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Entrevistas 10. 10. 2019

Sandra Faleiro: “Tens que ser resiliente, tens que fazer várias coisas ao mesmo tempo.”

by Rui Matos

 

Dócil nas palavras e assertiva nos pensamentos, assim é Sandra Faleiro. A Herdade, o filme de Tiago Guedes que tem corrido mundo e no qual participa, foi o ponto de partida para uma boa conversa com a atriz portuguesa.

Sandra Faleiro como Leonor em 'A Herdade''

Depois de mais de 200 mil espectadores terem rumado às salas de cinema para verem Variações de João Maia, de Leonor Teles ter levado Cães que Ladram aos Pássaros a Veneza, de Pedro Costa ter recebido o Leopardo de Ouro em Locarno por Vitalina Varela, de Gonçalo Waddington ter apresentado a sua primeira longa-metragem, Patrick, no Festival de San Sebastian, e, claro, depois da soberba receção ao filme A Herdade, de Tiago Guedes — primeiro em Veneza e depois em Toronto —, é mais do que correto afirmar que o Cinema português está, em 2019, a viver um grande momento. Nas palavras de Albano Jerónimo, em entrevista à GQ Portugal, este é um “momento único e particular da história do nosso cinema.” 

A Herdade conta-nos a história de uma família proprietária de um dos maiores latifúndios da Europa, na margem sul do rio Tejo, e convida-nos a mergulhar nas profundidades dos seus segredos, acabando por retratar a vida histórica, política, social e financeira de Portugal dos anos 40, passando pela Revolução do 25 de abril e culminando nos dias de hoje. Albano Jerónimo encabeça um elenco que conta com a participação de nomes como Miguel Borges, João Vicente, Ana Vilela da Costa, Beatriz Brás e Sandra Faleiro, esta última na pele de Leonor (a mulher de João Fernandes, interpretado por Albano Jerónimo). A prestação exímia de Sandra neste filme rendeu-lhe uma nomeação para Melhor Atriz em Veneza, estando assim ao lado de nomes como Meryl Streep e Juliette Binoche.

A propósito da participação de Sandra Faleiro em A Herdade, conversámos com a atriz portuguesa sobre tudo aquilo que este filme está a proporcionar à cultura portuguesa, o início da sua carreira e ainda as dificuldades em se ser artista em Portugal.

Como é que foi a experiência de rodar este filme?
Foi um processo incrível, muito duro, angustiante a apaixonante. Teve estas três componentes e foi também um trabalho que me tirou da minha zona de conforto, foi muito transformador. Tudo aquilo que um ator pode querer. 

Foi duro em que aspeto?
Duro no sentido de ser denso, sabes, as personagens têm várias camadas. E então são muito densas, são muito paradoxais, muito imperfeitas, muito humanas. E o ser humano tem várias camadas. Nesse sentido, este filme foi de ir ao tutano [risos]. E isto tem muito que ver com a direção de atores. O Tiago [Guedes] não queria que as coisas fossem lineares. Do tipo, eu não sou só uma mulher submissa; além de ser submissa tenho um lado rebelde, não sou só fria, também sou quente. Não sou só frágil, também sou muito forte. Tivemos que trabalhar muito neste território, que no fundo é o território humano. Nós não somos só bonzinhos ou mauzinhos, o ser humano tem várias fases, há muita coisa dentro de nós. É puxa-las cá para fora e trabalha-las. 

Como é que foi construir a Leonor?
Foi um bombom que tive. Ter a oportunidade de trabalhar uma personagem que passa por 20 anos, é um bombom para qualquer ator. Nos anos 70 tive que procurar uma energia mais leve, mais de menina, um esperança na voz. Já nos anos 90, é uma energia mais terra a terra, mais mulher e sem esperança. 

Sandra Faleiro como Leonor em 'A Herdade''

O que é que difere este filme daquilo que já foi feito no Cinema português?
Quando fui ver pela primeira vez o filme, saí do cinema e pensei: “Isto é um filme. Isto é Cinema. Isto é um clássico.” A Herdade tem isso, é uma história contada de uma forma clássica. E tem um tempo, um tempo muito particular. Uma coisa que acho que o filme consegue fazer é fazer-te mergulhar, e isso é um grande trunfo, um grande feito porque nós que vivemos numa sociedade onde tudo é tão rápido, onde tu não tens tempo para nada. Com este filme, tu chegas, sentas-te e de facto mergulhas no filme. É uma coisa que tenho ouvido de várias pessoas que já viram o filme. Tu não sentes o tempo parar, e são duas horas e quarenta, e de facto não sentes que o filme é longo. Tem um registo, tem uma coisa qualquer, parece que está tudo a flutuar.

E acha que é com isso que as pessoas se estão a identificar?
Tem um tempo mais humano. Acho que as pessoas se vão identificar, mas também não quero estar a dizer aquilo que as pessoas devem sentir. Cada um sente aquilo que quiser. Este filme é muito aberto, não tem nenhuma mensagem, nenhum pensamento moral, não tem nenhum final estanque. É aberto. Este filme fala da família e das relações familiares, da falta de comunicação, dos desencontros, de todas essas coisas que são universais.

Qual foi a sensação de levar o talento português além fronteiras?
É uma pena que seja tão pouco. Acho. Não. Espero que este filme sirva para o governo apoiar mais o Cinema português. As artes de uma forma geral, porque é uma coisa que faz bem ao nosso país. Não é dinheiro deitado fora, é um investimento no nosso país, na nossa identidade. E isso é muito importante. 

E A Herdade é um filme para que isso possa acontecer?
A Herdade e não só. Há também Variações. De repente tens estes dois filmes. É muito interessante o que se fala e o público que tem, neste caso o Variações está a levar muitas pessoas ao cinema. Espero que continue e que isto mude de alguma forma. Que abane. Que haja uma mudança. Há gente com muito talento e não lhes é dada a oportunidade para trabalharem. O Tiago Guedes, por exemplo, o realizador, teve dez anos sem realizar. É só estupido. É um absurdo. 

Na linha de horizonte está uma possível nomeação para Melhor Filme Estrangeiro, na próxima cerimónia dos Óscares. O que é que se sente?
Nunca me passou isso pela cabeça. Em toda a minha vida. Se queres que te diga ainda estou meia azamboada com essa ideia. Ainda não incorporei o facto de haver essa possibilidade. E se calhar há mesmo essa possibilidade, da forma como as coisas estão a correr. Se nós formos [aos Óscares] vai ser incrível, e mesmo se não formos já ganhámos. O filme está a correr muito bem. É um trabalho de que me orgulho. Acho que é uma grande obra. Gosto genuinamente e digo isto de coração cheio. 

Sandra Faleiro na 76ª edição do Festival Internacional de Cinema de Veneza © Getty Images

Agora voltando um bocadinho ao início, como é que o interesse pelas artes surgiu na vida da Sandra?
Surgiu desde que me lembro de existir. Sempre tive tendência para as artes, seja pintura, dança, ou teatro. Queria ter ido para o Conservatório de Dança, mas os meus pais não me deixaram e quando acabei o 12º ano fui para teatro. Não houve hipótese, sempre foi algo que me fascinou. Era muito tímida. Gaguejava um bocadinho e o teatro foi uma forma que arranjei de comunicar. Era um divertimento. Era uma alegria. E agora também é. É uma grande felicidade. Eu esqueço-me de dizer isto, mas é lúdico. É uma grande felicidade. É claro que às vezes questionas e fazes perguntas mas de uma forma geral é uma grande felicidade.

Com A Herdade, conta já com sete filmes. Como é que olha para a evolução do Cinema em Portugal?
Acho que já devíamos estar a fazer mais Cinema. Acho que está na altura de começar a apoiar os realizadores novos que estão a aparecer. Os mais velhos que me perdoem, mas também é preciso dar espaço a estas pessoas. A essa massa criativa que está aí em ebulição e que precisa de apoios, porque é impossível fazer as coisas sem dinheiro. É claro que fazemos muitas vezes as coisas sem dinheiro, só que estamos sempre em modo sobrevivência.Devíamos estar muito avançados, a fazer muitas mais coisas, a ir a muitos mais festivais. Há pessoas fantásticas a trabalharem e não se lhes dá valor. É um país que não é governado e não se deixa governar. Não damos valor àquilo que temos e isso devia mudar mesmo. É uma luta constante.

É difícil viver das artes em Portugal. 
Não é difícil, é super difícil. Tens que ser resiliente, tens que fazer várias coisas ao mesmo tempo para poderes por comida na mesa. E se tens família, que é o meu caso, tens que te desdobrar em mil pessoas para conseguires pagar as contas. Depois também fazes coisas que realmente queres fazer, tipo as minhas encenações ou uma peça que queres mesmo, mesmo fazer, mas depois sabes que vais receber muito pouco e aí tens que compensar com outro trabalho.

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