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Connected 6. 8. 2019

Retro Ativos: o regresso dos clássicos

by Sara Andrade

 

Vinil. Polaroid. Print. Se estas palavras fazem parte do seu vocabulário, parabéns. Pertence à geração do século XXI.

© Getty Images

i? Como assim? É verdade, os conceitos analógicos até podem ter conotações mais fortes com os anos 80 e 90 do séc. XX, mas a segunda década dos anos 2000 fizeram questão de assinalar o comeback do vintage (o regresso dos estrangeirismos também é uma das coisas muito em voga nos dias de hoje), sob todas as suas formas e não apenas em formato guarda-roupa. Não é à toa que a nossa protagonista de capa para julho 2019, Sadie Sink, 17, tenha dito numa entrevista ao site Collider que um dos seus videojogos favoritos é o Pac-Man. E que uma das suas bandas preferidas são os Nirvana. Ou que séries como Stranger Things e Sex Education e The end of the f*cking world ou até 13 reasons why, com as suas cassetes audio, tenham ido buscar referências, seja em temporalidade ou vestuário, aos eighties e nineties. E que o rerun de séries clássicas como Friends tenha trazido à sua audiência fãs que nem eram nascidos na altura em que o nome de culto passou originalmente na televisão. É que voltar à simplicidade das coisas é mais do que fazer valer o #slowliving ou a #simplelife. É degustar todas as áreas da vida com o mesmo tempo e crueza de outras eras. É ouvir um disco de vinil com o ruído de fundo e levantar-se para mudar de lado quando a faixa 07 termina. Porque quando se vira o disco, não toca o mesmo. É usar o smartphone para captar imagens de todos os ângulos para as stories, mas querer mais que tudo uma câmara instantânea para imortalizar em foto os momentos mais especiais - sem burst, cliques repetidos ou delete das que não gostou. É sentar-se numa esplanada e folhear uma revista ou ler um livro, página a página, em papel. E tirar uma foto desse momento para o Instagram, claro, ninguém a recrimina. É até encorajado.

Revê-se em tudo? Não é a única. Afinal, o regresso dos clássicos é muito mais que a renovação dos hábitos ou o regresso às referências de décadas passadas - e as marcas não ficaram indiferentes a esta manifesta nostalgia: em 2018, a Nintendo relançou a consola NES; a Polaroid lançou, em 2015, uma linha de câmaras, Snap, que combina smartphone com impressão de fotos; em 2017, a Nokia relançou o 3310. Repito: a Nokia relançou o 3310. Talvez não tenha ido a correr comprar o aparelho para matar saudades do jogo Snake, mas quantas vezes já se perdeu na secção de gira-discos - hoje com renovado design e entradas USB - e nas estantes de LPs de grandes superfícies de venda de tecnologia? É que, hoje em dia, não é só em segunda-mão que encontra estes espécimes - os nomes fortes do retalho deste tipo de comércio não tiveram outra hipótese se não dar resposta a estas exigências do público. De acordo com a RIAA (Recording Industry Association of America), em 2018, apesar da queda de vendas nos downloads de faixas e álbuns (os serviços de streaming aumentaram) bem como nos suportes físicos (a venda de CDs caiu 34%,), a venda de discos em vinil aumentou 8% face a 2017, representando o valor mais alto de revenue nos EUA, deste segmento, desde 1988: 419 milhões de dólares. Não é uma subida recente. De acordo com a Nielsen SoundScan (que mede as vendas de música naquele país), em 2008, a venda de discos em vinil duplicou face ao ano anterior. E parece nunca mais ter parado. Afinal, quando se vira o disco, toca o mesmo: ka-ching. Num estudo de mercado levado a cabo pelo website Digital Music News, sediado em Santa Monica, California, esta subida deve-se em muito aos millenials, que têm 60% mais probabilidade de comprar vinil que a maioria da população. No Reino Unido, diz um estudo da Statista.com publicado em 2013, a faixa etária dos principais consumidores de vinil nesse ano foi a dos 18 aos 24, representando 15% da quota de mercado. Oldies but goldies, certo?

“ASSISTIMOS A UM AUMENTO DE 75% DE CONSUMO NA FAIXA DOS 18-25 ANOS, COM OS ADOLESCENTES A VIRAREM AS COSTAS AO DIGITAL EM PROL DE ALGO MAIS PALPÁVEL”

 

Outro exemplo do retorno do retro - muitas vezes atualizado para o novo século -, é a aposta da Fujifilm na sua gama Instax ou o retorno das emblemáticas Polaroids ao mercado competitivo do consumo - algumas com o design muito próximo do corpo original. No caso da Fujifilm, o ano passado viu chegar a nova Instax Square SQ6, por exemplo, que se junta - não só, mas também - às Mini 9, tão coloridas quanto o espetro cromático que parece pintar os interesses da cor do público adolescente. Coincidência? Pouco provável. “Nos últimos 10 meses, assistimos a um aumento de 75% de consumo na faixa dos 18-25 anos, com os adolescentes a virarem as costas ao digital em prol de algo mais palpável”, afirma Creed O’Hanlon, Executive Chairman do site The Impossible Project, agora chamado Polaroid Originals (que comercializa câmaras, filme e demais parafernália para estas máquinas instantâneas) ao The Guardian, no final de 2014. “Ao longo dos últimos seis meses, duplicámos o volume de película que vendemos e renovámos mais de 30 mil câmaras clássicas Polaroid.” A citação não é recente, mas não é menos aplicável aos dias que correm, e surge no seguimento de muitas celebridades – de Taylor Swift a Miley Cyrus, FKA Twigs ou Lana del Rey – terem professado e demonstrado o seu amor pela fotografia emoldurada a branco. Os ídolos dos anos 2000 adoram a estética do milénio passado. E os seus fãs e seguidores não fogem à regra.

Talvez até já tenha lido estas estatísticas. Talvez até as tenha lido em papel: o Magazine Media Factbook para 2019 (documento que estuda o mercado de revistas, com pesquisa de estatísticas em fontes consagradas), diz que os jovens ainda leem revistas, apontando que 91% dos adultos norte-americanos consome a imprensa escrita e que o número sobe para 93% quando se fala na faixa abaixo dos 35 e sobe para 94% para idades abaixo dos 25. O estudo vai mais longe, acrescentando que 65% confia mais nos media tradicionais que nos restantes (motores de busca, publicações unicamente online, social media…) e que as 25 revistas mais lidas do país atingem mais adultos e adolescentes que os 25 programas televisivos mais vistos do horário nobre. De acordo com o mesmo estudo, a média de revistas lida por mês ultrapassava os sete exemplares e os leitores mais devotos leem cerca de 20 - a faixa etária abaixo dos 25, dos 20% mais assíduos na leitura, coleciona cerca de 16 revistas por mês. 

O regresso ao palpável é palpável. Talvez esteja intrinsecamente ligado à necessidade do ser humano precisar de toque, de sentir texturas, de contacto físico. Num mundo em que as ligações interpessoais parecem maioritariamente acontecer através de apps, bits e bytes, talvez este regresso ao toque de um long player em detrimento de um MP3, ao toque de uma revista em detrimento de um url ou scroll down, ao toque de uma fotografia instantânea em detrimento de um touchscreen seja o novo elo emocional da sociedade. E, sejamos francos, numa comunidade corcunda pelo smartphone, estes retro ativos são o novo cool.

Artigo originalmente publicado na edição de julho 2019 da Vogue Portugal.

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