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Perda gestacional ou neonatal: um luto não reconhecido

05 Mar 2021
By Mathilde Misciagna

“A de aborto”, um projeto onde se partilham testemunhos reais sobre esta particular interrupção abrupta da gravidez, para que nenhuma mulher se sinta sozinha e para que se dê mais um passo na eliminação do tabu.

A de aborto, um projeto onde se partilham testemunhos reais sobre esta particular interrupção abrupta da gravidez, para que nenhuma mulher se sinta sozinha e para que se dê mais um passo na eliminação do tabu.

“Nós, mulheres, somos únicas e complexas, cada uma com a sua particularidade, cada uma com os seus medos e angústias, certezas que são desconstruídas com novas experiências, desilusões e concretizações muito pessoais. Ao mesmo tempo, somos iguais, sentimos as coisas de maneiras muito parecidas, sentimos empatia umas pelas outras e, mais do que tudo, amor.” É com estas palavras que Sara Santos e Filipa Pereira começam o primeiro post da recém-criada página no Instagram @aaborto - concebida com o intuito de partilhar testemunhos de qualquer mulher que tenha tido uma perda gestacional ou neonatal, contar histórias de esperança e divulgar informações acerca desde tema pouco discutido na esfera pública.

No nosso país, as lacunas em torno da perda gestacional têm início nas instituições hospitalares e no sistema governamental, onde estas instituições estão inseridas. Os dados estatísticos existentes no que se refere a perdas até às 22 semanas de gestação (considerados clinicamente abortos espontâneos) estão inseridos no Relatório anual de Análise das Complicações Relacionadas com a Interrupções da Gravidez e muitos hospitais nem respondem aos pedidos da DGS de divulgação dos números. Nas instituições hospitalares não é prática comum a disponibilização do serviço de psicologia a estes casais, muitas vezes o mesmo é apenas disponibilizado em casos de perda no 3º trimestre, e mesmo assim leva meses a verificar-se o início do acompanhamento. Para além disto, nem sempre a notícia é dada a estes pais da forma mais humanizada, e é em muitos casos, principalmente nas perdas de 1º trimestre, desvalorizada a perda deste bebé por parte dos técnicos de saúde.

Instagram @aaborto

A perda gestacional ou neonatal interrompe abruptamente a construção de sonhos e significados e traz um forte impacto para aqueles que estão envolvidos emocionalmente na vivência da conceção de um bebé. Sofrer este tipo de perda pode dar origem ao luto, um processo natural e esperado perante a quebra de vínculos. O vínculo entre uma mãe e um bebé começa a construir-se assim que esta toma conhecimento da gravidez e é fortalecido através de sensações, imaginação, mudanças, planos e expectativas. Desde o primeiro segundo, desde um teste positivo. Quando esses sonhos são interrompidos, tudo se torna de repente confuso, turvo, desorganizado. É comum sentir tristeza, medo, culpa, raiva, frustração, solidão, entre tantas outras emoções. Todas elas válidas. O luto por essas perdas vem acompanhado de um desafio específico: a falta de espaço e autorização da parte da sociedade para expressar a dor. Um “luto não reconhecido”, um dos lutos mais complexos e com menos validação social. 

São muitas as mulheres que relatam experiências onde se sentem incompreendidas e até inadequadas na sua própria dor. Nem sempre de forma consciente, os profissionais de saúde e/ou pessoas à sua volta acabam por dizer ou agir de maneira a tentar suprimir o sofrimento e afastar o tema da morte das suas vidas. Essa clara falta de empatia e aceitação social para sentir e viver a perda podem representar um fator de risco para a elaboração do luto dessas mulheres. Enquanto sociedade devemos procurar o conhecimento e aprender a desenvolver um olhar humanizado em relação à perda. Dividir experiências com outras pessoas que passaram pela mesma situação ajuda a mulher a encontrar um espaço para sentir e expressar a sua dor, reorganizar sentimentos e construir novos significados para a perda. “Ser mãe é mais do que dar à luz. Ser mãe é amar mesmo de colo vazio.” (Sandra Cunha, Presidente da Associação Projecto Artémis)

Instagram @aaborto

A Vogue falou com Filipa Pereira e Sara Santos, as autoras desta página que oferece o tão necessário acolhimento emocional a todas as mulheres. 

Em que é que consiste exatamente a página @aaborto e como funciona?

O A de Aborto é um projeto acabado de nascer, criado com o objetivo de as mulheres partilharem, anonimamente ou não, as suas histórias de perdas gestacionais ou neonatais. O propósito é que encontrem um lugar de intimidade e entreajuda, assim como de esperança no futuro. Além disso, este projeto também pretende fornecer informações importantes - com vídeos, principalmente - relacionadas com o tema da gravidez e aborto e desmistificar alguns conceitos que possam ser dúbios ou pouco discutidos. Semanalmente, publicamos ilustrações da Luciana Lusquiños, que pretendem retratar os sentimentos das mulheres que passam por estas experiências. Queremos, sobretudo, criar uma plataforma onde qualquer mulher se sinta à vontade para partilhar as suas angústias e incertezas, bem como as suas conquistas.

Como surgiu a ideia para este projeto e qual a sua missão? 

A ideia surgiu depois de uma de nós ter tido um aborto espontâneo e de, na altura, ter sentido que não havida nada, criado em Portugal, 100% dedicado à partilha da perda. Algo que, a nosso ver, é essencial, já que esta é uma realidade que não escolhe idades, muitas vezes surge sem motivo aparente e, acima de tudo, é vivida por cada uma de nós de forma muito semelhante, com os mesmos medos e inseguranças. Achamos que, ao partilharmos testemunhos de mulheres que tenham tido perdas, estamos a caminhar para um debate aberto sobre o tema, bem como a "dar a mão" a alguém que o tenha vivido. A missão é simples: contribuir para que nenhuma mulher ou casal que passe por isso se sinta sozinho. 

Que iniciativas é que já existiam e de que forma é que sentem que o @aaborto vem preencher uma lacuna?

Encontrámos algumas páginas portuguesas acerca do tema, mas nunca nos cruzámos com um projeto que tivesse tão explicitamente testemunhos na primeira pessoa, quase como se houvesse vergonha de estas experiências serem partilhadas. Escolhemos lançar o projeto no Instagram porque é uma plataforma mais direta e que chega, mais facilmente, a muitas pessoas.

E como tem sido o feedback?

Desde o dia do lançamento do projeto que o feedback tem sido muito positivo: recebemos mensagens de várias mulheres que nos dizem que o tema do aborto é, realmente e infelizmente, ainda tabu e que esta página permite desconstruir o assunto e falar dele de forma mais "natural", sem se perder toda a carga - emocional e física - que ele envolve. Muitas delas identificaram-se com os testemunhos que leram e transmitiram-nos essa mensagem, o que é ótimo, porque sentem-se compreendidas e apoiadas e, para as que não tiveram filhos ainda, alguns dos testemunhos transmitem força e esperança. Mas também recebemos feedback de homens, que nos falaram sobre a importância de um projeto como estes, para eles próprios perceberem melhor o processo físico e psicológico por que as mulheres passam durante e após um aborto ou perda gestacional. 

Como é que se sentem quando leem os testemunhos que vos chegam? Há similitudes entre eles?  

Sara: Para mim, que nunca passei por uma experiência de aborto ou perda gestacional, tem sido duro. Emociono-me com cada história que recebemos e sinto-me sempre incomodada por saber que aquela mulher passou por um momento tão complicado. Por outro lado, tenho percebido que os sentimentos das mulheres que passam por uma situação destas são muito similares - culpa, muita culpa, medo, ansiedade, impotência e uma infelicidade extrema -, tenham elas sofrido um, dois ou cinco abortos ou até mesmo já sendo mães de um ou dois filhos. Ao mesmo tempo, sinto que todas estas mulheres têm uma coragem e força gigantes e saber que partilharam as suas histórias connosco, mesmo entre lágrimas e sofrimento por relembrarem esses tempos, é uma honra imensa para nós.

Filipa: Tendo já tido um aborto, esta tem sido uma experiência que contribui, de certa forma, para cicatrizar a ferida. Apercebo-me que a maioria das pessoas sentiu o mesmo que eu e consigo identificar-me muito com algumas histórias que nos enviam. Não num mau sentido. Claro que ler o que nos enviam me deixa bastante sensibilizada, mas não consigo deixar de me focar no facto de tantas histórias acabarem bem. Acho que esse é o "truque": dirigirmos a nossa atenção para o número de pessoas que vivem este trauma e que, sem nunca o superarem por completo, seguem em frente e acabam por conseguir ter uma ou mais gravidezes saudáveis. Para toda a mulher que tenha o desejo de ser mãe e que tenha tido uma perda, testemunhar que há mesmo um arco-íris depois da tempestade dá-nos a esperança necessária para não deixarmos de tentar.

Mathilde Misciagna By Mathilde Misciagna

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