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Tendências 23. 4. 2020

Transparência, a tendência da primavera/verão de 2020

by Ana Murcho

 

Numa altura em que somos aconselhados a ficar em casa, é interessante constatar que uma das tendências mais fortes da estação convida a despir, a mostrar, a revelar. Seja através de transparências, de decotes, de rendas ou de materiais translúcidos, esta primavera pede um novo sexy. Que é, acima de tudo, sinónimo de uma liberdade, e de um empoderamento, há muito desejados.

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Um dos retratos mais icónicos da atriz italiana Sophia Loren, com uma camisa de noite que deixa (quase) tudo a nu, circa 1955. © Getty Images 

"O que aconteceria se uma das minhas raparigas tentasse ser sexy?" A pergunta foi lançada por Alessandro Michele, exímio em transformar mulheres emancipadas em versões modernas de avozinhas cool, após o desfile primavera/verão 2020 da Gucci, em setembro passado. Era uma espécie de provocação, e surgia após aquilo que muitos rotularam como um "acordar de quatro anos de dormência." Afinal, nos últimos tempos, a casa italiana tinha-nos habituado a um certo restraint, que ficava a anos-luz da sexualidade explícita de Tom Ford (diretor criativo entre 1990 e 2004) e da sensualidade bling-chic de Frida Giannini (que comandou a maison de 2006 a 2014). Mas não desta vez. Dúvidas houvesse, e o look que inaugurou o seu leque de propostas para a estação quente foi um macacão preto em cetim com a parte de cima feita de tule – tule transparente, entenda-se.

Se a peça, em si, já parecia uma afronta – pelo menos aos mais acérrimos defensores do chaos magic – os acessórios que completavam este inesperado combo (sandálias de tacão vertiginoso, meias vermelhas de rede, gargantilha de veludo com o que parecia ser um escaravelho colado) anunciaram o que já suspeitávamos. Esta é a forma do italiano gritar, alto e bom som, "a sensualidade está de volta." Não o disse assim, claro, mas justificou o volte-face como uma forma de se reinventar. "A Moda tem uma função: fazer com que as pessoas possam caminhar por um campo de possibilidades... sacralizando todas as formas de diversidade e alimentando as habilidades indispensáveis de autodeterminação." Que é como quem diz, o meu corpo é o meu templo e visto o que bem me apetecer.

"Tenho sempre de experimentar algo novo." Alessandro Michele

 Vestido em chiffon de seda com plumas, Yves Saint Laurent, Paris, 1968. © Getty Images

É por isso que, para esta temporada, a Gucci propõe uma série de elementos até agora ausentes da era Michele: decotes profundos, saias que parecem véus, rachas pronunciadas, mini-corpetes em renda, slip dresses realizados no que parece ser um mix de látex e renda, fatos em chiffon (chiffon transparente, lá está)... tudo a anos luz do look pensionista reformada a que nos habituou nestes cinco anos ao leme na maison italiana. "Tenho receio de me aborrecer", afirmou numa entrevista concedida após o desfile. "Tenho sempre de experimentar algo novo." E esse algo novo é, passe a redundância, um novo sexy, que vai em linha de conta com os tempos.

Numa era pós #MeToo, em que as mulheres recuperam o direito à escolha (dizer "não" é, mais do que nunca, tão importante e valioso como dizer "sim", e isso vale para qualquer área das nossas vidas) é importante não esquecer o poder disso a que os ingleses chamam de sexiness. "O maior choque foi [o facto de] Michele ter adotado a sensualidade. Ele tem preferido as distorções e as peculiaridades, mas não hoje", escrevia a jornalista Nicole Phelps no site da Vogue Runway, relembrando as referências à cena S&M, à herança equestre da casa, e a opção por elementos como o vinil, a renda e as rachas. Até as carteiras, como a Gucci Horsebit, que vê estampada a frase "Gucci Orgasmique", corroboram este novo mood

Kate Moss na festa do concurso Look of the Year, em Londres, 1993. Jane Gainsbourg, acompanhada pelo marido, Serge Gainsbourg na estreia do filme Slogan, Paris, 1969. © Getty Images

Mas será que Michele está sozinho nesta nova forma de fazer roupa sexy? A resposta é apenas uma: não. Das cinzas dos últimos três/quatro anos ressurge uma mulher forte, que não tem vergonha em assumir (e mostrar) o seu corpo e que se sente bem ao fazê-lo – não pelos outros, mas por si. Depois de uma série de batalhas, da igualdade de géneros, à igualdade de tamanhos, raças, idades e orientações sexuais, chegou a altura de nos despirmos de preconceitos.

Isso vê-se, por exemplo, no papel que a roupa interior agora ocupa nos nossos armários. A lingerie, que até há pouco tempo servia apenas para usar escondida, resguardada, tem agora lugar de destaque nos looks mais importantes da estação – os sutiãs foram protagonistas nos desfiles da Dior, da Givenchy, da Lanvin, de Rejina Pyo, de Alexander Wang. É um novo power dressing. É uma declaração de independência. É uma nova forma de conquistar a tão desejada autodeterminação feminina – sim, através do sex appeal.

Exemplos? Veja-se Gwyneth Paltrow nos últimos Golden Globes: aquele vestido de tule era uma ilusão de ótica que ocultava a sua roupa interior, o seu corpo tonificado e as suas joias de milhões de dólares; ou Zendaya, nos Emmy, num corset verde em renda Vera Wang, a provar que já não é uma menina da Disney; ou então Lily-Rose Depp, cuidadosamente destapada por Chanel, nos últimos BAFTA. Obra do acaso? Nada disso. Aliás, está cientificamente provado que todas estas escolhas de guarda-roupa fazem parte de um "movimento".

Gwyneth Paltrow, em Fendi, no palco dos Golden Globe Awards, em janeiro passado. A atriz americana Zendaya à chegada da 71a edição dos Emmy Awards, em Los Angeles, 2019. Lily-Rose Depp na passadeira vermelha dos BAFTA, os prémios do cinema inglês, que decorreram na capital londrina em fevereiro. © Getty Images

Basta consultar o motor de busca Tagwalk (uma espécie de Google da Moda) para perceber que assim é. Tudo o que esteja intimamente ligado a sensualidade ocupa os lugares cimeiros das centenas de "Global Fashion Week Trends" estudadas por aquele site: cut outs (numa tradução direta, aberturas), quarto lugar; nudity (nudez), nono lugar; corset (corpetes), décimo primeiro lugar; bra (sutiã), décimo sétimo lugar. E não, nada disto tem a ver com sexo. É tempo de valorizar o artesanal (daí as rendas e os bordados), os tules e as crinolinas, as sedas e as organzas, as peles e os algodões orgânicos. Transformados em bustiers, em bodies, em saias lápis, em calçõezinhos XS (ou XL), em tudo o que justifique uma certa postura, e atitude, por parte de quem os usa.

É espreitar as coleções primavera/verão, e escolher: os hot pants de Tom Ford, os bodycon dresses de Thierry Mugler, as transparências de Loewe (e de Molly Goddard, e de Simone Rocha, e de Nina Ricci, e de Helmut Lang, e de Dolce & Gabbana) as rachas vertiginosas de JW Anderson e de Off-White, a lingerie com conotações dominarix de Olivier Theyskens... Já vimos isto antes? É possível. Mas agora vemo-lo de uma posição diferente. Continuamos a ter sensibilidade e bom senso. Só que agora temos um poder que anteriormente não tínhamos. É por isso que tudo isto é tão refrescante. E tão libertador. E tão sexy.

Gucci, J.W. Anderson, Valentino e Preen © ImaxTree

Artigo originalmente publicado na edição de abril de 2020 da Vogue Portugal.

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