróicos, mas também sobre pequenas coisas complexas do quotidiano que enfraquecem a saúde do exército.”

Fotografia de Lesha Lich

Sobre a Beleza

“A coisa mais bonita que pode existir numa pessoa é bondade e um grande coração, tenho visto mais uma vez a prova disso. Ao fim e ao cabo, agora contacto com pessoas de áreas completamente diferentes, que não estão de forma alguma relacionadas com o meu trabalho enquanto maquilhadora ou com a indústria da Beleza, e todos os dias penso no quão bonitas elas são. Neste momento, não presto atenção à minha aparência de todo, não é importante para mim e isso não me preocupa. Nem sequer tenho tempo para arranjar as unhas ou o cabelo. Nos primeiros meses, estava sempre equipada com o uniforme militar - era muito mais simples e conveniente, quando várias estradas em Kiev estavam bloqueadas. Agora também visto uniformes ou algo simples e confortável. Houve uma vez em que vesti algo mais arranjado para a estar com amigos, ligámos a música e pensei no quão boas as nossas vidas eram antes disto. E, um dia, num estado mais emotivo, comprei um vestido e uns sapatos de salto alto. Pus-me a rodopiar em frente ao espelho, mandei uma foto aos meus amigos e recebi muitos elogios - e depois mudei de novo para o meu uniforme.” 

Sobre 24 de fevereiro

“Acordei com o som de explosões, saí a correr de minha casa às 5 da manhã e vi mísseis a passar mesmo por cima de mim. O meu primo que está no exército ensinou-me que, se algo voa, não deves fugir, simplesmente baixa-te e cobre a cabeça. E depois ouvi o assobiar de um míssil, ainda sem saber que era um míssil, e caí no chão. Via toda a gente a sair de casa com as suas malas de viagem, mas eu estava segura de que não queria ir a lado nenhum. Depois pensei que devia dizer aos meus amigos para ficarem comigo, para ficarmos juntos, e durante os doze dias seguintes, seis de nós ficámos a viver em minha casa.”

Fotografia de Lesha Lich

Sobre o dia mais negro

“Lembro-me de três momentos negros. Um deles foi quando as nossas tropas entraram em Bucha. Senti-me muito mal ao ver aqueles horrores, o que me obrigou a ver menos notícias, porque sinto-me sempre muito envolvida naquilo tudo. Naquele dia, até acendi uma vela, era tão doloroso, tão obscuro, sentia-me como se tivesse ingerido veneno. Outro foi quando um dos meus amigos foi morto. Fui à casa de casa de banho, chorei, gritei… Mas limpei as minhas lágrimas e regressei, porque tinha de fazer algo mais. E depois foi quando o meu primo, um soldado, estava a sair de Volnovakha - o batalhão inteiro dele foi morto, à exceção dele e de outro soldado. Demorei dois dias a convencê-los de que tinham de sair de lá. Os meus amigos explicaram-me que eu não devia chorar ou demonstrar a minha raiva, mas, pelo contrário, devia manter-me calma e ajudá-los a manter a força, para que não perdessem o sentido da vida e continuassem a lutar por ele. Conseguimos tirá-los de lá, saíram pelo próprio pé, o meu irmão passou uns dias a descansar e depois regressou ao combate.” 

Sobre a procura por luz

“Ajuda quando as pessoas nos agradecem, às vezes entre lágrimas, mas muitas vezes entre sorrisos. Não estou a exagerar, é o que nos inspira a trabalhar cada vez mais, porque parece sempre que nunca fizemos o suficiente. Nas primeiras semanas, estávamos literalmente a salvar vidas, por exemplo, das pessoas que não têm a tiróide e estavam a precisar urgentemente de tiroxina - nós encontrámos, o que foi um grande desafio, e salvámo-las de um verdadeiro inferno, o que nos deixou muito felizes. E o meu irmão, que está na linha da frente, também me ajuda muito, porque ele vê tudo de forma muito leve, independentemente de onde está. Quando falo com ele sinto-me logo aliviada, porque não percebo como ele consegue aguentar com tanto. Comparado a ele, está tudo bem comigo, por isso não posso parar de fazer o que estou a fazer, não posso desistir. Descansaremos quando tudo isto acabar com a nossa vitória.” 

Ficha técnica:

Fotografia: Lesha Lich
Direção de arte: Olesia Romanova
Vestuário: NUÉ
Maquilhagem: Yulia Schelkonogova
Cabelo: Nodira Turadzhanova
Produção: Diana Melnikova

Projeto apoiado por NUÉ e Viktoriia Udina.

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