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Tendências 5. 11. 2021

As tatuagens, afinal, são mais culturais do que contracultura?

by Sara Andrade

 

“Angola ’74” ou “Amor de mãe”. As tatuagens ganharam má reputação e não foi (só) pelo mau gosto de alguns na escolha do design. Foi pelas nossas condicionantes sociais, pelo seu cariz underground, porque não se encaixavam nas normas. Mas quando nos despimos dos preconceitos, percebemos que a Beleza não é só pele nua: também é tatuada.

IMAGEM DO EDITORIAL ADDICTED TO VOGUE, DE OUTUBRO 2019, COM FOTOGRAFIA DE JAMIE NELSON, MAQUILHAGEM DE MICHAEL ANTHONY E STYLING DE KAREN LEVITT

E tem também uma história vinculada ao sexo feminino. Apesar da mais antiga múmia descoberta com tatuagens ser um homem (Ötzi, the Iceman, foi encontrado no gelo dos Alpes, em 1991, e data de há cerca de 5.300 anos), as seguintes descobertas mais antigas pós-Homem do Gelo foram de múmias egípcias com mais de três mil anos, todas elas mulheres. O que é que salta à vista? Primeiro, que isto de falar dos movimentos underground que começaram no sécúlo XX parece conversa de meninos quando comparado com a história das tatuagens, uma com registos milenares – sabia que há utensílios em bronze identificados como ferramentas para tatuar, datados de 1450 a.C.? Mas seria errado, também, catalogá-la como underground desde a sua origem, porque a prática de tatuar o corpo era, não só normal, como terapêutica. A corroboração das tatuagens em mulheres no Antigo Egito chega, desde logo, não só nas representações e ilustrações da época (que mostravam a figura feminina com desenhos nas nádegas), mas também na descoberta de múmias, não só egípcias mas também greco-romanas, que exibiam este tipo de arte corporal. Porque parecia ser uma prática exclusivamente feminina na Antiguidade, muitas múmias descobertas com tatuagens eram desprezadas pelos arqueólogos de cromossoma Y (se a tatuagem era contracultura, uma mulher com tatuagens ainda mais), uma vez que eram identificadas como personalidades de estatuto duvidoso, uma aceção que não podia estar mais longe da verdade: estas mulheres mumificadas teriam sido enterradas, elucidava Joann Fletcher, investigadora da Universidade de York, Reino Unido, em entrevista à Smithsonian magazine, em 2007, numa área associada a funerais de elite e da realeza e sabe-se que, pelo menos, uma delas foi identificada como sendo Amunet, uma sacerdotisa hierarquicamente bem-posicionada. Algumas crenças apontavam a localização destas marcas como identificadoras de prostituição, mas o tempo veio determinar um novo argumento: estas tatuagens tinham um papel medicinal e funcionavam, por exemplo, como um poderoso amuleto durante a gravidez e o parto. A teoria é suportada pela distribuição de padrões em torno do abdomen, no topo das nádegas e peito, e pelo tipo de desenho: a distribuição de pontos que depois expandiriam com o crescimento da barriga lembram os fios de contas descobertos em múmias cujo propósito era de proteção e salvaguarda; e, ainda, a ilustração de divindades como Bes (protetor da casa, das mulheres, da maternidade) no topo das nádegas. A investigadora acrescentava que as tatuagens, ainda que sem confirmação, deveriam ser feitas pelas mulheres mais velhas às mais jovens, num ritual que parece ter sido, na época e neste contexto, prática exclusivamente feminina. O lado terapêutico ganha também corroboração em Ötzi, que exibia linhas tatuadas na coluna e articulações dos joelhos e tornozelo, pontos-chave para acupunctura, e cujos raios-X posteriores denunciavam que o homem sofria, de facto, de artrite. Mas as tatuagens, e isto não deverá surgir como surpreendente, funcionaram e funcionam também, em muitos povos, como sinal de identidade, de pertença, de status – mesmo no Egito, tempos depois, os lideres masculinos da vizinha Líbia eram representados com tatuagens; na Grécia, o escritor Heródoto confirmava a existência da prática das tatuagens, apontando-as como “uma marca de nobreza e, não as ter, é um testemunho de berço de pouco valor”; e há registos de bretões cujas tatuagens eram uma forma de mostrar a importância do seu estatuto. Há provas que sugerem, ainda, que os Maias, os Incas e os Aztecas usavam a prática de tatuar em rituais; e que os nórdicos colocavam os brasões de família, de forma permanente, nos seus corpos.

Claro que a Humanidade gosta de perverter o curso da História e nada decorre de forma linear ao longo do tempo. O passar dos séculos – e das práticas e da evolução das sociedades – trouxe um novo olhar social à tatuagem, começando pelo facto dos Romanos e Gregos a usarem como forma de “marcar” escravos e criminosos, numa espécie de castigo (os japoneses tinham prática similar) – mesmo que, contemporaneamente à altura, governantes e soldados romanos as usassem com orgulho. O estigma, por isso, não colou de forma veemente… pelo menos, até à chegada do Cristianismo, que via na tatuagem uma forma de “desfigurar aquilo que foi feito à imagem de Deus”. As tatuagens foram, por isso, banidas pelo Imperador Constantino. A partir daí, a prática que se identificava como cultural passou a subcultura, criando raízes para um preconceito que ainda hoje, mais ou menos dependendo de onde se mover, persiste.  “Eu acho que há todo um contexto histórico para uma análise desse género”, começa Nicole Lourinho, tattoo artist na Arca Tattoo Parlour, em Lisboa, quando falamos na dissipação do estigma nos tempos que correm. “Até porque estamos a analisar aquilo que é a história recente e que liga as tatuagens ao meio mais marginal, no Ocidente. Mas o panorama das tatuagens é milenar. E pressupõe-se que, nessa altura, se prendiam com contextos hierárquicos, situações de rituais, achievements dentro das tribos, etc; a partir do momento em que se dá a expansão da Europa para o resto do Mundo, tomamos conhecimento desse tipo de práticas (desses encontros resultava a recolha de pormenores em diários com ilustrações, que chegaram até nós). O que acontece depois é o que acontece, por norma, na história das conquistas: as práticas dos povos subjugados acabam por ser abafadas pela cultura dominante, neste caso, a ocidental ou europeia. Isso significa que, apesar de persistirem no tempo noutros locais, era algo visto na Europa como contracultura, porque fazia parte das tribos colonizadas e não das regras sociais do Velho Continente. Aliás, há ainda tatuagens a serem feitas com as técnicas usadas na altura, que são centenárias. Com ossos, espinhas de peixe, por exemplo. Na história mais recente, isso tem mais a ver com os grupos a que ficaram associados. Há uma generalização daqueles que usavam a tattoo que acaba por chegar aos nossos dias. E apesar de nos estarmos a afastar mais desse estereótipo, não significa que não continue a acontecer.” Não precisamos de um sociólogo para saber que estas condicionantes que persistiram durante séculos nos são incutidas de tal forma que nem se assumem como opcionais, mas antes são tatuagens de discriminação no nosso ADN social (trocadilho propositado). É, talvez por isso, que tendemos a ver a tatuagem – esse processo permanente (com possibilidade quase nula de remoção) feito na pele humana através da introdução subcutânea de pigmentos por meio de agulhas – como uma prática underground e não como normalizada socialmente, uma visão depois sublinhada pelos movimentos de contracultura que surgiram e que lhe eram alheios, mas que a adotaram. A verdade é que as correntes de contestação, quando surgem, têm também tendência para irem buscar práticas de outros povos que vão contra a norma da sociedade, por isso é normal que, numa sociedade ocidentalizada que não adota as práticas das colónias, sejam exatamente essas que os grupos da subcultura vão buscar. É claro que o panorama, nomeadamente nas sociedades mais desenvolvidas e com o advento da disseminação de informação, tem mudado, ainda que essa mudança seja morosa e ainda tenha algum caminho pela frente: “o estigma tem mudado, mas não é nada que tenha acontecido de um dia para o outro”, ressalva Lourinho. “A tatuagem foi aparecendo, progressivamente, de forma mais democratizada, nos media, em nomes consagrados como jogadores de futebol e atores que são tatuados, mas também em reality shows, nas redes sociais… há como que uma normalização. O que não invalida que haja quem tenha opiniões diferentes e infundadas, como em todas as situações de discriminação. Até porque é algo que chama a atenção e consegue ser fora do normal, em determinados contextos: uma pessoa totalmente tatuada ainda angaria muitos olhares, por exemplo. Mas menos do que seria há uns anos atrás. O modo como me sinto uma minoria na praia muda completamente quando estou na Arca [Tattoo Parlour].” Aliás, um estudo de 2017 levado a cabo pela University of Northern Iowa, escreve a BBC num artigo, em 2020, sobre as tatuagens no local de trabalho, revelou que, em dois grupos de faixas etárias distintas (19 anos versus 42), ambos rotularam as pessoas com tatuagens como menos favoráveis em termos de honestidade, sucesso, confiança e inteligência (o que é surpreendente, porque seria de esperar que as camadas mais jovens, mais abertas e informadas – e tatuadas – revelassem diferente percepção). A única exceção foi nas mulheres tatuadas, percebidas como “fortes e independentes”, diz o artigo.

Nicole Lourinho deverá ser uma delas. “Veste a camisola” um pouco por todo corpo, exibe as tatuagens nas pernas e nos braços – e também sente a discriminação na pele. Mas percebe que tem menos olhares hoje do que teria há 100, 50 ou até dez anos. E também entende que, muitas vezes, como em tudo, passa pela falta de informação e pelos nossos próprios preconceitos sociais, fruto do nosso ambiente e aprendizagens. Saber um pouco mais sobre tatuagem é saber que ter tatuagens é usar uma pequena fortuna no corpo, porque não é uma prática barata – pelo menos, não se for feita com profissionais fidedignos. “Uma tatuagem começa sempre com um valor mínimo que se prende com a abertura de material para uma tatuagem – a máquina, as tintas, as luvas, o material de higiene –, independentemente do tamanho “, elucida. “Não posso adiantar valores porque diferentes lojas praticam diferentes preços, mas começa, por norma, nas várias dezenas de euros e pode ascender às centenas e, até, aos milhares, dependendo do tamanho, do desenho, do número de sessões, etc. Até porque tem muitas variantes: se é um trabalho custom, os detalhes, o tempo necessário… como uma obra de arte. Mesmo porque há pessoas que procuram o estilo de um tatuador específico (cada tatuador acaba por trabalhar a sua própria linha)  e isso também é valorizado”. Mas não é (só) porque se paga o talento que se paga caro: há uma série de custos que uma loja de tatuagens tem, para garantir não só o conforto do cliente e do tatuador, mas também a segurança e a saúde: “nós, na Arca [Tattoo Parlour], esterilizamos todo o material que é reutilizado, e tudo o que não é esterilizado é porque é descartável. Sempre foi assim e não é medida pós-Covid”, esclarece a tatuadora. “É um dos chavões das boas práticas, que ficas a saber logo quando estás na fase do aprendizado: não arriscar com a saúde das pessoas. As tattoo shops fidedignas, as que conheço, sempre colocaram em primeiro lugar a segurança, saúde e higiene das pessoas e do local. Também me parece que é senso comum, algumas destas regras, claro. Parece-me básico saber que não há e não pode haver partilha de material. Foi injusto durante a Covid-19 sermos impedidos de exercer quando as nossas práticas sempre foram mais além do que as restrições de segurança impostas pós-início da pandemia. Já cumpríamos tudo isso – e ainda mais.” Outro cuidado na tatuagem prende-se com a morfologia da pele e o respeito pelos demais profissionais, nomeadamente, os da saúde. Por exemplo, “uma das coisas que um bom tatuador tem em atenção é tatuar em redor e nunca por cima de sinais, porque podem necessitar de ser monitorizados. Os meus desenhos são colocados de forma a que continuem visíveis, para não interferir com trabalho médico posterior. Temos também aqui outras questões às quais prestamos atenção que se prendem com a faculdade das pessoas – não tatuamos quem aparece embriagado, menores de idade, etc.“

Até no modo como é abordada, é um negócio como outro qualquer em termos de profissionalização e medidas de higiene e segurança básica. Quer isto dizer que é tudo de qualidade? Não, como em qualquer ramo, há os melhores e os piores: “escolher um bom tatuador passa por fazer trabalho de casa – estar numa loja pode ser um bom indicador, por norma é um selo de confiança”. Lourinho deixa a dica. “O melhor é ver trabalho já feito, cicatrizado, etc. É como tudo: passas por uma formação e vais evoluindo. Só que na tatuagem não há muita noção do percurso profissional, por isso, há mais dúvidas. Na escolha de um tattoo artist, o boca-a-boca ainda é a melhor forma de averiguar a qualidade. As pessoas vão sempre falar e elogiar e esse artista vai ganhando crédito. E o boca-a-boca também se aplica às lojas, claro.” O facto de haver maus profissionais dá mau nome à tattoo, mas também ratifica que é uma secção do mercado como outra de bens e serviços, porque em todo o lado há quem dê mau nome ao negócio. Mas não é por isso que é underground – o estigma vem das nossas condicionantes sociais, que os bons profissionais têm vindo a mudar. Até porque o trabalho de quem é bom tem uma montra para o mundo, em anúncios ambulantes que surgem em tudo o que é plataforma consumível, das redes sociais à televisão, e isso tem ajudado a colocá-lo no lado da aceitação mais do que da negação: “acho que a tatuagem já pode ser considerada mainstream, a partir do momento em que até tens reality shows sobre ela. Entra naquilo que a sociedade já considera mais normal” – pausa para referir que até Justin Trudeau, Primeiro-Ministro canadiano, tem uma tatuagem. “Mas vai continuar a ter uma componente underground. Porque continua a haver tattoo elevada a um nível que não é aceite”. Verdade: no mesmo estudo listado pela BBC, referia-se que, mesmo quem tem tatuagens, pode vê-las nos outros com uma conotação negativa, porque tem tendência a interiorizar o estigma e a acreditar nele. Por exemplo, em sociedades com uma forte componente de preconceito em relação a tatuagens, é possível ser-se um CEO tatuado e evitar contratar pessoas tatuadas, principalmente se trabalhar em ambientes mais corporate, como a Banca. No Japão, há a ideia de um forte vínculo das tatuagens aos yakuza, membros de gangues que exibiam desenhos como sinal de riqueza, virilidade e capacidade de suportar dor, o que tornou as tatuagens ilegais naquele país até 1948. Mas o contrário também tem acontecido: em 2019, a companhia de aviação Air New Zealand aboliu a sua regra que impedia funcionários de ter tatuagens visíveis porque isso significava que as marcas Maori tradicionais, de forte componente cultural, teriam de ser tapadas, gerando um backlash contra a empresa. Nicole defende que o importante não é ter ou não ter tatuagens, é a beleza de haver tolerância para tudo: “o engraçado é isso – haver espaço para quem tem uma tattoo no tornozelo, para quem não tem nenhuma, para quem tem só nos braços ou nas pernas e para quem está tatuado dos pés à cabeça. O que interessa é haver respeito”.

Ainda acha que as tatuagens são underground? Nesta altura, até eu começo a questionar se este artigo pertence a esta temática, porque tem mais de cultura do que de contracultura, e mais de arte do que de ativismo, se realmente pensarmos na sua génese, na sua tradição, no que realmente significa e não no significado que as sociedades pelo meio da História lhe quiseram impor. Porque tatuar o corpo não é, no seu core, um ato de rebeldia, mas sim de identidade e de amor. Pelo que se é, pela Beleza de um desenho bonito, e sim, talvez só ativista o suficiente para que no corpo se possa inscrever, mesmo em linhas abstratas, mesmo que subliminarmente: gosto de mim. Pelo menos, é isso que em teoria – e na prática – esta arte de tatuar pretende ser.

Orignalmente publicado na edição Underground da Vogue Portugal, de outubro 2021.