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Notícias 18. 6. 2020

Precisamos de incluir as pessoas trans e não-binárias quando falamos do período

by Sophie Wilson

 

Os tweets recentes de JK Rowling levantaram um novo debate em torno da igualdade de tratamento entre as pessoas que menstruam. Explorámos a razão pelas quais as barreiras de género devem ser derrubadas quando se trata de menstruação e como incluir a comunidade trans+ na conversa.

© Instagram.com/emmycoletti

Em março de 2018, JK Rowling gostou de um tweet que descrevia as mulheres trans como “homens em vestidos”. A 6 de junho de 2020, Rowling regressou ao Twitter, e aos seus 14.5 milhões de seguidores, para responder à frase “pessoas que menstruam”. A autora escreveu: “pessoas que menstruam." 'Tenho a certeza de que costumava haver uma palavra que definia essas pessoas. Alguém me ajude. Wumben? Wimpund? Woomud?'"

Os utilizadores do Twitter, assim como a estrela dos filmes de Harry Potter, Daniel Radcliffe, reagiram de imediato, destacando que os homens trans e as pessoas não-binárias também tinham o período e que nem todas as mulheres menstruam. Ativistas como o C, também conhecido como The Period Prince, têm vindo a fazer campanhas para tornar as conversas sobre menstruação mais inclusivas. C é masculino não-binário, mas optou por não tomar hormonas e, por isso, continua a menstruar.

Foi em 2017, que foi partilhada uma fotografia em que apareciam sentados num banco e com sangue visível entre as pernas, divulgando a hashtag #BleedingWhileTrans. Em conversa por telefone com a Vogue, C explica a importância da linguagem na eliminação do estigma da menstruação em pessoas trans e não-binárias, enunciando que “a pequena mensagem é importante. Toda a linguagem que relacionamos aos períodos não está definida. Não tens de viver a tua vida de acordo com as definições que outra pessoa inventou.” 

 
 
 
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Estabelecer limites e quebrar barreiras

Como é que começamos a quebrar estas barreiras altamente marcadas por género? Olhando para a questão de uma perspetiva estrutural, C diz que “precisamos de começar pela educação, para que as pessoas compreendam que não têm de ser mulheres só porque têm o período menstrual”.

“Ter de ir comprar produtos e passar por baixo daquela placa que diz higiene feminina nunca me fez sentir bem.” acrescenta C. “Quando tive o período pela primeira vez, senti que tinha de começar a fazer um papel numa peça para todos, uma peça em que não queria estar. Parecia a peça de um puzzle que estava sempre a partir-se”.

A linguagem é apenas um aspeto na luta pela igualdade de períodos. Há desafios práticos que também precisam de ser superados. As pessoas que utilizam as casas de banho públicas dos homens, e que têm os seus períodos menstruais, não têm acesso a contentores higiénicos ou a dispensores. “Se eu for a um restaurante e se tiver com o período, com um aspeto bastante masculino e com um grupo de amigos todos homens nesse dia, não posso entrar na casa de banho das mulheres e mudar o tampão”, conta Kai Wes, artista e ativista não-binária. “O que é que faço então? Tenho de ir embora."

Na maior parte das vezes, a casa de banhos dos homens também só tem, se é que tem, um cubículo individual, pelo que a privacidade que se requer para mudar um tampão nem sempre está disponível. “Sem dúvida que já mantive um tampão durante demasiado tempo e arrisquei-me a sofrer um choque tóxico,” acrescenta Wes. “As pessoas morrem por causa disso. A questão é que as pessoas simplesmente não pensam nisto porque ninguém quer falar sobre isso”.

Existem maneiras de tornar a segurança e o conforto relacionados com o período mais acessíveis para a comunidade trans e não-binária. No entanto, para que as pessoas compreendam que é necessário tornar os espaços mais acessíveis, a representação é vital. É raro encontrar um site ou ver um anúncio de publicidade com modelos que não são mulheres cis. Em março de 2018, Kenny Ethan Jones tornou-se no primeiro homem trans à frente de uma campanha, quando apareceu num vídeo promocional para a Pink Parcel, expondo que apesar da sua experiência menstrual ser diferente da maioria, a mesma não deve ser apagada. Em resposta aos tweets de Rowlling, Jones escreveu: “Como um homem trans negro que defende a igualdade de género dentro do espaço do período, estou indignado por teres escolhido agora, no auge do movimento Black Lives Mater, para seres transfóbica."

 
 
 
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“Não acredito que muitas, se é que algumas, pessoas tenham considerado, quando participei na campanha Pink Parcel, que os homens trans, os indivíduos não-binários e os indivíduos intersexo tinham os seus períodos,” conta Jones à Vogue. Desde então, algumas empresas mais pequenas têm seguido o exemplo. A empresa canadiana Lunapads fabrica “produtos para o período e para todos os organismos.” Destacam regularmente os modelos trans e gender-nonconforming, e vendem boxer-brief, roupa interior para o período. “Sinto que somos vistos muito mais agora, mas somos definitivamente uma reflexão posterior,” avança Jones. “Compreendo e reconheço perfeitamente que a maioria das pessoas que têm o período são mulheres, mas ao excluir a minha comunidade estão, por defeito, a apagar a nossa experiência”.

Experiência universal

Os comentários de Rowling seguem o mesmo argumento dos grupos de exclusão trans. Isto é, que ao incluir a comunidade trans nas conversas sobre períodos, está-se a excluir as mulheres cis. Gabby Edlin, cofundadora da organização de caridade Bloody Good Period, diz que “as pessoas falam de inclusão trans apagando as mulheres, mas eu nunca me senti apagada em nenhum dos trabalhos que faço quando incluo pessoas trans”. Ver símbolos femininos e design em produtos para o período, não é como me sinto enquanto uma mulher”.

Julia Ehrt, porta-voz da Associação Internacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Trans e Intersex (ILGA), concorda [com Gabby Edlin], dizendo: “Eu penso que não retira nada às mulheres, mas beneficia realmente os homens trans. Então, porque não? Tem havido um certo nível de oposição por parte dos grupos [trans-exclusionary] de mulheres mas, afinal de contas, será que acreditam realmente que a inclusão das pessoas trans retira algo às mulheres? Não me parece”.

Charlie Allan, youtuber, influenciador e trans, sugere que tornar os produtos para o período mais acessíveis para a comunidade trans não tem tanto a ver com a questão da embalagem, mas com a questão de normalizar o facto de que os homens compram estes produtos, independentemente de serem trans ou cis. “As pessoas pensam que os homens não podem comprar os produtos para o período, o que é ridículo, quer o próprio homem esteja no período menstrual ou não,” diz Allan à Vogue. “Um marido ou um pai cis deve poder comprar tampões. Não se trata apenas de uma coisa trans. Se o fizerem especificamente como se fossem apenas pessoas trans a comprá-los, então vamos sentir-nos desconfortáveis porque não são apenas os homens trans que o fazem. Se se tornasse evidente que todos os homens compram [produtos para o período] por qualquer razão, então isso provavelmente faria com que as pessoas trans se sentissem mais seguras”.

As celebrações do Pride podem não estar a acontecer no seu formato habitual este ano, devido à Covid-19, mas este mês continua a ser uma oportunidade para que pessoas queer, de todo o lado, se possam juntar em solidariedade. A retórica de Rowling, de que as pessoas trans estão, de alguma forma, a retirar os diretos às lésbicas e aos homossexuais cisgéneros, tenta dividir a comunidade queer no preciso momento em que a mesma deveria estar unida - especialmente quando o orgulho começou por pessoas de cor e trans.

A linguagem que usamos para falar de períodos é importante e há várias formas de continuar a implementar mensagens a todos os níveis. “No final das contas, tudo se resume à educação. Eduque os seus amigos, eduque as pessoas à sua volta, eduque a sua família. Nem sequer é preciso fazer nada exteriormente. Pense nisso e mude a maneira de como está a enquadrar na sua própria mente,” conclui C.

À medida que caminhamos para a eliminação da pobreza do período, para a melhoria do acesso aos produtos do período e para a eliminação dos tabus, é importante que consideremos todas estas experiências diversas, porque não existe apenas uma maneira de se ter o período.

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