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Numa estética marcada pela extravagância, pela excentricidade e pela provocação sexual, os Club Kids personificaram o significado de viver a vida com ousadia. Em nenhum momento, este grupo teve receio de expressar a sua identidade arrojada e vibrante através da Moda — e fizeram-no de tal forma que revolucionaram, por completo, as convenções do vestuário.
Nova Iorque, anos 90. Em pleno centro de Manhattan. São duas da manhã. Enquanto percorremos ruas simultaneamente desertas e agitadas, cruzamo-nos com rostos, figuras e lugares que ganham uma nova vida durante a noite. É neste cenário que nos deparamos, pela primeira vez, com um grupo de indivíduos que nada têm de comum. Na verdade, é a sua irreverência — livre de medos ou receios — que nos prende de imediato. Com roupas ousadas, que desafiam as normas e subvertem ideias preconcebidas, estas figuras encontram-se no limiar entre arte e Moda, quase como esculturas trabalhadas meticulosamente da cabeça aos pés. Eis os Club Kids.

O cenário do Love Ball 2, de Susanne Bartsch, circa 1991, em Nova Iorque.
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Utilizado pela primeira vez em 1988 pela New York Magazine, o termo Club Kids refere-se especificamente a um grupo de jovens que, ao frequentar discotecas underground, usavam esse espaço para criar looks extravagantes com uma mentalidade que chocava o público em geral. Ao utilizar esta expressão, a revista acabou por legitimar e dar visibilidade a uma cultura secular de jovens vistos como um objeto de fascínio, num contexto onde todas as regras de género e de expressão pessoal ou sexual eram abolidas. Nestes espaços — exclusivamente materializados em discotecas —, não havia hierarquias a determinar o status social; pelo contrário, todas as formas de ser e de viver eram aceites, numa clara recusa dos moldes convencionais. Neste universo, as discotecas funcionavam como uma espécie de laboratório, frequentado por jovens como forma de explorar identidades e construir personagens. No final da década de 1980, os Club Kids surgiram inicialmente como um fenómeno de estilo, fortemente influenciado por designers como Jean Paul Gaultier, Thierry Mugler e Stephen Sprouse. Rapidamente, porém, este coletivo evoluiu para criar visuais cada vez mais criativos e provocadores, misturando referências e estilos para dar origem a conceitos totalmente novos, como por exemplo Futuristic Geisha Gangsters.
Com uma identidade forte e completamente à frente do seu tempo, estes indivíduos afirmaram-se como um dos maiores pontos de referência no que toca a tendências e movimentos no mundo da Moda. Como forma de total libertação, estes jovens criaram uma comunidade aberta a todas as formas de autoexpressão, onde a moeda mais valorizada era a identidade pessoal e os looks vanguardistas que produziam noite após noite. Nestes espaços a Moda, os cabelos, a maquilhagem e até a forma como cada um se comportava e se movia atingiam proporções tão intensas, e um sentido de identidade tão extremo e purista, que a própria pessoa se tornava numa obra de arte. O ato de vestir e de se preparar para sair à noite transformou-se então numa prática de criação deliberada, uma forma de arte que desconstrói os domínios da Moda, da música, das drogas, do género, da cultura pop e dos meios de comunicação social.

Sister Dimension no Love Ball 2, de Susanne Bartsch, no Roseland Ballroom, em maio de 1991, em Nova Iorque.
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Para compreendermos como os Club Kids alcançaram tal impacto e influência na cultura, é importante reconhecer o contributo de Sarah Thornton na obra Club Cultures: Music, Media and Subcultural Capital. Como Thornton discute no seu livro, "club cultures are taste cultures" (as culturas de discotecas são culturas de gosto), o que significa que o público que se reúne num determinado espaço partilha preferências relativas, por exemplo, à música, à Moda e aos estilos de dança. A autora baseia-se igualmente nas ideias de Pierre Bourdieu sobre capital económico, social e cultural para desenvolver um novo conceito: o capital subcultural. Enquanto o capital cultural diz respeito ao que se adquire através da educação e da formação, resultando em status social, o capital subcultural refere-se ao conhecimento dos objetos e temas valorizados dentro de uma determinada subcultura. Portanto, certos conhecimentos sobre as últimas tendências de música, penteados e Moda constituem formas de capital subcultural. Neste sentido, os Club Kids foram-se afirmando pelo seu capital subcultural, definindo aquilo que era considerado moderno e em voga — e aquilo que não era.
Na mesma linha, como Mihaly Csikszentmihalyi argumenta em Creativity: Flow and the Psychology of Discovery and Invention, "os centros de criatividade tendem a situar-se nas interseções de diferentes culturas, onde crenças, estilos de vida e conhecimentos se misturam, permitindo que os indivíduos aprendam novas combinações de ideias com maior facilidade". Assim, foi apenas natural que as discotecas frequentadas por este grupo de jovens vanguardistas se transformassem em portos seguros para o pensamento inovador e para novas formas de explorar os limites da Moda e da arte.

Susanne Bartsch (vestida de branco) e a sua equipa participam numa festa de Susanne Bartsch no Le Queen Club 104 Champs Elysees durante a década de 1990, em Paris, França.
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Uma das maiores referências dos Club Kids foi o artista britânico Leigh Bowery. Artista, performer, modelo, personalidade televisiva, promotor de discotecas, designer e músico, Bowery foi-se reinventando continuamente ao longo dos anos, assumindo múltiplos papéis e recusando, em qualquer momento, obedecer aos limites impostos pelas convenções. Tendo como ponto de partida o mundo noturno da capital inglesa, o artista traçou o seu próprio caminho, chegando a criar e a apresentar performances em diversas galerias e teatros. Para Bowery, a Moda e a maquilhagem tinham um propósito maior do que meramente utilitário: eram arte. Estes meios eram vistos como pinturas e esculturas e, em todos os momentos, o performer encarava o próprio corpo humano como um instrumento maleável, capaz de desafiar as normas da estética, da sexualidade e do género.
As suas narrativas visuais — na Moda, no teatro ou nas discotecas — continuam a ressoar até hoje, e a sua influência é visível no trabalho de nomes como Alexander McQueen, Jeffrey Gibson, Anohni e Lady Gaga. Na coleção de outono/inverno 2009, o designer britânico Alexander McQueen explorou profundamente a estética de Bowery. Com looks esculturais construídos a partir de materiais não convencionais, McQueen não só evocou a sensibilidade estética destas figuras artísticas, como também o lado DIY a que tanto os Club Kids como Bowery recorriam para criar os seus visuais. Para culminar, a utilização de maquilhagem que criou lábios exagerados reforçou a inspiração direta do designer em Bowery.
À esquerda: Leigh Bowery fotografado por Fergus Greer. À direita: coleção ready-to-wear outono/inverno 2009 de Alexander McQueen.
À esquerda: Instagram via @culturedtraveller. À direita: Dominique Charriau/WireImage.
Do outro lado do Atlântico, as intervenções do performer foram igualmente marcantes. Da mesma forma que Bowery procurou reinventar-se enquanto personalidade artística e figura performativa, também os Club Kids adotaram essa abordagem à identidade e à autoexpressão. Além disso, tal como o artista britânico emergiu de uma cultura marginalizada, também esta comunidade nova-iorquina viu a sua popularidade e presença pública a crescer: das salas escuras espalhadas pela cidade chegaram ao grande público através de programas de televisão, revistas e outros meios. Ao aparecer em programas de televisão como The Joan Rivers Show, Geraldo e The Phil Donahue Show, o grupo foi ganhando popularidade e impulsionou um movimento de jovens a experimentar e a desafiar os padrões da corrente dominante. Desta forma, a influência dos Club Kids rapidamente ultrapassou os limites de Nova Iorque. À medida que a sua presença na esfera pública crescia, aumentava também o número de admiradores. Assim, jovens ao redor dos Estados Unidos convergiram para as discotecas de Nova Iorque a fim de encontrarem uma forma de expressar a sua criatividade.
Entre as várias tendências e estilos que os Club Kids anteciparam, segundo Melissa Marra em Fashion Underground: The World of Susanne Bartsch, o grupo acabou por ficar intimamente associado a uma "estética juvenil e infantil, expressa no vestuário através do uso de tiaras, uniformes escolares, vestidos baby doll e lancheiras". No entanto, em constante inovação e mutação — e à medida que os looks se tornavam cada vez mais extremistas, "muitas vezes no limite do grotesco, recorrendo a piercings faciais e maquilhagem excessiva" —, a sua imagem evoluiu para incluir referências ao sadomasoquismo e à estética cyberpunk. Tudo, e absolutamente tudo, podia ser de rigueur. De acordo com Marra, em 1994, nas coleções de designers como Jean Paul Gaultier, Donna Karan, Helmut Lang, Jil Sander, Stephen Sprouse e Xuly-Bet surgem referências claras aos Club Kids. Além disso, Marra explora também como Calvin Klein recorreu a esta comunidade — inicialmente underground — para desenvolver a campanha publicitária do seu perfume CK One. "No célebre anúncio da sua fragrância, na década de 1990, Klein escolheu um grupo de jovens com piercings e seminus como modelos, e convidou os consumidores a usar o perfume unissexo para se tornarem "iniciados nesse grupo seleto, mesmo que os seus pais não permitam que tenha um piercing no nariz"", explica a autora. Adicionalmente, em 1995, o designer escolheu a Club Kid Jenny Dembrow para fazer parte da campanha de primavera da Calvin Klein Jeans.
Atualmente, a influência dos Club Kids continua a atravessar as coleções apresentadas nas principais Semanas da Moda ao redor do mundo. Uma das casas onde essa herança é mais evidente é na Moschino na era de Jeremy Scott, cujas coleções subvertem a norma e satirizam a cultura de consumo. Como explica Marra, "os seus designs, tanto para a marca homónima como para a Moschino, abraçam a cultura pop e evocam regularmente o espírito jovem e o entusiasmo da club culture dos anos 90, que alimentaram a sua criatividade".

Coleção ready-to-wear primavera/verão 2022 da Moschino por Jeremy Scott.
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Fast forward para os dias de hoje, no centro de Lisboa, ao caminhar pelas ruas do Cais do Sodré, cruzamo-nos com um grupo de amigos vestidos a rigor, a brincar com os conceitos da Moda e a interagir com a roupa tal como faziam os antigos Club Kids. O legado mantém-se vivo. E, quem sabe, talvez estejamos perante aquele que poderá vir a ser o próximo porta-voz de uma cultura que, de inerte, nada tem.
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