Moda  

Oh là là: a lingerie pela história da Moda

24 Mar 2026
By Rita Petrone

Fotografia: editorial Art & Facts, publicado a 25 de abril de 2025.

De dentro para fora e de fora para dentro, a lingerie tece uma linguagem universal à anatomia do corpo feminino. Com lugar reservado na fila da frente da nossa intimidade, o ato de vestir surge agora reinventado sob um mindset que vai além de qualquer tendência, e vê a lingerie como um dos eixos centrais do palco da Moda.

A quantidade de vezes que penso no slogan “se eu não gostar de mim, quem gostará?” devia ser estudada. É um manifesto de autoestima que me permite criar lugar na minha rotina para pequenos luxos de bem-estar. E, verdade seja dita, não há maior ato de amor próprio do que vestir um bom set de lingerie e sentirmo-nos absolutamente fantásticas em frente ao espelho. Encontrar a roupa interior certa é algo pessoal — sensível, claro, a diferentes anatomias, mas também às teimosias e frivolidades de cada um; é uma tarefa íntima, estimulante e, após sucesso, empoderadora. A lingerie é o eixo central do poder do vestuário, já que, quanto mais confiantes nos sentimos em relação ao que estamos a vestir, maior a probabilidade de nos sentirmos confiantes quando não estamos a usar nada. Ainda que a roupa íntima nasça de necessidades objetivas, como o apoio inegável que o sutiã garante ao peito, como essencial de guarda-roupa o seu alcance expande-se muito para lá da praticidade. A roupa interior é a primeira coisa que vestimos, e estabelece uma linha de base para como nos sentimos durante o dia, tanto a nível físico como emocional. É também a última coisa que tiramos, e é por isso que o conforto e a qualidade são duas das suas principais matrizes. As peças que compõem a nossa coleção de lingerie têm lugar reservado na front row da nossa intimidade — com uma visão privilegiada para o bom, o mau e o monótono. Como categoria de vestuário, a lingerie representa mais do que meras faixas de tecido ou até de renda. Cada detalhe tece uma linguagem que a nossa fisionomia compreende de forma inata, ainda antes de nos apercebermos disso racionalmente. É um idioma universal cujo alfabeto é puro, cru e autêntico, reinterpretado de tantas diferentes maneiras ao longo das décadas que acabou por assumir uma independência rara, mas eternamente fluente na experiência humana.

As peças que compõem a nossa coleção de lingerie têm lugar reservado na front row da nossa intimidade — com uma visão privilegiada para o bom, o mau e o monótono.

Durante décadas, a roupa interior feminina foi criada não com a experiência da mulher em mente, mas sim a do voyeur. Entre cintas e espartilhos que visam moldar o corpo de uma forma específica ou restringir os movimentos de modo a manter uma silhueta firme, as regras tradicionais da Moda sempre ditaram que este tipo de peças se deve manter (bem) longe da vista, para distanciar a apresentação pública da privada. Os estilos e os materiais disponíveis evoluíram ao longo das décadas, mas, nos primórdios da história do vestuário, a lingerie tinha como principal objetivo garantir modéstia e suporte. Os primeiros registos de roupa interior eram funcionais ao invés de estéticos, e incluem peças simples feitas em pele de animal que se adaptavam tanto ao corpo feminino como ao masculino. Na Grécia e Roma Antigas, o panorama alterou-se gradualmente: as mulheres começaram a usar um bandeau (com o nome de strophium) — uma espécie de faixa de linho ou couro que comprimia a zona do peito — e túnicas curtas por baixo dos seus vestidos, o que permitia que a camada inferior fosse trocada e lavada com mais frequência do que a exterior. À medida que partimos para a Idade Média, esta túnica transformou-se numa camisa longa de linho não tingido — ou, mais tarde, de algodão — que era visível na zona do decote e dos pulsos, dando a oportunidade às classes sociais mais altas de exibir rendas ou bordados.

Durante décadas, a roupa interior feminina foi criada não com a experiência da mulher em mente, mas sim a do voyeur.

É apenas quando chegamos ao século XVI que começam a surgir os primeiros moldes do que viriam a ser os icónicos (e deveras aterradores) espartilhos. Nesta altura, quando eram ainda usadas principalmente para dar suporte, estas peças eram feitas de tecido ou pele e reforçadas por madeira ou barbas de baleia, sob a missão de tornarem o tronco mais cónico. Já no período renascentista, as roupas íntimas femininas assumiram, finalmente, silhuetas elaboradas, e foi durante esta época que a lingerie passou de algo apenas funcional para assumir parte do protagonismo no palco da Moda. Com o passar dos séculos, a roupa íntima continuou a moldar a anatomia do corpo feminino de forma drástica — dos panniers a estruturas em gaiola para as classes mais altas aos simples petticoats que priorizavam a modéstia para as classes mais baixas.

No século XIX, novos materiais, como a borracha e o elástico começaram a integrar a construção dos espartilhos, tornando-os mais flexíveis e confortáveis. Mas é quando chegamos ao século XX que a lingerie volta a estar no centro de uma revolução política, social e cultural. Quando, em 1914, Mary Phelps Jacob inventou o sutiã moderno como uma alternativa ao espartilho, a roupa interior feminina passou a ser dividida em duas categorias principais: partes de cima e partes de baixo — com a zona central do corpo a passar a estar reservada para peças funcionais, como cintas ou ligas. A lingerie tornou-se cada vez mais prática e confortável, até que, pouco a pouco, se afirmou como uma parte essencial do guarda-roupa feminino, tornando-se uma arma de poder que ajuda as mulheres a sentirem-se sensuais e elegantes.

Entre tendências, padrões e inovações técnicas (como a invenção de materiais como a lycra e o spandex), a lingerie tornou-se o equilíbrio perfeito entre forma e função. Um requisito aliado à praticidade e conforto necessários para enfrentar um dia a dia cada vez mais agitado, mas também uma ode à sensualidade que vive no cerne da feminilidade. Em pleno século XXI, a lingerie parte numa aventura para lá da escuridão do avesso das peças de roupa e assume-se como a recém-chegada estrela das camadas exteriores de looks vanguardistas. Nesta tendência, o vestuário íntimo transcende as fronteiras tradicionais do guarda-roupa, tornando-se uma escolha intencional e regida pelas máximas da ousadia. Aliás, quem não tem presente na sua pasta mental de referências uma imagem de Madonna com o seu (i) cónico sutiã Jean Paul Gaultier, que atire a primeira pedra. Trazer a lingerie para a parte de fora do mundo encantado do vestuário é um desafio aberto a séculos de convenções. O simples ato de usar roupa interior como uma camada exterior celebra a confiança no corpo e no estilo pessoal — ao mesmo tempo que contribui para a democratização deste tipo de peças.

Com o intuito da lingerie virado de dentro para fora, o ritual de vestir (e despir) renova-se por inteiro.

Esta tendência não surgiu da noite para o dia; evoluiu de forma gradual, devido a uma confluência de movimentos culturais, avanços tecnológicos e designs vanguardistas. Os diretores criativos responsáveis por nos fazerem chegar as derradeiras inspirações de Moda começaram a experimentar com transparências e recortes estratégicos no início da década de 2010, e, pouco a pouco, a lingerie — no formato de espartilhos, sutiãs e bodysuits — começou a aparecer, em toda a sua glória, como peças externas intencionais. Nas passerelles de primavera/verão 2026, o ato de layering, nomeadamente no que toca a fazer o styling visível de roupa íntima, torna-se uma verdadeira arte. Coleções como as da Hermès, Attico ou até Dolce & Gabbana rejeitam as narrativas tradicionais que, historicamente, afastaram a lingerie do foco central da Moda, tornando usá-la por fora uma escolha pessoal, em vez de uma transgressão social. Esta é uma tendência cujo mote reside também na sua versatilidade, já que as mesmas peças podem ser combinadas e conjugadas de inúmeras formas, dependendo do contexto e da vontade de cada um. A ideia é integrar a lingerie no guarda-roupa até que as diversas peças trabalhem em conjunto, no sentido de renovar o léxico da Moda com a atitude que apenas detalhes em renda ou cetim conseguem permear a um look. Com o intuito da lingerie virado de dentro para fora, o ritual de vestir (e despir) renova-se por inteiro: é agora uma ode visceral à ousadia que advém de uma autoestima construída nas bases da confiança e da sensualidade. Sob este novo mindset, a intimidade veste-se à flor da pele — e isso vai além de qualquer tendência, é uma declaração de amor à nossa própria identidade.

Originalmente publicado no The Kiss Issue, a edição de março de 2026 da Vogue Portugal, disponível aqui

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