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Guestlist 6. 9. 2022

As criações inspiradoras de Belinda Jokoth

by Vogue Portugal em colaboração com Jokoth

 

Com raízes no Quénia mas baseada em Portugal, a Jokoth assume-se como uma marca única. 

Fotografia de Bruno Costa 

Lançar uma marca no meio de uma pandemia não é para todos. Mas Belinda Jokoth, fundadora da marca Jokoth, é uma mulher especial. Em entrevista à Vogue Portugal, a designer e empreendedora relembra as tribulações os momentos de felicidade de criar um projeto num particularmente período difícil. Mas a adversidade não é algo novo para a designer, que com apenas nove anos vendia roupas e tecidos num mercado como forma de ajudar a família. Esta experiência, tal como a cultura queniana, na qual cresceu, são influências primordiais no trabalho de Jokoth. Dedicada a produzir roupas que sejam um boost de confiança para todas aquelas que as usam, Belinda cita a mãe como uma das suas maiores inspirações: enquanto crescia viu-a trabalhar na indústria têxtil, e isso foi preponderante tanto na estética da Jokoth como na preocupação em produzir peças sustentáveis e éticas. Com o conhecimento do sacrifício que os produtores das suas peças em mente, a designer queniana enfatiza que respeita o tempo e dedicação de toda a sua equipa. Jokoth é uma carta de amor a todas as mulheres que não têm receio de catalisar mudança. 

Nasceu e cresceu no Quénia, porque escolheu Portugal como a casa da sua marca, Jokoth? Aterrei no Vale do Douro a 14 de Novembro de 2021 e senti-me como se estivesse a acordar no paraíso. Portugal é muito rico e belo por si só e as pessoas que conheci respeitam e apreciam bastante outras culturas. Os portugueses que conheci sempre me ajudaram, mesmo sendo eu uma estranha, ainda que isso significasse criarem inconveniências na sua vida, só para me ajudar a ter sucesso. Foram estas qualidades que me ajudaram a suceder no estabelecimento da Jokoth em Portugal. Cresci no mercado a vender camisas com a minha mãe, desde os 9 anos de idade. Assim, o Quénia para mim é um ponto de partida onde descobri o empreendedorismo e os meus talentos criativos. Eu sou Nilote. A minha cultura tem tradições muito fortes que eu ainda valorizo e respeito muito. Mas acredito que faz parte do desenvolvimento humano também explorar outras culturas, aprender e descobrir novas oportunidades e não apenas estabelecer-me num só lugar.

Como surgiu a Jokoth? Jokoth é uma combinação de dois nomes inspirados pela teoria de Yin e Yang da filosofia chinesa. Ensina-nos a conciliar dois fatores opostos com o equilíbrio de modo a encontrar a solução perfeita para os nossos problemas. A minha mãe é uma empreendedora natural, ainda que extremamente católica. Quando fui batizada, foi ela que me deu o nome de Jecinta em homenagem a um mártir no Evangelho de 1910. O meu pai era ateu e acreditava apenas em factos, números e ciência. O nome Okoth pertence ao meu pai. J + Okoth = Jokoth. O nome da marca nasce das capacidades que herdei e isto é tudo o que os meus pais desejavam para mim.  

Fotografia de Bruno Costa

A Jokoth é, como afirma, feita para a mulher self-sufficient pioneer. Quem é esta pessoa?  Há beleza em todos e, portanto, nada é mais belo do que a coragem de ser quem realmente somos. Sempre admirei as mulheres que não têm medo de tomar a iniciativa, de experimentar os caminhos invictos. Esta afirmação é, na verdade, a minha perceção de mulheres fortes e corajosas que gostam de explorar novas oportunidades, não têm medo de provocar a mudança e apoiar outros a crescerem — e a tornarem-se bem-sucedidas como eles. Não se limita apenas à Moda, mas sim a uma descrição de uma personalidade e singularidade da própria identidade. Vem de saber quem somos e o que defendemos e acreditar no nosso poder para também ajudar a inspirar os outros a desenvolverem-se a si próprios. 

Menciona a confiança como uma das suas principais inspirações no processo de design. Como pensa que a Jokoth pode ajudar as mulheres a sentirem-se confiantes? Acredito que algo intemporal é muito único e tem um valor duradouro. As peças da Jokoth encontram a sua inspiração na Moda dos anos 50, onde as mulheres eram na sua maioria vestidas com drapeados, texturas coloridas e tecidos finos em corpos curvilíneos. Mas a década de 1950 é também a época da cultura expressionista e do orgulho pela própria identidade. A Moda tinha substância. Inspirados nessa época, estamos dedicados ao artesanato e tentamos desenvolver os nossos desenhos com grande enfoque na qualidade, desenhos raros e intemporais para criar clássicos que tenham estilo, sejam fáceis de combinar, e que nunca fiquem fora de moda. As nossas peças são feitas à mão com a missão de elevar o guarda-roupa de todas as mulheres para que se sintam perfeitas.

A Jokoth é uma marca relativamente jovem. Como vê no futuro? Para ser honesta, comecei a Jokoth em tempo de incerteza e já senti tudo: COVID-19, inflação, crise dos fabricantes… Felizmente tive a sorte de conhecer uma equipa que apoiou o meu sonho, disposta a trabalhar comigo sob restrições, e eu cheguei até aqui por causa delas. Atualmente temos representações de distribuidores em Nova Iorque, Milão, Suécia e Alemanha, isto apenas nos primeiros seis meses da marca. Penso que esta é uma boa base para nós. Para além disso, adoro o trabalho que fazemos, por isso vou continuar a dar o meu melhor para ver o futuro vestido de cores garridas.

Começou o seu percurso profissional no mundo das finanças. O amor pela Moda sempre esteve lá? Sim. Tudo começou em 1998, quando o meu pai perdeu tudo e passamos de um estilo de vida extravagante para a pobreza extrema. Não ter nada foi a razão pela qual comecei a fazer roupa para as minhas 12 irmãs. Portanto, sim. Herdei isso da minha avó.  Na verdade, tenho duas irmãs que também são designers no Quénia. 

Mencionou que o seu pai trabalhava em finanças e a sua mãe com têxteis. Que influência tiveram na Jokoth? O meu pai já se tinha reformado quando dei início a este projeto. A mãe é a minha maior inspiração quando se trata de empreendedorismo e têxteis. O meu pai sempre foi contra isto. Ele acreditava apenas nos académicos.  Ele queria que eu e os meus irmãos e irmãs nos tornássemos médicos e advogados. Mas eu sou ótima na área do marketing e nasci com capacidades criativas — não tenho paciência para ler muitos livros mas escolhi estudos em que era boa para me ajudar a ter sucesso nos negócios. Por isso misturei algumas competências de cada um dos meus pais e tentei desenvolvê-las para me encaixar no meu sonho de infância.

Fotografia de Branislav Simoncik

Para além do Jokoth, também fundou a Girl Child Foundation. Pode dizer-nos um pouco mais sobre esta iniciativa? A Girl Child Foundation é uma iniciativa inspirada na minha mãe e é sobretudo para crianças negligenciadas que ou são criativas ou nascem com competências empreendedoras. Devido à pobreza ou ao abuso, estas raparigas precisam de ser encorajadas a encontrar algo belo que tenham criado por si próprias. O propósito da fundação é reuni-las para que possam aprender e inspirar-se mutuamente, sem o medo de serem rejeitadas pelo mundo. E, ao investirem nos seus talentos criativos e no seu empreendedorismo, têm a certeza de que terão a oportunidade de desenvolver as suas capacidades e restaurar positivamente tudo o que outrora nunca imaginaram que poderiam fazer sozinhas.

Todas as peças da Jokoth são produzidas segundo as diretrizes de Fair Trade. Acredito que isso seja fundamental para a marca… A criatividade é um aspeto muito importante que não se pode aprender em lado nenhum e ou se nasce artista ou não. As mulheres que fazem as minhas roupas são pessoas muito criativas e dedicadas às suas capacidades. Todas estas mulheres partilham a paixão e visão que eu tenho na minha marca e têm estado dispostas a trabalhar horas extra para me ajudarem a atingir objetivos. Estas senhoras têm filhos e empregos exigentes e, por conseguinte, merecem salários de dignos para viverem confortavelmente, ainda para mais tendo em conta as suas competências especializadas.

Fotografia de Bruno Costa

A Jokoth está profundamente empenhada na sua sustentabilidade. O que fazem, concretamente, para reduzir a pegada de carbono na produção das suas peças? A Jokoth só compra tecidos de fornecedores que tenham obtido um certificado de Normas Globais de Tecidos Orgânicos (GOTS). Os nossos tecidos são concebidos e fabricados em produção circular com forte ênfase na produção sustentável. Desta forma somos capazes de reduzir o desperdício ao mínimo e poupar energia na produção — e assim produzir peças que ficarão em circulação durante o máximo de tempo possível, sem causar danos irreversíveis ao nosso planeta. Fabricamos apenas quantidades pequenas e exclusivas, através de coleções-cápsula de alta qualidade, que são intemporais e vendidas rapidamente. A nossa cadeia de fornecimento está, portanto, organizada com a flexibilidade de fabricar diretamente a partir do que os nossos fornecedores têm em stock e armazenar bens na mesma cidade onde as peças de vestuário são produzidas. Temos menos consumo de energia em logística porque não temos stocks massivos à espera de serem vendidos. Quando recebemos encomendas, enviamo-las diretamente aos clientes. Num futuro próximo esperamos também conseguir envolver as nossas clientes no processo de design e, por conseguinte, diminuir ainda mais o desperdício.

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