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Tendências 30. 11. 2018

O curioso caso dos tratamentos de rosto

by Mónica Bozinoski

 

Ingredientes fora do comum, produtos híbridos que conseguem este mundo e o outro, dietas milagrosas e tratamentos faciais que parecem saídos de um episódio de Black Mirror. Não há nada que a Beleza não consiga fazer – mas será que a indústria foi longe demais? Da infame vampire facial de Kim Kardashian ao verdadeiramente estranho penis facial de Sandra Bullock, a Vogue foi procurar a resposta.

©Getty Images

Se alguém lhe dissesse que, um dia, iria estar sentada numa carruagem de metro, no conforto do seu sofá ou numa mesa de café a ler um artigo sobre tratamentos de rosto que usam prepúcios de bebés sul-coreanos com o objetivo de rejuvenescer a pele, imaginamos que a sua reação seria um grande "isso é completamente impossível". Pelo bem ou pelo mal, o momento de ler um artigo sobre tratamentos de rosto que usam prepúcios de bebés sul-coreanos com o objetivo de rejuvenescer a pele chegou. E chegou da única forma possível em pleno 2018: com um post de Instagram tão polémico que acabou por ser apagado. 

"Depois de um longo voo, gosto de me deitar e de ser coberta com uma máscara de prepúcios clonados e liquidificados - sejamos sinceras, quem é que não gosta?", escreveu Kate Beckinsale numa publicação entretanto removida das redes sociais. "Obrigada @georgialouisesk por este tratamento tão fantástico. Gostei especialmente do facto de me teres garantido que seria 'leve em pénis' já que esta era a minha primeira vez". O único problema do post da atriz, para além das muitas e diversas questões que levanta? Em pleno 2018, apagar ou não apagar já não é uma questão. Querida Kate, repete connosco: uma vez na Internet, para sempre na Internet. 

 
 
 
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"Para o tratamento de rosto Hollywood EGF Facial, a Georgia Louise utiliza o seu peeling TCA (com ácido tricloroacético), uma máquina de micro-agulhas, e uma máscara eletrizante para acalmar a pele, seguida da sua 'caixa secreta' de sérum EGF (Epidermal Gwoth Factor, ou fator de crescimento epidérmico, em português)", explicou uma representante da especialista responsável pelo tratamento em questão, citada pela revista People. "O EGF é derivado das células progenitoras do fibroblasto humano, retirado do prepúcio de bebés coreanos recém-nascidos - que ajuda a gerar colagénio e elastina", concluiu.

"Tenho sempre muita atenção e esclareço quais os séruns e poções radicais que tenho comigo, e por isso explico sempre que o EGF é derivado do prepúcio de bebés recém-nascidos, dos quais foram retiradas células que depois são clonadas em laboratório. O sérum EGF só contem células clonadas", desenvolveu Georgia Louise sobre o seu tratamento de assinatura, aprovado pela agência federal FDA (Food and Drug Administration) nos Estados Unidos da América. "Lembro-me de uma vez que usei placenta de uma porca numa cliente que era vegan, e isso não correu muito bem". 

Apesar da expressão de choque que todas fazemos quando imaginamos este tratamento de rosto, a ideia não é propriamente novidade. No início deste ano, numa entrevista à edição australiana da Vogue, Cate Blanchett descreveu um tratamento de rosto semelhante ao de Kate Beckinsale. "Eu e a Sandy Bullock fomos a esta especialista em Nova Iorque, Georgia Louise, que tem este tratamento que nós chamamos de penis facial, e é qualquer coisa – não sei bem o que é, se é apenas porque cheira um pouco a esperma –, uma enzima que o tratamento tem que fez com que a Sandy começasse a referir-se a ele como o penis facial", contou a atriz.

Alguns meses mais tarde, durante a promoção do filme Ocean’s 8, Sandra Bullock sentou-se com Ellen DeGeneres, que questionou a atriz sobre o então famoso e enigmático penis facial. "É uma extração de um pedaço de pele, que veio de uma pessoa muito jovem, muito longe daqui", disse Bullock sobre o infame sérum que é aplicado na pele durante o Hollywood EGF Facial. "É o prepúcio de um bebé coreano. É isso que ela quer dizer", explicou Ellen DeGeneres à plateia. "Não é como se estivesse ali deitada com pequenos pedaços espalhados pelo rosto", justificou a atriz. "Eu chamo-lhe o penis facial, e acho que quando vires o quão bom é para a tua pele, vais correr em direção à tua especialista e dizer-lhe, 'dá-me o pénis'".

As revelações de Sandra Bullock e Cate Blanchett transformaram-se em manchetes polémicas um pouco por toda a parte, mas não era a primeira vez que o uso dos prepúcios na medicina e, consequentemente, na estética, eram questionados. Segundo um artigo publicado pela Vice, "o interesse dos médicos nos prepúcios de bebés surgiu no século XIX", com um texto escrito pelo Dr. Peter Charles Remondino em 1891, intitulado The History of Circumcision: "para transplantes de pele, não existe nada que consiga superar o prepúcio de um menino", defendia o médico.  

"O fibroblasto é um pedaço de pele que funciona como um solo fértil para outros pedaços de pele e células. Os prepúcios de bebé são o padrão de excelência. Primeiro, são jovens, o que significa que não foram adulterados ou tocados pelos radicais livres e pelas toxinas ambientais", pode ler-se no artigo publicado pela Vice. "Para além disso, são impressionáveis: visto que as suas proteínas ainda não se desenvolveram plenamente, têm diversas aplicações possíveis". 

No mundo da cosmética, para além do agora infame penis facial de Kate Beckinsale, Sandra Bullock e Cate Blanchett, as aplicações deste ingrediente tido como rejuvenescedor podem chegar, talvez mais cedo do que aquilo que imaginamos, às nossas rotinas de Beleza diárias. Para contornar a lista de espera de cerca de dois anos e a modéstia quantia de 650 dólares do Hollywood EGF Facial, marcas como a britânica Vavelta e a norte-americana HydraFacial, seguindo os passos da pioneira SkinMedica, a primeira marca de cosméticos a incluir células retiradas de prepúcios de bebés nas suas fórmulas cosméticas anti-idade, parecem estar a preparar lançamentos semelhantes, naquilo que poderá vir a ser uma alternativa à indústria bilionária do Botox. 

 
 
 
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Apesar do penis facial ser o mais recente a causar controvérsia, e do mercado apresentar uma série de produtos que prometem rejuvenescer a pele graças aos fatores de crescimento epidérmico presentes nas suas fórmulas - o EGF Cream da DHC, o EGF Serum da BioEffect e o FIRMx Growth Factor Extreme Neuropeptide Serum de Peter Thomas Roth são apenas alguns dos exemplos -, não é o primeiro tratamento que nos faz questionar se a indústria da Beleza foi longe demais. 

Em 2013, durante um episódio da série televisiva Kourtney & Kim Take Miami, Kim Kardashian West introduziu ao mundo aquilo que, desde então, se conhece como vampire facial. À primeira vista, aquilo que pode parecer uma maquilhagem de Halloween é, na verdade, um tratamento de rosto que usa o sangue da própria pessoa para incentivar a atividade saudável das células presentes na pele.

"O tratamento consiste numa microdermoabrasão, seguido da aplicação do PRP (Plasma Rico em Plaquetas)", explicou a dermatologista Ava Shamban à revista Allure. "O PRP é obtido através da porção do nosso sangue que não tem células nem moléculas, mas que contem plaquetas. As plaquetas, consequentemente, contêm níveis elevados de fatores de crescimento que, quando aplicados na pele, estimulam a renovação celular". 

"Adoro experimentar tratamentos que deixem a minha pele com um aspeto e um toque jovem. Alguns anos atrás, ouvi falar do vampire facial e fiquei intrigada. Quando eu e o Jonathan estávamos em Miami, decidi experimentar - mas é o único tratamento que nunca mais quero fazer", escreveu Kim Kardashian West no seu blog, cinco anos depois de se submeter ao vampire facial. "Honestamente, foi a coisa mais dolorosa que já fiz na vida! Apesar de não ser para mim, sei que tem imensos benefícios para a pele. A Kourtney é fã do tratamento, e conheço muitas outras pessoas que também adoram". 

 
 
 
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Os benefícios? "Este procedimento causa uma espécie de trauma na pele, e faz com que ela pense que existem feridas. Consequentemente, a tua pele entra em modo de recuperação ao criar novo colagénio, vasos sanguíneos e células. As plaquetas de sangue aplicadas na pele contêm antioxidantes, estimulam a renovação celular, aumentam o colagénio, hidratam, rejuvenescem e reparam a tua pele", explicou Kourtney Kardashian, fã número um do tratamento. E as "muitas outras pessoas que também adoram"? 

"Quando explico isto às pessoas, elas pensam que eu sou louca", disse Hailey Bieber numa entrevista à Teen Vogue. "Na minha rotina de rosto diária, aplico diversos produtos da Barbara Sturm. Ela tirou algum sangue do meu braço e colocou numa máquina, que mexe e separa o plasma do teu sangue, antes de o misturar numa loção para o meu rosto". Cremes hidratantes? Com sangue? "Alguns dos benefícios incluem redução dos poros e surtos de acne", explicou a dermatologista Barbara Sturm à Teen Vogue. "O creme atua no acne ativo e ajuda a minimizar o risco de surtos futuros. Também o recomendo a clientes com psoríase". 

Inspirado no Kobe Procedure, um método desenvolvido por Sturm e uma equipa de investigadores em 2000, que consiste num procedimento que utiliza as células presentes no sangue do próprio paciente para ajudar a reduzir a inflamação e a estimular o processo de recuperação, o creme MC1 da dermatologista também é um favorito da modelo Elsa Hosk. 

"Foi durante a Semana de Moda de Paris. Lembro-me de pensar, 'O que é que queres dizer isso? Vais tirar o meu sangue e pô-lo num creme?'. Os resultados foram imediatos. Estava completamente exausta, lembro-me que estávamos na reta final das Semanas de Moda e a minha pele estava com um aspeto pouco saudável, com um tom meio acinzentado. Pensei, 'Preciso de ajuda'. Usei o creme com sangue durante a noite e acordei com uma pele renovada. É uma loucura pensar que o teu sangue pode curar a tua pele desta forma", contou a modelo à revista Elle. 

 
 
 
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Quando o tema é tratamentos de pele e tudo o que podemos aplicar nela, a lista de "loucuras" não acaba aqui. Lena Dunham é fã da terapia cupping, um tratamento ancestral que promete melhorar condições de pele como a acne ou o eczema, bem como aliviar a tensão muscular, reduzir a inflamação e melhorar a circulação. Demi Moore e Miranda Kerr recorrem à hirudoterapia, um método que usa sanguessugas e a saliva dos mesmos para aliviar uma série de condições de pele, ou melhorar e estimular a circulação. Harry Styles é um dos nomes associados ao placenta facial, um tratamento da dermatologista Louise Deschamps que usa as células estaminais presentes na placenta das ovelhas para desintoxicar e proteger a pele contra os efeitos dos radicais livres. 

"Sou sempre a cobaia que experimenta tudo", confessou Gwyneth Paltrow ao The New York Times. "Tenho que experimentar tudo. Sou fã de acupuntura. Ouvi falar de um serviço que se chama sound bath, que talvez seja um pouco hippie demais, até para mim. É um novo método curativo. Talvez não seja para mim mas, no geral, estou disposta a tudo. Já fui picada por abelhas. É um tratamento muito antigo chamado apiterapia, usado para diminuir a inflamação e as cicatrizes. Se pesquisares mais sobre ele, vais perceber que é incrível. Mas, não vou mentir, é muito doloroso. Ainda não experimentei a crioterapia, mas é algo que quero tentar", explicou a atriz. 

Dos prepúcios de bebés às picadas de abelhas, sem esquecer os sanguessugas e as placentas, a indústria parece estar cada vez mais perto de um episódio de Black Mirror - e as inovações palpáveis levantam tantas questões como os avanços fictícios. Em setembro deste ano, segundo um artigo publicado pela Dazed, um spa no Novo México foi fechado para investigação depois de uma cliente ter, potencialmente, contraído o vírus HIV no seguimento de uma vampire facial. Um estudo de 2015 concluiu que a apiterapia pode causar uma série de reações adversas, como alergias ao veneno das abelhas, inflamações e infeções. O mesmo se aplica à hirudoterapia que, quando conduzida incorretamente, pode levar a cicatrizes permanentes, infeções, e perda de sangue considerável. 

"Existe um pequeno conjunto de estudos que defendem que os produtos cosméticos com placenta deixam a pele mais firme e hidratada, mas também existem provas de que o estrogénio presente na placenta pode causar problemas" explicou o dermatologista nova-iorquino David Bank à revista Allure. "Existe um número de produtos anti-idade igualmente eficazes que não contêm extratos de placenta nas suas fórmulas". Por mais tentadores que estes tratamentos possam parecer à primeira vista, o melhor conselho parece ser este: deixar os prepúcios, as placentas e o sangue onde eles pertencem, e optar por cuidados de rosto que se vendem em qualquer supermercado, farmácia ou perfumaria perto de si.  

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