Beleza  

Vitamin Sea: os efeitos do mar na pele, no cabelo e na mente

10 Aug 2026
By Beatriz Fradoca

Julia W fotografada por Chris Milo, com realização de Alessandra Mastantuoni e Klio Kosuth, para a edição Connect da Vogue Portugal, publicada em julho 2019.

Há qualquer coisa num dia de praia que faz com que o resto do mundo pareça menos urgente. Entramos no mar quase sem pensar, como se fosse o prolongamento natural do calor. A água está lá, o corpo pede frescura e a cabeça acompanha sem grande resistência. Mas o sal que flutua nessa água não é neutro. Atua, reage, desidrata e, em alguns casos, reequilibra. Entre benefícios reais e efeitos menos óbvios, o impacto do mar no corpo e na mente merece ser analisado com mais detalhe do que a ideia romântica de um mergulho de verão.

Nos dias quentes, não existe melhor ideia do que um mergulho no mar. Seja porque está fresco, porque nadar nos traz tranquilidade ou porque simplesmente o conceito de ficar a boiar minimiza o maior dos problemas. Dizemos que é só mais um, depois mais outro, e de repente já perdemos a noção das horas. Por isso, entre o calor e a vontade de aproveitar o dia, acabamos por justificar mais um mergulho, mais uns minutos dentro da água, como se o oceano não fosse distração, mas antes terapia. O curioso é que, nesses momentos, ninguém pensa muito no que a água do mar está realmente a fazer à pele ou ao cabelo. Nem sequer ao corpo no geral. Há uma espécie de confiança cega nas suas benesses, como se tudo o que vem dela só pudesse ser bom.

Talvez seja por isso que persiste a ideia de que o mar "purifica" a pele, e de facto, existe alguma base científica para essa perceção: a água salgada ajuda a remover suor, oleosidade e resíduos acumulados na superfície cutânea e pode proporcionar uma ligeira esfoliação. Ainda assim, como explica Marta Teixeira, médica dermatologista e parceira Skinceuticals, o conceito de purificação é sobretudo cultural. Para a maioria das pessoas, a sensação de pele renovada resulta mais da frescura do banho e da remoção temporária de impurezas do que de uma transformação real da saúde cutânea.

O sal tem um efeito ligeiramente antisseborreico, pois pode ajudar a secar pequenas imperfeições e, por isso, é fácil criar a perceção de que o mar melhora a pele. Em algumas pessoas isso é mesmo visível, sobretudo em peles mais oleosas ou com tendência para acne leve. Ainda assim, os benefícios dermatológicos da água do mar comum tendem a ser mais modestos do que muitas vezes se imagina. Segundo Marta Teixeira, a evidência científica mais sólida existe sobretudo para águas extremamente ricas em minerais, como as do Mar Morto, cuja composição tem sido associada a melhorias na hidratação, na função da barreira cutânea e na inflamação em doenças como dermatite atópica e psoríase. No caso da água do mar convencional, os benefícios tendem a ser mais temporários e menos consistentes. Após a exposição, é frequente surgir uma sensação de pele mais seca e repuxada e, em alguns casos, pequenas zonas de irritação, sobretudo quando já existe sensibilidade cutânea ou uma exposição solar prolongada. E é aqui que entra outro fator que raramente se separa do mar: o sol. A combinação de sal e radiação UV intensifica a desidratação cutânea. O sal deixa a pele mais exposta, e o sol acelera o processo de perda de água e envelhecimento celular. Não é algo imediato no sentido visível, mas é cumulativo

Quando a mente abranda demasiado, também perde algum grau de vigilância. Ficamos menos atentos ao tempo, à hidratação, ao sol, aos sinais do corpo. É muito comum passar horas no mar sem perceber o impacto real que isso está a ter na pele.

Cerca de 80% dos sinais visíveis de envelhecimento da pele estão associados à radiação ultravioleta. Ao penetrar na pele, os raios UV geram stress oxidativo, danificam o ADN celular e ativam enzimas que degradam colagénio e elastina. O sal pode contribuir para a desidratação superficial e fragilizar temporariamente a barreira cutânea, mas é a exposição solar repetida que acelera de forma mais significativa o aparecimento de rugas, flacidez e alterações de pigmentação.

No cabelo, o efeito é ainda mais claro. Segundo Vasco Freitas, hairstylist e pro-influencer da Kérastase, o sal abre a cutícula do fio, remove parte da humidade natural e altera a textura. É daí que vem aquele aspeto de beach waves com volume e movimento, que tantas pessoas gostam. Mas essa estética tem um custo: o cabelo fica mais áspero, mais frágil e, com repetição, mais propenso a quebra. O que parece leve e natural no dia em que acontece transforma-se, passado algum tempo, em secura acumulada que já não tem o mesmo encanto. Cabelos pintados ou quimicamente tratados são especialmente vulneráveis. Como a estrutura da fibra já foi alterada por processos químicos, absorvem sal com maior facilidade e tendem a perder brilho, elasticidade e resistência mais rapidamente. Os cabelos finos desidratam-se com maior rapidez, enquanto os mais espessos costumam tornar-se rígidos e difíceis de desembaraçar. A porosidade já aumentada torna-os mais suscetíveis à desidratação rápida. Há ainda o efeito invisível: a acumulação de sal no couro cabeludo pode causar irritação leve, prurido e até escamação, sobretudo se não houver lavagem adequada após a exposição, pois, quando a água evapora, mesmo que não se consiga ver, os minerais e cristais de sal permanecem depositados na superfície da fibra capilar e esses resíduos funcionam quase como uma esponja microscópica que continua a retirar humidade do cabelo ao longo do dia.

Apesar disso, há um lado menos físico e mais difícil de medir que explica porque continuamos a voltar ao mar sem hesitar. A água fria, o som das ondas e a imersão criam um efeito real no sistema nervoso. Há uma redução da ativação do stress, uma espécie de regulação automática que desacelera a mente. Não é apenas uma sensação subjetiva, o corpo entra mesmo num estado mais próximo do relaxamento profundo, com diminuição de estímulos externos e maior foco no presente imediato. É por isso que, mesmo sem pensar nisso, sentimos uma espécie de leveza mental depois de um banho prolongado, no mar. Mas o efeito de relaxamento tem um lado negativo. Quando a mente abranda demasiado, também perde algum grau de vigilância. Ficamos menos atentos ao tempo, à hidratação, ao sol, aos sinais do corpo. É muito comum passar horas no mar sem perceber o impacto real que isso está a ter na pele ou no nível de fadiga. A sanidade mental aqui não é afetada de forma negativa, pelo contrário, tende a melhorar no curto prazo, mas cria um estado de distração tão profundo que o autocuidado fica para trás. E talvez seja isso que torna a relação com o mar tão interessante. Não é uma experiência equilibrada, é uma experiência de contraste. Dá-nos calma mental enquanto exige esforço físico depois. Dá-nos a sensação de pele limpa enquanto a desidrata. Dá-nos um cabelo com vida enquanto o fragiliza. E mesmo assim, nada disto costuma mudar o comportamento. Voltamos sempre, como se a memória imediata fosse mais forte do que a consequência. E ainda bem que o fazemos: só temos também de nos lembrar que o corpo e o cabelo pedem cuidados pós-solares que sejam tão eficazes como esse efeito terapêutico.

Beatriz Fradoca By Beatriz Fradoca
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