É assim, talvez, que podemos descrever as telas de Maria Naidyonova. Expressivas e intensas, as suas pinturas afirmam-se como testemunhos do toque humano e da intimidade, numa época em que, dia após dia, escasseia a empatia e a comunicação.
Como uma espécie de instinto primitivo, para algumas pessoas, o desenho e a pintura surgem como comportamentos naturais que se manifestam desde cedo. Ao encarar a arte como um meio de dar forma às fantasias da infância, a artista ucraniana Maria Naidyonova — atualmente estabelecida em Berlim — encontra na tela e no pincel instrumentos para contar a sua história e desenvolver um imaginário enraizado nas pessoas, nos seus comportamentos e nas suas relações. No cerne do seu trabalho está a procura de “ver a beleza nas coisas simples”. Porque, antes de proclamações grandiosas, são os pequenos instantes — um gesto breve, um olhar delicado — que emergem como testemunhos íntimos e carregados de significado da experiência humana. Ao dar vida a cenários inicialmente privados, Naidyonova recorre a diversas práticas artísticas — oscilando entre o desenho, a pintura, a abstração e a animação — para abrir espaço a novas conversas e convidar-nos a explorar um universo que expõe a forma como as pessoas interagem entre si. No final de contas, é numa sensação de liberdade que assenta a sua visão artística, privilegiando uma perspetiva fiel à história e às personagens que a pintura revela. Para descobrir mais sobre o seu percurso, a sua relação com a arte e a sua perspetiva criativa, a Vogue Portugal conversou com Maria Naidyonova numa entrevista que explica um pouco sobre o que a levou a construir uma obra assente nestes temas.
Como é que a arte e o desenho começaram a fazer parte da sua vida?
Desenho desde a infância, desde que me lembro. Era o meu passatempo favorito, pois permitia-me expressar todas as minhas fantasias. Eu imaginava que tudo o que desenhava ganhava vida e se tornava real, e achava isso incrivelmente divertido — afinal, dessa forma, era possível criar tudo o que quisesse!

Lovers II, 200 x 150 cm, técnica mista sobre tela, 2024.

Dissolution, 200 x 150 cm, técnica mista sobre tela, 2024.
Foi difícil desenvolver o seu próprio estilo?
O estilo pessoal desenvolve-se ao longo dos anos. É uma jornada de profunda experimentação, erros e descobertas. Além disso, o estilo pode mudar à medida que nós próprios mudamos com a idade e a experiência. O tema do meu trabalho — as pessoas — é outra questão totalmente diferente — continuará sempre a ser interessante para mim.

Lovers, 200 x 150 cm, técnica mista sobre tela, 2018.
Quais são as suas maiores influências e como é que elas têm mudado ao longo do tempo?
Gosto de muitos artistas, mas admiro especialmente o Picasso. Ele inspira-me muito, como artista e como pessoa, devido à sua energia inesgotável. Sendo um virtuoso do desenho clássico, não se limitou a isso, mas também não o rejeitou. Ao quebrar, distorcer e simplificar formas, mudando estilos e meios de expressão, revolucionou a arte, combinando tradição com inovação. E, por isso, sempre foi a minha inspiração.
Fala sobre captar momentos com significado oculto na vida quotidiana. Qual é exatamente esse significado a que se refere?
Isso significa ver beleza nas coisas simples — nos rituais quotidianos, num gesto, num olhar, numa pose, no entrelaçar dos dedos, na inclinação da cabeça, na curva do pescoço. Às vezes, esses momentos podem contar uma história inteira. São naturais, comoventes, um pouco misteriosos e sempre interessantes.
Nas suas obras mais antigas, tendia a usar uma paleta mais vibrante e colorida, enquanto agora as suas composições são baseadas em tons mais suaves. Como e porque é que esta mudança ocorreu e o que significa na sua obra?
Faz parte de um processo criativo natural — uma procura constante por algo novo. Quando estava a estudar, comecei com desenho clássico, depois mudei para pintura e trabalhei com camadas de tinta imposto, aplicando-as generosamente na tela com uma espátula. Mais tarde, descobri a animação — uma forma de “dar vida aos meus desenhos”, como sonhava fazer em criança. E depois do meu “período digital”, voltei novamente à tela e ao papel. Agora, o meu estilo combina elementos de desenho, pintura, abstração e animação. E pode mudar quantas vezes eu própria mudar.

Women at Rest, 230 x 200 cm, técnica mista sobre tela, 2025.

Small Lovers, 50 x 40 cm, técnica mista sobre tela, 2025.
De que forma é que a combinação de materiais como acrílico, pastel e carvão vegetal ajuda a transmitir a sua mensagem?
Tecnicamente, misturar materiais cria um efeito de profundidade, devido às diferentes texturas — macias com rígidas, opacas com transparentes, etc. Na prática, misturo materiais porque trabalho rapidamente, transmitindo uma certa sensação antes que ela me deixe, e uso tudo o que tenho à mão e que me ajuda a alcançar o efeito desejado. Essa abordagem cria uma sensação de espontaneidade e facilidade. É exatamente essa a impressão que quero transmitir.
De que forma é que as suas pinturas exploram as relações humanas, tanto na sua dimensão física como emocional?
Os meus trabalhos exploram as relações humanas através da sua composição e cor. Concentro-me nos gestos, na postura e na distância ou proximidade subtil entre as figuras, porque estes elementos visuais comunicam frequentemente a essência dos sentimentos de forma mais pura do que as expressões faciais.

Red Lovers, 42 x 29,7 cm, lápis de cor sobre papel, 2018.

Secrets, 230 x 200 cm, técnica mista sobre tela, 2025.
O que a leva a retratar atos íntimos e trazer espaços e momentos privados para o domínio público?
Quando trabalho, não penso de todo no público. Não atuo em palco, mas trabalho em privado no meu estúdio e, essencialmente, pinto para mim própria, devido à necessidade de me expressar. Mais tarde, quando o trabalho está concluído e exposto, já não me parece pessoal ou íntimo. A ligação a ele perde-se, ele “vive” a sua própria vida independente.
O seu trabalho está enraizado em memórias e experiências pessoais ou desenvolve as suas composições através de modelos e desenhos ao vivo?
Ambos. Preciso de pessoas à minha volta que me inspirem. Não são modelos, mas amigos próximos, as minhas musas. Observar as pessoas dá-me ideias. No entanto, quando estou a pintar uma tela — este processo vem depois da fase de esboço — confio na minha intuição pessoal.
Inclui-se nas suas pinturas?
Emocionalmente — sempre; fisicamente — nunca.

Lovers, 21 x 29,7 cm, tinta sobre papel, 2026.

Lovers, 21 x 29,7 cm, tinta sobre papel, 2026.
A edição deste mês da Vogue Portugal é dedicada ao tema Kiss. Qual é a importância desse gesto no seu trabalho?
Um beijo é, sem dúvida, um elemento muito importante da intimidade, mas não precisa ser retratado literalmente, como nas obras de Klimt ou Rodin (que eu adoro, aliás). Linhas abstratas e salpicos de cor também podem ser usados para transmitir a sensação do toque físico e do beijo, o estado de estar apaixonado. Muitas coisas numa pintura podem ser percebidas mesmo que não sejam ilustradas diretamente.
Como a intimidade e o beijo são temas recorrentes na sua arte, esse tipo de imaginário também desempenha um papel importante na sua vida pessoal?
A intimidade é uma experiência humana única. Revela confiança, vulnerabilidade e conexão emocional. Embora as experiências pessoais inevitavelmente moldem a perceção de um artista, o meu trabalho não se concentra tanto em documentar a minha própria vida, mas sim em explorar temas humanos universais que ressoam em muitas pessoas.
Existem casos reais de beijos que continuam a inspirá-la?
Claro! Adoro observar casais nos transportes públicos, nas ruas, nos parques e nos cafés. Cada estranho tem a sua própria história, a sua própria vida, o seu próprio drama, sobre os quais não sei nada. Mas, ao recolher imagens, uma a uma, de diferentes personagens, surge toda uma história e um motivo para a pintura.

Embrace, 105 x 75 cm, técnica mista sobre tela, 2025.

Twilight, 150 x 110 cm, técnica mista sobre tela, 2025.
Nas suas telas, retrata frequentemente membros do corpo sobrepostos. Qual é a razão por detrás disso? Será talvez uma forma de transmitir movimento?
Sim, isso vem da minha experiência com animação. Em cada quadro, todos os movimentos são desenhados à mão. Da mesma forma, após o esboço inicial, começo a alterar e a rodar as minhas personagens, imaginando como elas se moveriam na vida real. Eu simplesmente não apago as linhas anteriores, mas deixo toda a amplitude de movimento, desde o primeiro esboço até à pose final. Isso adiciona um elemento de dinâmica, abstração e profundidade à pintura, sobrepondo linhas borradas e nítidas. É divertido trabalhar dessa maneira.
Dado que o seu processo se baseia na repetição e na sobreposição de camadas, como sabe quando uma pintura está concluída? Alguma vez se sente tentada a continuar a trabalhar nela indefinidamente?
Na arte contemporânea, tudo é muito subjetivo e não há regras sobre como uma pintura finalizada deve ser. Porém, se for um profissional, a sua experiência e intuição sempre lhe dirão quando é hora de parar.
Costuma trabalhar em grande escala. O que a atrai para formatos de maior dimensão?
Uma sensação de liberdade. A amplitude de movimentos é completamente diferente daquela dos desenhos pequenos (que também gosto de fazer). Ao trabalhar numa tela grande, não são apenas os dedos que estão envolvidos, mas todo o corpo. Também gosto da ideia de figuras monumentais.
Há alguma mensagem ou sensação final que gostaria que os espectadores levassem consigo depois de verem o seu trabalho?
Espero que relaxem um pouco e saiam de bom humor.
Originalmente publicado no The Kiss Issue, a edição de março de 2026 da Vogue Portugal, disponível aqui.
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