Beleza   Tendências  

Será a personalização a próxima grande tendência de beleza?

11 May 2026
By Esteban G. Villanueva

Sylvia fotografada por Maddalena Arcelloni, com styling de Lian Lubany, para a edição The Beauty of Imperfection da Vogue Portugal, publicada em novembro de 2020.

Após o boom da inclusão e das gamas segmentadas, serão os produtos feitos à medida de cada pele o próximo passo da indústria da beleza?

Houve uma época em que a beleza prometia universalidade. Uma base para todos os tipos de pele, um creme para todos os problemas, um perfume icónico para definir toda uma geração. Funcionou — até deixar de funcionar. Porque o consumidor de hoje não só está informado, como está profundamente atento às nuances. Compreende os subtons, os ingredientes, os pesos moleculares, a projeção, os níveis de pH. Não se limita a comprar beleza — interpreta-a. E, nessa mudança, surgiu uma questão silenciosa: se já sabemos tanto sobre nós próprios, por que continuamos a escolher entre opções pré-definidas?

A personalização, em muitos aspetos, parece ser o próximo passo natural da beleza. Não se trata apenas de uma evolução das gamas de tonalidades ou dos séruns específicos, mas de uma reformulação completa do que a beleza pode ser: menos uma questão de escolha e mais uma questão de criação. Uma transição de ser atendido para ser tido em conta — de forma individual, precisa e quase íntima.

Ao mesmo tempo, a personalização não é algo totalmente novo — depende simplesmente da forma como decidimos defini-la. Para alguns, criar uma rotina de cuidados de pele passo a passo já é uma forma de personalização. Para outros, trata-se apenas de adaptação. Combinar diferentes linhas de produtos para o cabelo consoante as necessidades sazonais, sobrepor fragrâncias para criar algo mais pessoal — estes gestos já existiam muito antes de a indústria lhes ter dado um nome.

O que mudou não foi o ato em si, mas a sua visibilidade. Nos últimos anos, a personalização tornou-se cada vez mais explícita, mais trabalhada, mais performativa. Barras de batom que prometem o "tom perfeito", marcas de nicho que oferecem gravações, variações de cor ou embalagens personalizadas — pequenos sinais de individualidade incorporados em produtos que, de outra forma, seriam padronizados.

Mas o que acontece quando a personalização vai além da aparência? Quando já não se trata do packaging, mas da composição. Não da apresentação, mas da fórmula. Dos ingredientes. Das próprias notas. Como é a personalização quando o produto é concebido não para muitos, mas para um único indivíduo?

No mundo das fragrâncias, talvez mais do que em qualquer outro, esta ideia assume um peso especial. O aroma sempre esteve intimamente ligado à identidade, mas raramente foi totalmente apropriado. Segundo Dennis de Vries, fundador e diretor criativo da Next Memory, a personalização transforma a fragrância em algo muito mais pessoal. “A personalização transforma a fragrância de um produto numa narrativa pessoal”, explica. “O aroma está profundamente ligado à memória e à identidade, por isso, quando alguém cria o seu próprio perfume, torna-se algo muito mais íntimo do que simplesmente escolher um de uma prateleira”. Através do The Bespoke Garden, a experiência de workshop da marca, a fragrância passa a ser menos uma questão de consumo e mais de reflexão — algo que não fica apenas na pele, mas revela algo que já lá está.

Essa mudança reflete uma transformação mais ampla na forma como definimos o luxo. Enquanto antes significava acesso — possuir o que os outros não podiam —, agora inclina-se para a autoria. “O luxo está a mudar, passando de possuir o que os outros têm para possuir o que mais ninguém pode”, observa de Vries. E talvez mais importante ainda, a forma como chegamos lá. Numa era marcada pela velocidade e pela saturação, a personalização oferece algo mais lento, mais deliberado. Um regresso ao processo. À tactilidade. Ao significado. “Após anos de saturação digital, criar algo à mão, através do aroma, através da emoção, dá uma sensação de equilíbrio”, afirma. “A personalização responde a ambas as necessidades: individualidade e conexão”.

Mas, enquanto a perfumaria se presta naturalmente a este tipo de abordagem emocional, os cuidados capilares abordam a personalização sob uma perspetiva diferente — uma que é quase clínica na sua precisão. Para Ricardo Vilanova, que passou mais de quinze anos a desenvolver produtos e tratamentos personalizados com base nas necessidades individuais do couro cabeludo e do cabelo, a personalização não tem a ver com luxo, mas sim com precisão. “Para oferecer cuidados capilares verdadeiramente personalizados, é necessário um compromisso real — tanto para com o cliente como para com a tecnologia subjacente”, explica. A sua abordagem tem raízes no que descreve como o ADN do cabelo: não apenas o que é visível, mas os fatores ambientais, comportamentais e biológicos que moldam o seu desempenho ao longo do tempo.

“Quando começamos a ver as coisas desta forma, tudo muda”, afirma Vilanova. O cabelo torna-se dinâmico, sensível — algo que se adapta ao clima, à composição da água e à rotina. Lisboa não é Londres, o verão não é o inverno, e não existem dois clientes em condições idênticas. É nessa complexidade que reside a oportunidade: não sobrecarregar com opções, mas sim refiná-las. Traduzir variáveis em soluções que pareçam intuitivas, até mesmo naturais.

E talvez seja aí que a personalização encontra o seu argumento mais convincente — não no excesso, mas na redução. Ao eliminar a margem de erro. Ao simplificar o que se tornou, para muitos, um panorama cada vez mais saturado e frequentemente contraditório. “A personalização, em muitos aspetos, existe para simplificar as coisas para o cliente”, observa Vilanova. “Os clientes podem saber o que querem, mas nem sempre sabem o que precisam”. O papel do especialista, então, passa a ser de interpretação — fazendo a ponte entre o desejo e a realidade, a estética e a funcionalidade.

O que se destaca em ambas as perspetivas é uma distinção subtil, mas importante: a personalização não se resume apenas ao controlo. Trata-se de orientação. Um diálogo, em vez de uma transação. Algo que Vilanova vê refletido nas relações que cria. “Cria uma ligação que vai muito além de uma transação — é algo que pode, genuinamente, perdurar por gerações”, afirma.

No entanto, apesar de todas as suas promessas, a personalização levanta uma série de questões. Será que pode ser ampliada sem perder a sua essência? Será que a intimidade pode existir numa indústria assente no volume? E, talvez o mais importante, será que os consumidores querem realmente criar — ou querem simplesmente sentir-se compreendidos?

A resposta provavelmente situa-se algures no meio. Pois, embora nem todos queiram criar o seu próprio sérum ou misturar a sua própria fragrância, existe uma expectativa crescente de que os produtos se adaptem às necessidades de cada um — de forma contextual, pessoal e inteligente.

Esteban G. Villanueva By Esteban G. Villanueva

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