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Entrevistas 23. 2. 2021

Rosamund Pike fala sobre o seu papel em ‘I Care A Lot’

by Radhika Seth

 

“Esta é a personagem feminina mais emocionante que li nos últimos anos”: a atriz fala com a Vogue sobre o processo criativo da sua mais recente personagem para a sátira cómica sombria I Care A Lot e como foi viver durante o lockdown numa nova cidade. 

Rosamund Pike © Alasdair Mclellan

No último papel de Rosamund Pike, a estrela de Hollywood nomeada ao Oscar por Gone Girl (2014) interpreta uma leoa autoproclamada. É uma performance que lembra a estreia da londrina de 42 anos, como publicitária com um coração de gelo em James Bond: Die Another Day (2002), mas está muito longe de muitas das personagens que a vimos incorporar desde aí: a doce Jane Bennet em Pride & Prejudice (2005), uma socialite sem noção em An Education (2009), a heróica repórter Marie Colvin em A Private War (2018) e uma esposa frustrada série State of the Union (2019), que lhe rendeu um Emmy.

Agora, é Marla Grayson na comédia de J Blakeson I Care A Lot, uma cuidadora profissional, impecavelmente vestida, nomeada pelo tribunal e profundamente sádica que ficou rica ao roubar os bens dos idosos por quem é responsável. Com ajuda da namorada e sócia Fran (Eiza González), Marla acumula um portefólio impressionante e volta-se a certa altura para Jennifer Peterson (Dianne Wiest), uma mulher reformada com uma poupança generosa, sem família viva e um historial médico irregular. No entanto, depois de levar Jennifer para um lar, um dos seus amigos (Peter Dinklage) tenta libertá-la e ao mesmo tempo destruir Marla. 

Antes da estreia de I Care A Lot, que decorreu a 19 de fevereiro, conversámos com Pike sobre o seu estilo meticuloso, sobre a forma como as aulas de spin a ajudaram a entrar no personagem e a razão pela qual ela nunca se preocupa em ser uma segunda escolha.

Parabéns pela nomeação ao Golden Globe de Melhor Atriz em Comédia ou Musical. Vi no Instagram que perdeu o comunicado porque esteve seis horas num estúdio de gravação. Como é que se sentiu quando soube da notícia?

Extraordinária! Ironicamente, já perdi muitas vezes comunicados significativos na minha vida profissional. Ganhei um Emmy quando estava num avião e estava fora sem telemóvel quando me deram o papel no filme do James Bond. Tem sido recorrente [risos]. Estava tão imersa naquilo que estava a fazer que tal coisa não estava no meu radar. Fui completamente apanhada de surpresa e foi emocionante.

Quando conheceu o diretor da I Care A Lot, J Blakeson, o que achou da ideia para este filme?

O J [teve a ideia] depois de ver um artigo [sobre enfermarias que eram exploradas por tutores] e pensar: "Isto deveria ser um filme, mas se eu contar a história do ponto de vista da vítima, será insuportavelmente horrível. E se eu contar do ponto de vista do tutor?” Eu li o roteiro e disse: “Esta é a personagem feminina mais emocionante que li nos últimos anos”. Ele respondeu: “Sempre gostei do teu trabalho. Vamos jantar.” Cinco ou seis meses depois disso, o papel foi-me oferecido. Isso faz-te pensar que provavelmente não foi a primeira escolha dele [risos], mas nunca tive medo de ser a segunda ou terceira escolha. Nesta indústria, não podes ser orgulhosa com coisas dessas. Tens que aproveitar as oportunidades.

Na Marla Grayson, como personagem, o que foi aquilo que mais a cativou?

Não a entendia ou o que a estava a motivar e foi isso que achei tão fascinante. A minha exploração da personagem foi sobre cavar [até] que eu pudesse possuir os seus apetites - a sua fome descarada por riqueza, poder e todas as coisas com as quais eu não me importo. A Marla pensa: “Estou tramada e agora vou jogar sujo.” O problema é que o sistema está configurado para as pessoas que jogam sujo. J escreveu uma sátira sobre o sonho americano e os sistemas de bem-estar e de saúde.

A Marla é definida pelo seu bob, tailleurs elegantes e saltos altos. De que forma é que a imagem dela surgiu?

Eu queria que o bob fosse afiado como uma navalha. O hairstylist com quem trabalhei também cortou o bob de Amy [personagem de Pike em Gone Girl, de 2014]. Assim que coloquei aquele fato azul-petróleo que ela usa na cena com o advogado, soubemos que a tínhamos encontrado. O J disse: “Quero ver esses fatos em todas as cores e cortes”. Ela usa um fato amarelo quando a vês como a leoa que se aproxima da sua presa [Jennifer] e o J queria outro fato amarelo na última parte do filme, quando Marla se torna a presa. O seu olhar faz parte do artifício. Queríamos ter tempo [para olhar tudo] e, de facto, não tens esse tempo num filme com um orçamento reduzido. Estávamos a trocar a cor do verniz das unhas para combinar com as roupas porque eu sabia que a Marla faria isso. As pessoas diziam: “Isso é necessário?” E eu: “Pode valer a pena no final.”

Li que para se preparar para o filme, ouviu TED Talks de Elizabeth Holmes (uma CEO de uma empresa de saúde que foi criminalmente acusada de fraude, em junho de 2018). Isso é verdade?

Sim, é verdade. Estava a pensar em colocar as pessoas do seu lado e na arte de vender - vender algo que pode ser totalmente falido moralmente, mas que as pessoas compram. Não baseei a Marla em Elizabeth, mas estava à procura de coisas menores, como linguagem corporal e movimentos das pálpebras. Há também a sinceridade e a Marla brincar com essa ideia é interessante. No tribunal, os seus argumentos são firmes e ela é muito razoável. Ela diz: “Tu não podes cuidar de alguém ao fazeres aquilo que ela quer. Tens que fazer o que eles precisam e eu posso cuidar melhor do que um membro da família.” Tu pensas: “Entendo o que queres dizer.”

Também publicou no Instagram sobre o treino que precisou de fazer. Quão difícil foi?

Tive de ser forte para o filme porque tínhamos uma sequência subaquática que seria um teste à minha resistência. Eu fiz tudo num tanque durante dois dias. A outra coisa era a aula de spinning. [A Marla vai para uma aula numa] uma das primeiras cenas e eu nunca tinha feito uma aula antes. Tu estás numa bicicleta numa posição agachada com os ombros para cima e isso é muito predatório. Deu-me um físico diferente.

 
 
 
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Uma parte também fundamental para a personagem de Marla é a relação com sua partner in crime, Fran, interpretada por Eiza González. Foi importante para a Rosamund que a história de amor delas fosse apresentada de maneira natural?

Não é um ponto de viragem, nada acontece com elas como um resultado direto e acho que é assim que devemos ver os relacionamentos. Assim como podemos ver uma personagem principal com filhos e um marido em segundo plano e [presumir] que essa é a sua vida familiar, esta é a vida familiar de Marla e é tratada com a mesma indiferença. Tínhamos a história de Fran de ter sido uma fiadora no passado, ela tem experiência com a polícia. Além disso, a Eiza foi um raio de luz - tão engraçada e divertida de se trabalhar. Ela tem um visual diferente [neste filme em comparação com o que vimos antes] e é muito bonita.

Como foi para ter a estreia do filme no Festival Internacional de Cinema de Toronto, em setembro passado, e receber críticas muito boas sem poder comparecer pessoalmente?

Não vi este filme com público. O J e eu prometemos um ao outro que um dia alugaríamos um cinema e faríamos os nossos amigos assistirem ao filme connosco. Eu adoraria ter visto o mundo a conhecer a Marla, mas recebemos críticas adoráveis e acho que as pessoas precisavam de algo desagradável e da hipótese de escapar para um mundo que não era real ou sério. Poderiam rir de algo horrível em vez de se lamentar pelo horror que todos testemunhamos no ano passado.

A seguir, veremos a Rosamund na série The Wheel of Time. O que nos pode contar? 

É um mundo que mal posso esperar que as pessoas vejam - onde as mulheres detêm o poder e criam um novo status quo. Há uma diversidade real naquele universo e é [uma série] que espero que todos vejam. 

Esteve em Praga, onde The Wheel of Time estava a ser gravado, com o seu parceiro e filhos, no último ano de confinamento. Como foi passar esse período de tempo numa cidade nova?

Gostámos de explorar Praga deserta. Mas é também preocupante porque muitas empresas têm enfrentado dificuldades, mas a cidade em si é mágica. Sentimo-nos sortudos por estar na Europa Central, [embora] eu gostaria que tivéssemos outros membros da família aqui. Desde o Brexit, a Inglaterra parece mais remota porque até mesmo o correio [de casa] não chega tão rápido. Na realidade, é bastante surpreendente.

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