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Verde-esperança

17 Sep 2020
By Sara Andrade

O planeta azul pode estar a ver-se a braços com um futuro negro, se algo não mudar. Felizmente, há progressos que são o silver lining destes tempos cinzentos.

O planeta azul pode estar a ver-se a braços com um futuro negro, se algo não mudar. Felizmente, há progressos que são o silver lining destes tempos cinzentos.

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Temos pouco mais de uma década para evitar danos irreversíveis no nosso planeta decorrentes das alterações climáticas”, alertava María Fernanda Espinosa Garcés, Presidente da Assembleia Geral das Nações Unidas, numa reunião de extrema importância em janeiro de 2019. Mais de um ano depois, e numa altura que veio colocar novamente o descartável em cima da mesa, seja sob a forma de máscaras, um incremento do take out e take away, uma apologia do usar e deitar fora ou embalar tudo o mais possível por questões de saúde pública, não sabemos se teremos sequer essa década. Dizer que os últimos anos foram os mais quentes de sempre, mencionar a subida da água do mar e a fusão do gelo, um registo cada vez mais frequente de vagas de calor, incêndios florestais e secas, ou referir o alfabeto de tempestades e furacões só em 2019 – a temporada de furacões, só no Atlântico Norte, o ano passado, nomeou 18 tempestades e nove furacões, três dos quais graves, numa média de tempestades bem acima da média registada entre 1981 e 2010, que se ficou pelas 12 – não é novidade nenhuma para o leitor que segue diariamente os assuntos dos tempos que correm.

Se fosse entrar por aí, precisaria de falar com a chefe de redação desta publicação e perguntar-lhe se seria possível aumentar este artigo três vezes mais do que as páginas que me foram cedidas. Felizmente, ou infelizmente, o tema tem sido explorado o suficiente para não ser necessário relembrar que a região mediterrânea está a ficar mais árida e seca, que há cada vez mais cheias no Norte da Europa, que já se registou um aumento de mortes relacionadas com o calor em algumas regiões e que são já visíveis alterações na distribuição de algumas doenças e vetores de doenças transmitidos pela água. Nem para ser necessário reforçar que existe um ponto a partir do qual as temperaturas e a humidade atingem um nível que o corpo humano não aguenta e já houve horas e regiões pontuais no mundo em que esse limiar foi ultrapassado – é por isso que, mantermo-nos na bitola dos 1,5ºC de aquecimento global é imperativo e implica reduzir o carbono na atmosfera e as emissões que fazemos atualmente. Um objetivo difícil se não estivermos todos na mesma onda de pensamento. Não é à toa que Bill Gates, confesso ativista ambiental, além de cofundador da Microsoft, tenha partilhado recentemente no seu blogue pessoal, Gates Notes, que este é “o próximo desafio económico e de saúde que a sociedade vai enfrentar.

Por mais terrível que seja esta pandemia, as consequências das alterações climáticas podem ser muito piores”, acrescentando que “embora o mundo trabalhe para acabar com o novo coronavírus e começar a recuperar, também devemos agir imediatamente para evitar um desastre climático criando e implementando inovações que nos permitam eliminar o maior número de emissões de gases do efeito estufa”, explica um dos homens mais ricos do mundo. Felizmente, ou infelizmente, sustentabilidade já não é um palavrão, é uma referência, e as alterações climáticas não são nota de rodapé. Porque já não há letras no abecedário para categorizar a urgência de uma ação concertada e de soluções que revertam o impacto do ser humano no Mundo. Felizmente, e não infelizmente, há quem se tenha debruçado, com a ajuda da tecnologia moderna, a reverter esses efeitos, criando, no meio do worst case scenario, um vislumbre de fé na Humanidade. Porque a Humanidade é a causa, a consequência, e a responsável, tanto pela maldição, quanto pela salvação, do Planeta.

A tecnologia pula e avança

Somos o motivo contra o qual agora lutamos. E estamos todos os dias a lidar com as consequências cuja tendência é a de se agravarem. Mas, além da destruição à nossa custa, também é das mãos e da mente humana que chegam avanços tecnológicos que são fortes concorrentes neste jogo de recuperação do planeta. Avanços como o do vidro solar, por exemplo. Já imaginou um arranha-céus inteiro passível de gerar energia? É certo que já conhecíamos a vantagem dos painéis, mas a eficiência das células solares é maior quando a opacidade é também maior, inviabilizando o seu uso em fachadas. Uma equipa da Universidade do Michigan, Estados Unidos, está a desenvolver uma versão que revela 15% de eficiência, com tendência a aumentar (as células de maior performance atuais atingem 25% e mais), ao mesmo tempo que permitem a entrada de 50% da luminosidade. Outro material na vanguarda é o grafeno, uma camada ultrafina de grafite descoberta em 2004 pela Universidade de Manchester, Reino Unido, com uma variedade de aplicações em termos ambientais. Flexível, transparente, altamente condutor, pode ter usos ao nível da filtração de água, condução de energia com o mínimo de desperdício, aplicações fotovoltaicas, só para nomear algumas. Não deverá servir para substituir o plástico, mas para isso há outras alternativas: o plástico vegetal. O bioplástico, ainda que com alguns entraves no que diz respeito à sua produção e ciclo de vida, pode ser uma solução para o futuro. Aliás, o plant-based parece ser uma solução em muitos setores, do têxtil (já lá vamos) ao alimentar. Não é nenhum segredo o impacto da indústria animal na pegada de carbono do ser humano no planeta (a produção de carne é responsável por 15% da emissão de gases de efeito de estufa é uma das principais causas da desflorestação na América Central e do Sul, uma vez que o gado consome quantidades massivas de água potável, ao mesmo tempo que a sua produção industrial contamina os recursos de água locais). É por isso que a indústria da “carne falsa” é já uma realidade, com empresas como a Beyond Meat e a Impossible Foods a colocarem no mercado alternativas deliciosas à versão que hoje é consumida em demasia, uma resposta aos amantes de carne que querem fundir esse lifestyle com o do veganismo, por exemplo. Mas há outra fusão ainda mais poderosa: a fusão nuclear e a vontade há muito manifesta de criar poder energético similar ao da fusão que ocorre na energia solar, só que, como sabemos, o problema é o calor que isso gera. A resposta é suspender a reação num plasma para que o calor não toque em nenhum invólucro que invariavelmente derreterá. A timeline para tal ser exequível diz-se ser de 30 anos, mas uma equipa do Instituto de Tecnologia do Massachusetts (mais conhecido por MIT) tem trabalhado com uma nova geração de ímanes que, acredita, colocam o poder da fusão disponível em apenas 15 anos, o que pode ser um passo gigante na luta contra o aquecimento global. Outro avanço igualmente gigantesco, ainda que com muita controvérsia à mistura, é o da Inteligência artificial. O programa da (sem surpresas que Bill Gates seja para aqui chamado) Microsoft, AI for Earth, é um dos esforços mais notáveis para dirigir o potencial da inteligência artificial em prol do planeta, atribuindo mais de 200 subsídios a equipas que exploram a aplicação da inteligência artificial nas áreas da biodiversidade, clima, água e agricultura. Uma das aplicações passa pela análise de superfícies geladas e as suas alterações ao longo do tempo, para que se possa maximizar a plantação de florestas em disposições precisas por forma a maximizar o sequestro de carbono e prevenir ervas daninhas destrutivas. Outra vantagem destas análises conduzidas pela inteligência artificial é o modo como podem transformar os processos de agricultura para reduzir a dependência de pesticidas e diminuir drasticamente o consumo de água. Mais eficiência nos veículos motorizados e alternativas biodegradáveis a materiais como o plástico também estão no espectro de opções, das quais poderemos usufruir – pelo menos se a IA não nos subjugar a todos antes.

Renovável is the new black

Já é possível viver de energias renováveis a 100%, mesmo que possa  não ser, ainda, viável em todo o lado. Mas os países estão a trabalhar para que seja cada vez mais uma realidade – quem se pode esquecer que, em 2016, Portugal viveu quatro dias unicamente de energia eólica, que garantiu o consumo de eletricidade de todo o território durante esse período de tempo? E, no ano passado, segundo dados da REN (Redes Energéticas Nacionais), 51% da energia usada pelo nosso país foi renovável, ultrapassando o das não renováveis, que ficou nos 42,3% (os restantes 6,7% de consumo vem de energias importadas, que podem ser renováveis ou não). É de aplaudir? É, mas a bitola é a Islândia, que vê praticamente 100% da sua energia a chegar de fontes renováveis, uma vez que o país gera energia hidroelétrica e geotérmica suficiente para produzir 95% do seu aquecimento. É o líder neste género de recursos e produz mais eletricidade per capita do que qualquer outro país do planeta. Outros países com percentagens de referência: a Noruega, com 98% de consumo a chegar de energias renováveis, nomeadamente a hidroelétrica; a Costa Rica produz cerca de 95% da sua energia a partir de fontes hidroelétricas, geotérmicas e eólicas e o objetivo é ser carbon-free até 2021; o Quénia produz 70% da sua energia de fontes renováveis e o objetivo é ser 100% renovável em 2030 – mas a evolução é tal que tudo aponta para que a meta possa ser alcançada antes disso; a Suécia quer eliminar o combustível fóssil do seu quotidiano até 2050, a Alemanha conseguiu que todas as casas funcionassem de energia renovável no primeiro semestre de 2018 (e quer, até 2030, que 65% da sua energia venha de fontes renováveis) e a Escócia já registou meses em que 98% da sua energia foi produzida pela força do vento. É um caminho moroso e longo? Sim. Mas é possível? É.

Material girl

Uma das indústrias com maior pegada ecológica é a indústria da Moda. Mas é também uma das mais promissoras e interessantes no que diz respeito a alternativas. Nomeadamente, no que diz respeito a tecidos. Por exemplo, há têxteis biodegradáveis criados com a ajuda de organismos vivos. Isto é, a partir de organismos como bactérias, algas, fermento, células ou fungos, que depois se deterioram em substâncias não tóxicas quando descartados. Outra vantagem desta hipótese é o facto destes organismos poderem “crescer” no tamanho exato de moldes, prevenindo desperdício. Por exemplo, os tecidos algae-based, que geram uma fibra parecida com a lã, podem ser tingidos com pigmentos não-químicos (como carcaças de insetos moídas), a partir dos quais depois podem ser feitas tramas para criar tecido. Theanne Schiros, do departamento de matemática e ciência do Fashion Institute of Technology, em Nova Iorque, tem trabalhado com esta alternativa e fundou inclusivamente uma empresa, a Algiknit, para começar a produzir o material para fins comerciais. Em 2017, a professora-adjunta chegou, com os seus alunos, a criar um par de minimocassins a partir de uma cultura líquida de bactérias, fungos e desperdício compostável, que gerou uma espécie de biocabedal em tamanho suficiente para encher esse molde de sapatos,  depois cosido com fibras feitas a partir de topos de ananáses descartados. Ou seja, uma alternativa que é eficiente e ágil em prevenir desperdício, além de reutilizar elementos que, de outra forma, seriam apenas lixo. As alternativas orgânicas às matérias-primas criadas com recurso a um uso desmesurado de pesticidas são boas, mas os avanços a nível de reciclagem de matérias-primas tem sido tão impressionante quanto bem-sucedido. Fibras criadas a partir de garrafas de plástico e redes de pesca apanhadas à deriva no oceano, ou mesmo novas fibras recicladas de algodão desperdiçado, fecham o círculo no que diz respeito ao desperdício. O tema das tintas, deveras tóxicas, é também um que pode ser corrigido com a ajuda de bactérias ou com o recurso a materiais de origem vegetal. Agilizar o processo de tintura, combinando-o com outras fases do processo de produção, tem também provado ser uma solução na redução do consumo de energia e água ao longo do processo de produção. Mas o desenvolvimento deste género de recursos é ainda curto e confinado a laboratório, pelo que se revela muito dispendioso a nível de valor e não consegue competir no mercado com as opções convencionais. O objetivo é equilibrar estes custos para uma oferta que traga concorrência – ou que a elimine por completo, idealmente. Até lá, e porque o caminho ainda é longo, reduzir, reutilizar e reciclar os materiais já existentes antes de os descartar continua a ser a nossa melhor aposta. De preferência, criados e reaproveitados em fábricas e ateliers eficientes em consumo de água, eletricidade e de desperdício reduzido.

Capturar o carbono

Os diamantes podem até ser carbono puro que se transforma numa estrutura cristalina a altas temperaturas (assim dito de forma simplista), mas o carbono que chega e fica na atmosfera está longe de ser o melhor amigo de uma rapariga. Felizmente, as tecnologias dos tempos modernos conseguem sequestrá-lo da atmosfera ao imitar os processos bioquímicos naturais para o efeito, numa ajuda suplementar ao que a mãe natureza faz de melhor: regenerar-se. Essa classe de tecnologias focadas em fazê-lo intitulam-se CCS (Carbon Capture and Storage) e permitem que se separe o dióxido de carbono dos gases produzidos na produção elétrica e processos industriais. Um dos métodos deste género em estudo, por exemplo, fertiliza o fitoplâncton no oceano para incrementar a vantagem da fotossíntese sobre o carbono – isto porque todos os organismos fotossintéticos absorvem dióxido de carbono, mas alguns cientistas acreditam que os oceanos são os melhores a corrigir o desequilíbrio no ciclo de carbono causado pela atividade humana. De acordo com a organização não governamental The Environmental Literacy Council, esta opção de “sequestro de carbono” significa que o carbono absorvido pelo fitoplâncton segue depois o ciclo da cadeia alimentar marinha, transformando-o em matéria orgânica que se aloja no fundo do oceano e que depois fica enterrada sob o solo oceânico. O processo, que ocorre ao longo de milhões de anos, é também a fonte de algumas das nossas reservas de petróleo atuais, acreditam os cientistas. Outro método é precipitar a erosão de rochas que absorvem carbono para que a superfície das mesmas seja maior e, por isso, mais abrangente. O processo natural de erosão começa com chuva, que é normalmente ligeiramente ácida, uma vez que absorveu CO2 na sua queda, e que reage com a rocha e a “lapida”, criando sedimentos que se tornam bicarbonato e que eventualmente acabam no oceano, num destino similar ao do sequestro de carbono pelo fitoplâncton. A natureza é linda, não é? Nós só precisamos de dar uma ajuda e aprender com ela.

A Mãe Natureza é que sabe

Mãe é mãe e há que respeitá-la e a D. Natureza é o expoente máximo da regra. Os tempos pedem medidas criativas e elas não vêm dentro de uma caixa de petri. O mundo natural é mestre na inovação e a sua vanguarda reside no facto de não ser revolucionário, mas evolucionário. A sobrevivência do que mais se adapta é o projeto de pesquisa mais longo até agora – são biliões e biliões de anos a demonstrar que os organismos que mais se adaptam ao ambiente são os que mais prosperam e, bebendo dessa exímia capacidade de renovação, a ciência tem tentado recriar esses processos de adaptação e regeneração através de uma tendência chamada biomimética, uma área da ciência que estuda as estruturas biológicas, bem como as suas funções, aprendendo com elas e aplicando essas estratégias e soluções em diferentes domínios da ciência. Além das inúmeras aplicações em diferentes setores – os fatos de banho a imitar pele de tubarão evitavam a resistência na água de tal modo que foram proibidos nos Jogos Olímpicos – a sua aplicação no sequestro de carbono é particularmente preciosa. Uma empresa de cimento chamada Calera acredita que o modo como os corais absorvem dióxido de carbono no seus esqueletos pode ensinar-nos a "sequestrar" o dito da atmosfera e a criar cimento, imaginando um futuro de cidades sustentáveis, assentes numa construção que “recicla” a poluição atmosférica. Porque é que a biomimética é tão relevante? Porque a natureza é um modelo exemplar para o “modo como podemos fazer materiais que não são prejudiciais e não necessitam de volumes copiosos de energia… O modo como podemos construir comunidades e cidades de um modo que compensa de facto o ecossistema local em oposição a apenas drená-lo”, defendeu a especialista na área Dayna Baumeister, num podcast da Future Thinkers. A biomimética pode ajudar a transformar por completo os sistemas de produção e infraestruturas, transformando-os numa espécie de ecossistemas circulares, ajudando as empresas a manter a produtividade e a incrementar a qualidade de trabalho dos funcionários ao mesmo tempo que diminui o seu impacto ambiental.

A grande vantagem destes avanços é a capacidade de, dentro do aceitável e possível, manterem o progresso e condições a que o ser humano se habituou no século XXI, mas reduzindo o desperdício e a pegada ecológica, e chegando mesmo a reverter os efeitos do Homem no Planeta, tornando a adoção destas medidas mais viável e sustentável. Porque é que isso interessa? Interessa porque os mais resistentes à mudança conseguem assim, também, aderir a este género de medidas sem prejuízo para o lifestyle a que já se habituaram. Os avanços que se têm feito na regeneração e reversão do impacto humano no planeta merecem aplausos e são impressionantes, mas apenas úteis se o mindset em segui-los e adotá-los for global. “Ao contrário do novo coronavírus, para o qual acho que teremos uma vacina no próximo ano, não há solução de dois anos para reverter as alterações climáticas. Levará décadas para desenvolver e implementar toda a limpeza necessária”, rematou Bill Gates no seu blogue. Mas juntos, conseguimos chegar lá mais depressa – de preferência dentro da década que nos oferecem. Mais do que estas descobertas de fazer cair o queixo, a solução reside acima de tudo na cabeça. É na mudança de mentalidades que reside a solução. E (n)a esperança

Sara Andrade By Sara Andrade

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