Palavra da Vogue   Opinião  

Porque é que estamos tão fascinados com 2016?

16 Jan 2026
By Olivia Allen

Charli XCX no lançamento da colaboração H&M X Kenzo. Fotografia: Dimitrios Kambouris/Getty Images for H&M.

Algo estranho está a acontecer nas redes sociais neste momento. Quando abro o meu feed, à espera do habitual conteúdo do género “ano novo, vida nova”, deparo-me com a presença chocante do filtro de cão do Snapchat, que parece ter ressurgido como uma fénix das cinzas digitais. 2016 está de volta, e as gerações mais jovens anseiam por chokers, cut creases e The Chainsmokers em loop.

Olho para 2016 com o carinho relutante que se reserva a um cão irritante. Por mais esteticamente ofensivo que tenha sido, não consigo deixar de achar cativante o charme um pouco aleatório daquela época. Foi o ano em que fiz os meus exames finais do ensino secundário e embarquei numa aventura de um ano a tentar imitar o melhor possível a série Skins e a série Poldark, enquanto fazia o Ano Zero em Arte em Cornwall. É profundamente suspeito olhar para trás e ver a adolescência como algo diferente de um teste de resistência a pequenos traumas e humilhações, mas lembro-me da euforia de completar 18 anos e perceber que, fora das amarras do ensino secundário, era livre para subsistir à base de vodka do Tesco e cigarros mal enrolados.

Rihanna backstage do desfile Fenty Puma by Rihanna outono/inverno 2016.
Kevin Mazur/Getty Images for FENTY PUMA

Para os zillennials, 2016 coincidiu com o primeiro contacto com a vida adulta e, em muitos casos, com a chegada do primeiro salário. Também marcou o auge das colaborações com celebridades, como Rihanna X Manolo Blahnik, Victoria Beckham X Target e Kerry Washington X OPI a preencher as prateleiras das lojas. Esta foi a época que antecedeu a tendência de até as carteiras de luxo mais comuns nos catapultarem para o saldo negativo na conta bancária, antes dos adolescentes cobiçarem calças Loro Piana e antes das rotinas de cuidados de pele terem cerca de 12 etapas.

O clima era menos angustiado do que nos anos de 2014: quem se lembra do Tumblr em tons de cinza e o estilo grunge suave cortesia da American Apparel. As saias de ténis brancas e os Air Force 1 desgastados desapareceram; no seu lugar, surgiram os hoodies Thrasher e as camisolas de gola redonda Kenzo. Não havia qualquer ênfase na longevidade ou na qualidade (pelo menos, no meu caso). Chokers tattoo, camisas de ganga finas e botas Dr. Martens desgastadas compradas numa venda de quilo em Brick Lane era tudo o que era preciso para nos reinventarmos. Qualquer tipo de coesão estética era ativamente desencorajada.

No meu caso, isso assumiu a forma de um par de culotes H&M X Kenzo num tecido rosa com padrão zebra, pesado o suficiente para sobreviver a uma viagem ao Círculo Polar Ártico. Muitas vezes, esta peça era combinada com ténis Charlotte Simone X Superga para obter o efeito máximo desta estética, combinando padrões animais, pele sintética e dedos brilhantes. Vestida com esta estranha mistura de texturas, passeava por Camden Market, passando pela Rokit e pela Beyond Retro à procura de malhas feias, provavelmente descartadas por pais divorciados. O luxo discreto e peças básicas sofisticadas eram um conceito tão estranho e pouco atraente quanto qualquer aparência de rotina diária ou acordar antes das 11h.

Charli XCX, Chance the Rapper, Halsey, Chloë Sevigny, Rosario Dawson e Suboi no lançamento da colaboração H&M X Kenzo, em Nova Iorque.
Dimitrios Kambouris/Getty Images for H&M

Talvez fossem os típicos penteados com buns a afetar as nossas sinapses, ou talvez o mundo realmente parecesse menos apocalíptico (embora este tenha sido o ano em que Trump foi eleito, por isso não tenho a certeza se este argumento se sustenta), mas tudo parecia um pouco mais otimista em 2016. A epidemia dos influencers estava a dar os primeiros passos e o Instagram era um lugar para publicar em tempo real e ativar o filtro Rio de Janeiro. Não é segredo nenhum que todos nós precisamos de uma pequena desintoxicação digital neste momento, então faz sentido que a abordagem pixelizada do iPhone 5C às redes sociais pareça mais atraente do que ficar preso ao mais recente dispositivo com inteligência artificial 24 horas por dia, 7 dias por semana. Se a abundância de listas de entradas e saídas no meu feed na névoa pós-Natal servir de referência, as pessoas anseiam por uma vida analógica. iPod Nanos, despertadores e até headphones com fio apontam para uma visão cor de rosa de um passado não tão distante. 

Não é exagero dizer que o mundo pode ser um lugar bastante horrível para se viver atualmente, e faz sentido que estejamos à procura de uma dose reconfortante de nostalgia. Se a geração Y tinha o seu otimismo de 2009 – pense-se nas listas do BuzzFeed e em Noah and the Whale –, zillennials tinham a joie de vivre de 2016. Pelo preço baixo de uma camisola Topshop X Christopher Kane de £80 e um toque de sombra brilhante, era possível sentirmo-nos como uma cool girl durante uma noite de 2-4-1 Jägerbomb.

Traduzido do original, disponível aqui.

Olivia Allen By Olivia Allen

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