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Palavra da Vogue 5. 8. 2020

To be continued: Independência ou Morte

by Ana Murcho

 

"Não concordo com o que dizes, mas defenderei até à morte o teu direito a dizê-lo." Diz-se que foi François-Marie Arouet, mais conhecido por Voltaire, a proferir este conhecido argumento a favor da liberdade de expressão. No entanto, há quem garanta que terá sido a escritora britânica Evelyn Beatrice Hall, que utilizava o pseudónimo de S. G. Tallentyre, a sua verdadeira autora. Agradecemos, por isso, a ambos - a verdade, ao que parece, ficará para sempre no segredo dos deuses. Dois séculos separam os hipotéticos inventores de uma das frases mais poderosas, e incontornáveis, alguma vez formuladas sobre a intolerância a independência e a autodeterminação. E, no entanto, ela revela-se mais atual do que nunca. Numa altura em que a liberdade de expressão se vê posta em causa a cada novo dia, devido à chamada cultura de cancelamento, importa lembrar que o assédio, e o medo, não deverão nunca ter o poder de por em causa a autonomia de um povo, de um país, ou de uma corrente artística.

English version here.

A teoria do eterno retorno pressupõe que "o universo e toda a existência e energia" são eternamente recorrentes e por isso "continuarão a ocorrer, de forma autossemelhante, um número infinito de vezes através do espaço ou tempo infinito" (via Wikipedia). Ou seja, a teoria pressupõe que existe um padrão cíclico para certas ocorrências. É um conceito encontrado tanto na filosofia indiana como em Nietzsche, seu grande defensor. Não sabemos se a fase que vivemos atualmente, de "pós-pandemia" e "nova normalidade", é uma prova dessa mesma teoria, mas o facto é que algo está muito errado. Lentamente, como sempre acontece com as piores revoluções, os cidadãos do século XXI arriscam-se a ser menos livres do que os seus antepassados. Será isso o tal eterno retorno a que estamos destinados?

Em 1763, Voltaire escreveu um livro chamado Tratado Sobre A Tolerância, onde se propunha expor a sua visão sobre a convivência (idealmente pacífica) entre seres humanos diferentes, impulsionado pela morte de Jean Calas [comerciante de tecidos da religião calvinista, de 63 anos, executado por, aparentemente, ter assassinado o filho que, segundo boatos, se pretendia converter ao catolicismo]. "Não é preciso uma grande arte, uma eloquência muito rebuscada, para demonstrar que os cristãos se devem tolerar mutuamente. Vou mais longe: digo-vos que é preciso encarar todos os homens como nossos irmãos. O quê! Meu irmão, o turco? Meu irmão, o chinês? O judeu? O siamês? Sim, sem hesitação: não somos todos nós filhos do mesmo pai e criaturas do mesmo Deus?" Apesar das várias incoerências que se possam apontar ao autor, e do lapso temporal que separa esse ensaio dos dias de hoje, o livro pode ser um manual de sobrevivência para todos nós, que espalhamos hashtags com facilidade, mas que, ao que parece, desaprendemos o mais importante - a noção de tolerância. "Este pequeno globo, que não é mais do que um ponto, gira no espaço como tantos outros globos. Andamos perdidos nessa imensidão. O homem, com uma altura aproximada de cinco pés, é sem dúvida coisa pouca no conjunto da criação", continuou Voltaire, numa obra que é, acima de tudo, um hino à empatia. E ao respeito.

Fast forward para 2021 e, com ou sem eterno retorno, eis-nos no centro de uma convulsão só imaginável num filme de série Z. Estamos todos mais perto uns dos outros, virtualmente, mas estamos todos de costas voltadas, de carne e osso - esquecemo-nos, algures, de usar o coração. Temos todas as terapias e formas de meditação ao nosso dispor, mas estamos permanentemente ansiosos e inquietos. Conseguimos tudo o que queremos em menos de nada, e conseguimo-lo, muitas vezes, “para ontem”, mas estamos ainda mais insatisfeitos do que quando a espera era o nosso tique-taque. Aparentemente, esta seria a melhor época de todos os tempos. Só que, em vez de usarmos as ferramentas que a evolução, e o conhecimento, nos proporcionaram, para espalharmos o bem, abusamos delas para incitar a fúria e a animosidade. Pegamos num smartphone e, de repente, somos os donos do mundo. Pegamos num smartphone e, de repente, podemos dizer, e escrever, tudo o que queremos. Pegamos num smartphone e, de repente, somos o trending topic da semana, porque conseguimos influenciar alguém com a nossa aparente “capacidade de persuasão.” Pegamos num smartphone e destruímos a reputação de um indivíduo com quem não simpatizamos, através de correntes de ódio e maldizer - com a mesma facilidade com que convocamos protestos antirracistas e manifestações pela paz. Pegamos num smartphone e cancelamos séculos de cultura, porque uma imagem não nos agrada, uma estética não nos apraz, um discurso não nos cativa. Pegamos num smartphone e, no escuro dos nossos quartos, protegidos pelos nossos ecrãs e pelas nossas identidades especificamente criadas para esta ou aquela rede social, julgamos ser Deus. Porque somos livres. Mas, ao mínimo deslize, atiramos essa liberdade para debaixo do tapete onde durante anos se lutou por ela. Esquecemo-nos que é precisamente essa liberdade que nos permite ser tão pouco exigentes, e cuidadosos, como o que fazemos, com o que dizemos, com o que escrevemos. No seu Dicionário Filosófico, publicado em 1764, Voltaire afirmava: “Qu'est-ce que la tolérance? C'est l'apanage de l'humanité. Nous sommes tous pétris de faiblesses et d'erreurs; pardonnons-nous réciproquement nos sottises, c'est la première loi de la nature." Que quer isto dizer? Queridos humanos, meus irmãos, o Google tem a resposta para isto. Lá encontrarão ainda mais exemplos de como é fácil darmos a mão. É isso: é independência, ou morte.

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