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Entrevistas 23. 1. 2020

Por que não conseguimos parar de usar Gifs?

by Joana Moreira

 

Nada expressa melhor a sensação de constrangimento como um Homer Simpson a desaparecer nos arbustos. Os GIFs infiltraram-se nas nossas conversas, e invadiram o nosso cérebro substituindo a pergunta “será esta a palavra certa?” por “será este o GIF certo?” Alex Chung, cofundador e CEO do Giphy, uma das maiores bases de dados e motor de busca de imagens animadas do mundo, passou por Lisboa a propósito da Web Summit. A Vogue falou com ele sobre esta nova forma de comunicar. 

 

Visto de fora, trabalhar com GIFs soa incrivelmente divertido. Basicamente, aguardo que me diga que isto é completamente falso e que não é assim tão incrível. (risos) Está totalmente errada. Acho que é uma questão de atitude, é possível ficar aborrecido e stressado, mas no final do dia, de facto, só estamos a trabalhar com GIFs, ninguém vai morrer. Tentamos dizer às pessoas [na empresa] que não precisam de se stressar, há trabalhos mais sérios no mundo. 

Quantos GIFs utiliza por dia? Só num dia? 

Ou nem sequer usa palavras e só usa GIFs? Não, mas creio que em cada e-mail que envio uso sempre um GIF, por isso dependendo de quantos e-mails e mensagens enviar por dia, não sei, mas diria que uso provavelmente entre 10 a 50. Eu uso muitos, confesso. 

via GIPHY

Hoje parece evidente que os GIFs se tornaram quase num formato de comunicação próprio. Qual foi a inspiração para criar o Giphy, e começar a indexar este tipo de conteúdo? Bem, estava desempregado (risos). A história é a seguinte: os GIFs estavam a começar a aparecer e eu e o meu amigo estávamos a falar de como esta nova linguagem estava a surgir, e de como as pessoas estavam a imprimir diferentes tipos de expressões e emoções através deste formato, mas que não havia nenhuma maneira de os encontrar, a Google ainda não o tinha feito. Então, durante o verão, criei um motor de busca para pesquisar todos os GIFs para que pudéssemos partilhá-los. Era só uma coisa divertida, experimental, e para tentar perceber se haveria uma forma de catalogar esta nova maneira de nos expressarmos. Isso, e depois ver o que as pessoas fariam com isso. Mas não era suposto ter chegado tão longe. Era simplesmente uma coisa divertida.

Diria que um GIF é uma evolução de um emoji, que evoluiu de um smile? Sim, isso está literalmente nas nossas apresentações (risos). É como pensar em amor, depois escrever coração, depois usar o emoji de coração e depois o GIF. A diferença é que só há uns mil emojis, e provavelmente só alguns relacionados com amor, mas nós temos possivelmente um milhão de GIFs só sobre amor. Ou seja, há um número infinito de formas de expressar amor. Em inglês só temos uma palavra, algumas línguas têm várias palavras, dependendo se se trata de amor zangado ou amor feliz (risos). Ou amor difícil. Mas nos GIFs podemos retirar um momento de amor de qualquer filme, ou de qualquer momento no mundo ou da cultura pop que já tenhamos visto, e podemos representar esse tipo de amor. O que se fez foi pegar na base de uma palavra e expandir a linguagem multi- plicando-a por toda a história da cultura. Acho que uma pessoa, em média, usa diariamente qualquer coisa como duas mil palavras, e o dicionário inglês tem cerca de 80 mil palavras, mas nós [Giphy] temos centenas de milhões de GIFs. Ou seja, podemo-nos expressar em mais formas do que qualquer língua escrita alguma vez poderá.  

via GIPHY

Isso eleva a nossa capacidade, enquanto seres humanos, de nos expressarmos? Sim. Até porque há muitas nuances. Sabemos que o alemão tem todas estas palavras para estas coisas absurdas, e o francês tem uma palavra para cem coisas, e por vezes ter o contexto é muito difícil. Usar um meio visual como linguagem dá-nos a possibilidade de ser o mais alemão dos alemães, em que podemos dizer as coisas mais loucas de que nunca nos lembraríamos. 

Como é que os GIFs mudaram a forma como comunicamos? Isso é algo que estou ansioso para ver como acontece. As pessoas costumavam dizer “oh!, os GIFs vão desaparecer, ou morrer” e desde que entrámos no mundo das mensagens passaram-se sete anos. Isto não se vai embora, aliás, ver que o nosso público começou muito novo, mas que hoje há pessoas de 60 e 70 anos que usam GIFs, e que o número de utilizadores continua a subir... Não acho que vamos voltar a ver um mundo em que as pessoas não usam imagens visuais em movimento para comunicar. E acho que isso é bom, porque agora somos capazes de utilizar partes da nossa cultura, e das notícias, e do entretenimento, e de tudo o que se passa no mundo, e comunicar com isso! O que também cria outra ligação com a sociedade. Não vejo esta questão, de usar cultura e media como uma forma de comunicar, a ir-se embora alguma vez. Acho que só vai ficar cada vez mais interessante. O conteúdo vai crescer mais e mais, vai ser um ciclo de evolução. 

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Muitos GIFs têm palavras, mas muitos deles não. A comunicação não verbal permite também esta ponte entre culturas e pessoas que falam diferentes línguas? Sim, claro, é como alguns filmes em que não precisamos de legendas, certo? E, às vezes, usamos palavras só porque são “parte de alguma coisa”, ou porque queremos frisar algo, ou queremos dizer especificamente um sentimento. Mas a maioria dos GIFs não têm palavras e todos os percebemos porque somos todos humanos e todos somos iguais, pensamos da mesma forma, sentimos da mesma forma. O cinema foi a primeira forma de expressão para mostrar isso visualmente, universalmente para todos, por isso acho que a maioria dos GIFs que vão surgir, se forem bons GIFs, serão também universais. É como qualquer palavra, mas com a exceção de que algumas culturas têm palavras que não se podem traduzir. Mas posso expressar isso através desta imagem, deste filme, e alguém vai perceber. Não precisa de ser traduzido. 

O que é que perdemos quando escolhemos um GIF em detrimento de uma palavra? Acho que não perdemos nada. Só do ponto de vista de informação, uma palavra tem alguns bytes de informação e um GIF vai ter alguns megabytes de informação, por isso há, desde logo, uma magnitude três ou quatro vezes superior no que diz respeito a isso. Posso enviar a mesma palavra enquanto imagem em movimento, em GIF, e enviá-la desenhada. Contudo, acho que as palavras têm um lugar, um contexto histórico, e há uma ambiguidade nas palavras que acho que às vezes se se está à procura dessa ambiguidade... 

Ela pode-se perder num GIF. Sim, porque os GIFs são mais específicos. Podem ser mais ambíguos, mas muitas línguas, por exemplo, têm palavras como “coisas” (como no inglês, things), que podem ser qualquer coisa, e às vezes não queremos mesmo ser específicos. Como quando as pessoas nos perguntam como estamos e dizemos “estou bem”, mas “bem” pode ser “estou bem” ou “estou bem!!”, ou até “estou mesmo bem!”. E às vezes não queremos dar assim tantos detalhes. Por isso acho que as palavras são uma boa forma de esconder os sentimentos e que os GIFs, por exemplo, expõem isso um bocadinho mais. 

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O Giphy é um motor de busca. Trocando por miúdos, é como um dicionário não de palavras, mas de imagens em movimento? Diria que o Giphy é um dicionário da expressão humana e dos sentimentos e do que estamos a pensar, onde existam palavras ou não. É a interseção entre imagens em movimento, palavras e como tudo isso se mistura. Por isso temos uma série de GIFs que não têm palavras, é um novo vocabulário, mas também temos outros GIFs que são mais do que imagens em movimento, que são outra coisa. Temos texto animado que as pessoas usam. Porque é que haveríamos de usar texto animado em vez de simplesmente escrever a palavra? Porque a cor, o tamanho, a fonte, e todas essas coisas adicionam mais informação à forma como comunicamos. Por isso, em quantas mais formas nós comunicarmos com outras pessoas, melhor o mundo vai ser. Os GIFs podem parecer tontos, mas são só um passo numa evolução da forma como comunicamos uns com os outros. 

O que é que é mais pesquisado no Giphy? Ficaria surpreendida, mas o top de pesquisas é quase sempre sobre amor.

As pessoas gostam de amor. Sim, e isso é inspirador. O amor está sempre no topo das pesquisas. E “olá”. Aliás, “bom dia” e outras saudações. E gatos também estão sempre lá, claro. Mas, normalmente, os termos que mais pesquisamos são partes normais da conversação. Quando começamos uma conversa e dizemos “olá”, “como estás”, “estou bem”, “estou com fome”, “feliz”, “estou a fazer isto”, “não adoro isto”... E depois [há muitas pesquisas sobre] entretenimento desportivo, por isso muitos dos nossos termos de pesquisa são eventos noticiosos, o que está a acontecer no mundo, o que as pessoas querem ver e partilhar com os amigos.

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Uma coisa facilmente observável é a reação de quem recebe um GIF. Quase sempre há um sorriso. Alguma vez vos interessou ver o impacto nos GIFs na disposição das pessoas? Sim, vemos isso várias vezes. Aliás, nos primeiros anos [da Giphy] recolhemos informação sobre que GIFs as pessoas estavam a enviar e, primeiro que tudo, a primeira coisa que as pessoas estavam a fazer com GIFs era comédia. A comédia é a coisa mais universal, por isso é óbvio que os primeiros GIFs são todos sobre comédia. Piadas é algo fácil. São curtas, fáceis. Mas, à medida que as pessoas vão ficando mais sofisticadas, acabamos por nos mover da comédia para o drama, para as ideias, sentimentos. Por isso acho que nos primeiros tempos foi comédia, mas aguardo para ver quando é que vai chegar a tragédia (risos). Quando os GIFs trágicos começarem a acontecer, é nessa altura que saberemos que os GIFs se tornaram na sua própria linguagem. 

Outro aspeto que distingue os GIFs é o facto de quebrarem a barreira da formalidade. Sim, porque também é uma forma de mostrar personalidade, ou seja, estamos a ligar-nos a um nível emocional versus só texto ou mesmo à experiência de um email. Acho que vamos ver uma grande evolução nesse sentido. Quando estamos a falar com pessoas queremos ser entretidos. Sermos capazes de colocar entretenimento na nossa comunicação é o primeiro passo para ter uma conversa perfeita. 

E é também uma forma de quebrar o gelo. Sim, é como contar uma piada. É como se conseguíssemos pegar em todas as piadas do mundo e enviar uma a alguém para começar uma conversa. Por exemplo, nós [Giphy] trabalhamos com o Tinder [uma aplicação de encontros românticos] e sabemos que a taxa de resposta numa conversa é 50% superior se a abordagem inicial da conversa começar com um GIF. E a conversa dura 30% mais. Porque automaticamente percebemos a personalidade da pessoa. E toda a gente quer ser entretida. É muito fácil entreter alguém e mostrar a personalidade com o GIF certo. 

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