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Palavra da Vogue 23. 4. 2020

#BookClub by Lighthouse Publishing

by Rui Matos

 

“Uma sala sem livros é como um corpo sem alma.” Marcus Tullius Cícero.

Fotografia de Frederico Martins. Realização de Nelly Gonçalves.

Livro. Um objeto poderoso. Um veículo fundamental na disseminação e preservação do conhecimento. Um contador de histórias. Um amigo. Por mais tecnologia que possa existir, nunca a vamos preferir em detrimento do toque e do cheiro característico que os livros nos podem oferecer. 

Há quem diga que os livros são como as pessoas: conheces muitas, mas só te apaixonas por muito poucas. E hoje, 23 de abril, Dia Mundial do Livro, a Lighthouse Publishing (que em Portugal publica a Vogue e a GQ), escolheu os livros que de alguma maneira nos marcaram. 

Ana Murcho, chefe de redação, Vogue Portugal 

A ideia por detrás dos “livros da nossa vida” pressupõe, de certa forma, que a nossa vida poderá estar completa, finita, e isso é assustador. Mesmo sendo um desafio interessante, que ilumina os olhos de qualquer jornalista que se preze (e que, por ossos do ofício e questões inexplicáveis de ADN, nasceu dependente das palavras), é um desafio que acarreta uma certa maldade. Porque os “livros da nossa vida” são uma lista em constante mudança, que cresce e flutua como as marés. Alguns permanecem imutáveis, outros desvanecem com o tempo, outros surgem de rompante como se tivessem estado sempre lá — e, de certa forma, estiveram. Feito o parêntesis, e sem nenhuma ordem especial, eis as obras que a que continuo a voltar, uma e outra vez. Livro do Desassossego, de Bernardo Soares, semi-heterónimo de Fernando Pessoa. É um compêndio sobre ser-se humano, uma enciclopédia sobre os sentimentos, as emoções, o desgaste de estar vivo. Não é um livro para se ler de uma ponta a outra, é um conjunto de fragmentos para saborear, com calma, ao longo da existência. Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski. A culpa premeia grande parte da nossa experiência enquanto homens e mulheres. Não é fácil decifrá-la. Não é fácil aceitarmos os nossos erros. Não é fácil perdoarmo-nos. A história de Raskólnikov, o estudante que comete um assassínio acreditando estar acima da lei moral, pode ser um ponto de partida. The Great Gatsby, de F. Scott Fitzgerald. O romance mais triste. O anti-herói mais inesperado. O final mais violento. “So we beat on, boats against the current, borne back ceaselessly into the past.” Fim. The Picture of Dorian Gray, de Oscar Wilde. De uma agressividade maravilhosa, de tão real. Wilde, pioneiro no uso da ironia refinada e na acutilância atroz, obriga-nos a enfrentar o espelho — despidos. É o retrato perfeito da vaidade que temos dentro de (todos) nós. Até onde somos capazes de ir em nome dessa vaidade? A resposta está aqui. O Ano da Morte de Ricardo Reis, de José Saramago. Devia ter uns 15 anos quando peguei neste livro, que oferece um final alternativo à vida, também ela alternativa, porque imaginada, de Ricardo Reis, um dos heterónimos de Fernando Pessoa: é ele o protagonista desta história, tão improvável quanto macambúzia, de um homem que viveu por entre as sombras. No seu regresso a Lisboa, após mais de uma década de ausência, encontra uma cidade triste, sombria — e que é, ela própria, sinónimo de um país cinzento e de um futuro, saberíamos depois, negro. É aqui, nesta capital sem rumo, que se dá o encontro mais esperado. O encontro entre criatura (Ricardo Reis) e criador (Fernando Pessoa), originando um diálogo que entra para a lista dos melhores diálogos de todos os tempos, e que destrói qualquer dúvida — porque as há — de que Saramago era um mestre a esmiuçar as diferenças, tão subtis, mas tão complexas, entre a vida e a morte: “Se um morto se inquieta tanto, a morte não é sossego, Não há sossego no mundo, nem para os mortos nem para os vivos, Então onde está a diferença entre uns e outros, A diferença é uma só, os vivos ainda têm tempo, mas o mesmo tempo lho vai acabando, para dizerem a palavra, para fazerem o gesto, Que gesto, que palavra, Não sei, morre-se de não a ter dito, morre-se de não o ter feito, é disso que se morre (…)" Nos tempos que correm, é preciso que nós, que "ainda temos tempo", possamos estar dispostos a ler coisas destas

Joana Moreira, editora de Beleza, Vogue Portugal 

1984: Muito já foi dito sobre este livro pelo que me limito a dizer que não o tivesse lido na idade certa e hoje talvez não fosse jornalista. É uma prova da urgência da humanidade por espírito crítico. O Monte dos Vendavais: Hoje é difícil alguém lhe pegar sem noções pré-concebidas das muitíssimas adaptações televisivas e cinematográficas. Mais do que uma história de amor, explora a fundo a dicotomia amor-ódio, e evoca temas como a crítica social, feminismo e até racismo. Um livro intenso, negro, gótico, e cujas temáticas impressionam ainda mais pela data de publicação: 1847. Jóquei: Como encantar uma desencantada pela poesia contemporânea? Com este livro, Matilde Campilho trocou-me as voltas e mostrou-me que a poesia não tem só uma forma. A vegetariana: À primeira vista é a história de uma mulher que surpreende a família ao tornar-se vegetariana. Mas é muito mais do que isso. É um livro perturbador, que desperta paixões ou ódios, e que, para mim, trouxe a consciência do que, por força do hábito, nos esquecemos: nem só a Europa ou América se produzem grandes obras. No Sul da Coreia há pérolas da literatura contemporânea, como esta. A gorda: É um murro no estômago. Não é uma obra sobre gordura, nem sobre dietas, nem uma história de “superação” com menos quilos na balança. É um livro sobre uma característica física, sobre a discriminação e, acima de tudo, sobre a vida.

Mónica Bozinoski, jornalista, Vogue Portugal  

Tirando os clássicos de infância (O Principezinho, de Antoine de Saint-Exupéry, permanece um favorito) e a atual leitura de Three Women, de Lisa Taddeo, estas cinco obras foram aquelas que, em momentos muito distintos de uma relativamente curta existência, foram capazes de fazer o coração parar, bater rápido demais, e parar outra vez. Levei um dos meus primeiros grandes murros no estômago com Na Tua Face, um dos últimos romances de Vergílio Ferreira.Perdi-me e encontrei-me comA Insustentável Leveza do Ser, um presente de Milan Kunderaembrulhado naquilo que faz de nós humanosPassei longas tardes, num pequeno café em Coimbra, agarrada a In Cold Blood. Sempre que os meus olhos se cruzam com esta obra de Truman Capote, sinto os mesmos arrepios que senti quando a li pela primeira vez. Percebi o verdadeiro significado de “não existem perguntas estúpidas, e muito menos perguntas inúteis” com What The Dog Saw, uma agradável e surpreendente coleção dos melhores artigos de Malcolm Gladwell para a revista The New Yorker. Mergulhei nos tumultuosos bastidores de She Said, um poderoso retelling da investigação de Jodi Kantor e Megan Twohey sobre os crimes cometidos por Harvey Weinstein - e não voltei a mesma. 

Rui Matos, jornalista online 

Afirmar que estes são os meus livros favoritos é um grande compromisso (e não estou certo de o querer assumir), mas, com toda a certeza, estas foram as cinco obras que me marcaram - talvez para o ano uma ou outra sugestão vá mudar. Lolita de Vladimir Nabokov. À luz dos dias de hoje, e depois de todos os movimentos que se insurgiram, esta história pode não nos dizer nada, mas quando a li pela primeira vez pareceu-me a história de amor mais convincente que alguma vez contada. “A solidão como situação pode ser corrigida, mas como um estado de espírito é um doença incurável.” Nabokov. To The Lighthouse de Virginia Woolf. Estava na faculdade quando comecei a ler as obras de Woolf (e à parte de A Room of One’s Own e The Waves) To The Lighthouse marcou-me pela riqueza nos simbolismos, pelo tom que é escrito e por expor as ideias sobre a vida, a arte e as relações humanas da autora. Just Kids de Patti Smith. Nova Iorque sempre me fascinou - e continua a fascinar - e ao mesmo tempo que conhecemos a história entre Smith e Mapplethorpe, temos um retrato do final dos anos 60 da cidade que não dorme. Uma história de amor. Mesmo sem um final feliz. Call Me By Your Name de André Aciman. Não me lembro da última vez que um livro me tocou tanto, como este o fez. O tempo. As personagens. A história. Os diálogos. E aquele monólogo final do pai de Elio. “Quem mais poderei eu chamar pelo meu nome?” Aciman. My Thoughts Exactly, de Lily Allen. Este é uma espécie de memoir. A história de uma artista desta nova geração contada na primeira pessoa, sem qualquer tipo de pudor em expor o pior. Para todos aqueles que gostam de pop culture, este livro é um must-read.

Diego Armés, chefe de redação, GQ Portugal

A Sul de Nenhum Norte, de Charles Bukowski,  foi a minha iniciação a Bukowski e continua a ser o meu preferido do autor, a par de A Mulher Mais Bonita da Cidade. É uma incursão ácida pelas franjas escangalhadas do mítico sonho americano, com álcool, mulheres, corridas de cavalos, ressacas e pessoas avariadas, mas quase sempre genuínas. Viver deYu Hua.  A incrível e pujante epopeia de um camponês na China rural, desde a Segunda Guerra Mundial até à ascensão ao poder de Mao Tsé Tung e até ao período da Revolução Cultural. A brutalidade dos episódios contrasta maravilhosamente com a serenidade do narrador, que é o protagonista. Ficções deJorge Luís Borges.  Obra-prima absoluta, este livro de contos vai além da sua condição literária: é uma demonstração esmagadora da inteligência, da sabedoria e da imaginação do seu autor. Não será exagerado dizer que A Biblioteca de Babel é dos contos mais formidáveis alguma vez escritos. O Colosso de Maroussi deHenry Miller. Livro sui generis na obra de Miller, o Colosso é um, em simultâneo, um livro de viagem e um diário de um homem à descoberta – de si mesmo, da sua identidade, do próprio significado de identidade, da Grécia e da história da Grécia. Acresce que os episódios descritos no livro acontecem enquanto rebenta a Segunda Grande Guerra. Cavalo Pálido, Pálido Cavaleiro de Katherine Anne Porter. Dizem que é um livro de contos, mas a própria autora discordava dessa definição: foi um livro de romances curtos aquilo que escreveu. Nas três histórias, carregadas de tensão como se anunciassem tragédias (e às vezes anunciam), o registo literário de Porter impõe-se de um modo quase hipnótico.

Paula Bento, assistente de redação

A leitura faz parte da minha vida desde muito nova, incutida pela minha mãe que tinha por hábito oferecer-me livros, em qualquer ocasião. Vou mencionar três livros que foram de certa forma, uma referência para mim, em três etapas importantes da minha vida. The Go-Between (O mensageiro) de L.P.Hartley. Foi o primeiro livro que li em inglês, no meu percurso académico. Este livro retrata um amor proibido entre uma aristocrata e um fazendeiro, em que há um miúdo, amigo de ambos e  que transforma-se em cúmplice desse amor, fazendo de mensageiro de cartas entre os dois amantes. O Velho que lia romances de amor de Luís Sepúlveda. Por ter lido vários livros deste autor e pela sua morte recente, este livro foi o que mais me marcou e que nos leva a pensar que a vida é para ser vivida de maneira intensa. Equador de Miguel Sousa Tavares. Foi o livro que li com mais páginas (acima de 500 páginas) após ser mãe e que de certa forma, tanto eu como a personagem estávamos a iniciar uma nova etapa das nossas vidas, de uma forma radical. 

Sara Andrade, diretora de novos projetos

O Mundo de Sofia foi o primeiro livro que devorei em pouco tempo e o que me fez apaixonar por filosofia e querer saber mais sobre essa área, por isso, depois também comecei a perseguir publicações relacionadas com isso. Gosto de livros que fazem pensar e estabelecer paralelismos e Huxley faz isso muito bem em Admirável Mundo Novo. Num outro espectro, gosto de ler biografias e livros com testemunhos, como são o do Bourdain (Cozinha Confidencial) e da Farquharson (Dormir Nu é ecológico). Acrescentam valor a ideias do quotidiano e aprendes sempre coisas que não só te trazem novos insights sobre áreas diferentes da tua como são ótimos desbloqueadores de conversa.

Mathilde Misciagna, jornalista online

O primeiro livro que me marcou foi o Alquimista de Paulo Coelho. Um livro que nos recorda a importância de seguir os nossos sonhos. Aquilo que começa como sendo uma travessia pelo deserto em busca de um tesouro, transforma-se numa viagem de descoberta e de lições. Um livro simples, mas com uma mensagem forte, emocionante e até espiritual. Para ler várias vezes ao longo da vida. O segundo livro que me marcou foi o Not That Kind Of Girl da Lena Dunham. A partir do momento em que descobri a série genial Girls, criada e protagonizada pela própria e que foi basicamente o meu entretenimento favorito durante os anos de licenciatura, comprar o livro foi um passo óbvio. É um memoir com um poder de observação, sabedoria e humor sem igual. De forma honesta e sem vergonha ou hesitação, Lena escreveu sobre tantas das preocupações e situações que experienciamos enquanto jovens e foi fácil identificar-me com ela na altura em que li o livro. O terceiro livro que me marcou (e que reflete provavelmente uma fase pós-académica em que comecei a colocar em causa uma série de outras questões que antes não me passavam pela cabeça) foi o Becoming da Michelle Obama. Uma história profundamente pessoal e refletiva que nos desafia a construir uma vida com significado. Aprendi a identificar a temporalidade das diversas fases da nossa vida e a compreender que nada é para sempre – para o bem e para o mal. Para além disso, podemos escolher olhar para as coisas como elas são e aceitá-las, trabalhando a partir daí ou, por outro lado, podemos pensar em como é que gostávamos que as coisas fossem, a direção que queremos tomar. Na minha opinião um essencial de leitura, agora mais do que nunca. 

Ana Catarina Machado, estagiária online

Feminismo de A a Z, de Lúcia Vicente, marcou-me de uma forma bastante positiva. Sempre quis saber mais sobre a história deste movimento, o que é e o que não é o feminismo, os seus protestos e necessidades, assim como alguns dos momentos mais marcantes pelos quais as mulheres atravessaram – e que continuam a atravessar -, para lutarem e alcançarem a igualdade de direitos entre os sexos.Amantes de Buenos Aires, de Alberto S. Santos, conta a história verídica de duas mulheres apaixonadas uma pela outra, e que decidiram lutar contra tudo e contra todos, naquela que era uma época em que o casamento entre duas pessoas do mesmo sexo era profundamente proíbido. Amantes de Buenos Aires é um dos meus romances/dramas favoritos, uma vez que conta (mais uma) história de um amor condenado entre Elisa e Marcela, mas que ainda assim, conseguiu juntar cidadãos para acolher e apoiar a relação do casal.E por fim, O Politicamente Correto, de Manuel Monteiro. Este livro é, na minha opinião, uma abordagem sensacional à forma como nos respeitamos uns aos outros, à forma como nos dirigimos aos outros e como descrevemos, através da nossa educação, tudo o que nos rodeiam. Vários são os argumentos que, com algum sentido de humor, provocam a cada leitor que pegue na obra, a refletir sobre este tema, frequentemente presente na opinião pública. 

Leonor Centeno, departamento de eventos

Gostei muito de A sombra do Vento, de Carlos Ruiz Zafón, e depois de ter lido este livro tive que ler tudo o que este senhor escreveu. Do mesmo autor gostei muito de um que se chama Marina. Este autor dá uma vitalidade aos livros que parece que têm alma. Quando o terminei de ler foi como se o livro me tivesse retirado uma parte mim e me tivesse dado algo dele. Outra autora que gostei muito é a Sophie Kinsella, autora da Louca por Compras entre outros. Os livros dela são muito leves, tipo comédia romântica. O Centenário Que Fugiu pela Janela e Desapareceu é outro livro que adorei. É sobre os últimos 100 anos da história mundial, contada de uma forma muito peculiar, é uma comédia. 

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