Magdalena Havlickova fotografada por Marek Micanek, com realização de Jan Kralicek, para a edição Words da Vogue Portugal, publicado em abril de 2018.
Vivemos num mundo que as pessoas aceleram tudo (e todos), sob o objetivo de não estarem presentes na vida real.
Viver com pressa: quando o multitasking se torna um obstáculo
Ouvimos um podcast enquanto passeamos, respondemos a uma mensagem durante uma conversa, consultamos o e-mail enquanto esperamos pelo metro e vemos uma série com o telemóvel na mão. Fazer várias coisas ao mesmo tempo tornou-se quase uma marca distintiva do nosso modo de vida. O paradoxo é que, quanto mais tentamos aproveitar cada minuto, mais frequente é a sensação de que os dias passam demasiado depressa e de que custa lembrar-nos do que realmente fizemos durante a semana.
Não é propriamente uma contradição de pouco interesse. Vivemos numa época em que nunca tivemos tantas ferramentas para poupar tempo e, ao mesmo tempo, cada vez mais pessoas sentem que mal conseguem aproveitá-lo. A atenção tornou-se um dos recursos mais disputados do quotidiano e isso levanta uma questão interessante: que consequências tem para o nosso cérebro ao vivermos permanentemente distraídos?
Durante muito tempo, associamos o multitasking à eficiência: responder a um e-mail enquanto ouvimos uma reunião ou aproveitar um passeio para pôr-nos em dia com um podcast e parecia a melhor forma de tirar o máximo partido do dia. No entanto, a psicologia cognitiva vem, há anos, a desmontar essa ideia. Mais do que fazer várias coisas ao mesmo tempo, o cérebro alterna continuamente entre uma tarefa e outra, e esse esforço tem um custo.
A professora e investigadora Gloria Mark, uma das maiores especialistas mundiais no estudo da atenção, explica no seu livro Attention Span, que cada mudança de foco implica um esforço cognitivo adicional. Ou seja, sempre que deixamos de escrever um relatório para responder a uma notificação, temos de recomeçar uma pequena parte do trabalho mental necessário para nos concentrarmos. A consequência nem sempre é evidente no momento, mas torna-se evidente no final do dia: cansaço, sensação de saturação e a impressão de termos estado ocupados durante horas sem termos realmente aprofundado nada.
Talvez seja por isso que muitas pessoas sentem que já não conseguem ler um livro durante meia hora seguida ou manter uma conversa sem olhar para o telemóvel várias vezes. Não necessariamente porque tenham perdido a capacidade de concentração, mas porque o cérebro se habituou a funcionar com mudanças constantes de estímulos. O que antes era uma interrupção pontual tornou-se a forma habitual de prestar atenção.
A atenção também constrói a nossa memória
Quando pensamos na memória, costumamos imaginá-la como um grande arquivo onde são armazenadas as nossas experiências. No entanto, recordar depende muito menos da quantidade de coisas que vivemos do que da atenção que prestamos enquanto elas acontecem.
O neurocientista Mariano Sigman explica, em A Vida Secreta da Mente, que a atenção funciona como uma porta de entrada para a memória. Aquilo a que não prestamos verdadeira atenção dificilmente se consolidará como uma recordação duradoura. Por outras palavras: não nos lembramos de tudo o que vivemos, mas sim daquilo que o nosso cérebro considera suficientemente importante para o processar.
Esta ideia ajuda a compreender uma sensação muito comum: a impressão de que o tempo passa cada vez mais depressa. Costumamos atribuí-la apenas à idade, mas a forma como prestamos atenção também tem muito a ver com isso. Quando os dias passam a responder a mensagens, a saltar de uma tarefa para outra e a consumir estímulos quase sem pausa, os dias acabam por se parecer demasiado uns com os outros. O cérebro gera menos memórias diferenciadas e, quando olhamos para trás, essa fase parece ter passado num piscar de olhos.
Em contrapartida, as experiências novas, as conversas longas, uma viagem, uma refeição sem interrupções ou mesmo um passeio prestando atenção ao que nos rodeia geram memórias muito mais ricas. Não porque durem mais tempo, mas porque estivemos realmente presentes enquanto elas aconteciam.
A economia da atenção
É difícil falar de distração sem mencionar um conceito que surge cada vez com mais frequência: a economia da atenção. Durante anos, pensámos que as grandes empresas tecnológicas competiam pelo nosso tempo. Hoje sabemos que competem, acima de tudo, pela nossa atenção. Cada notificação, cada vídeo que começa automaticamente ou cada conteúdo concebido para que continuemos a deslizar o ecrã responde a um mesmo objetivo: fazer com que permaneçamos conectados durante mais alguns minutos.
Isso não significa que a tecnologia seja o problema. Seria uma conclusão demasiado simples. O problema surge quando deixamos de decidir conscientemente onde queremos concentrar a nossa atenção e começamos a delegar essa decisão em algoritmos concebidos precisamente para a captar.
Vivemos convencidos de que podemos responder a uma mensagem sem deixar de ouvir quem está à nossa frente ou consultar uma notificação sem interromper uma conversa. No entanto, a psicologia há anos que demonstra que essas pequenas mudanças de foco também afetam a qualidade das nossas relações. Estar fisicamente presente já não significa, necessariamente, estar realmente disponível.
O custo emocional de viver com pressa
Para além da concentração ou da produtividade, existe outra consequência de que se fala muito menos: o impacto emocional de viver permanentemente estimulado. O psicólogo Rafa Guerrero vem explicando há anos que o cérebro precisa de alternar momentos de ativação com períodos de descanso para regular corretamente a atenção, as emoções e a aprendizagem. Quando todo o nosso tempo é ocupado por estímulos, notificações ou tarefas pendentes, desaparecem esses pequenos momentos de pausa que permitem integrar o que vivemos, processar emoções ou simplesmente pensar.
Talvez seja por isso que muitas pessoas sentem hoje uma necessidade crescente de recuperar atividades aparentemente improdutivas: ler sem interrupções, passear sem auscultadores, cozinhar com calma ou dedicar uma tarde inteira a uma conversa. Não se trata de nostalgia nem de rejeitar a tecnologia, mas sim de recuperar espaços onde a atenção possa descansar.
Curiosamente, alguns dos momentos de maior criatividade surgem precisamente quando deixamos de fazer coisas. Numerosos estudos sobre o funcionamento do cérebro mostram que o chamado modo por defeito — a rede neuronial que se ativa quando a mente divaga — desempenha um papel fundamental na criatividade, no planeamento ou na resolução de problemas. Por outras palavras, aborrecer-se de vez em quando não é uma perda de tempo; pode ser uma necessidade do nosso cérebro.
E se a vida lenta não fosse apenas uma tendência?
Nos últimos anos, conceitos como o slow living, a desconexão digital ou mesmo o prazer de perder coisas deixaram de ser tendências minoritárias para se tornarem parte integrante do debate público. São frequentemente apresentados como uma questão estética: mesas cuidadosamente postas, pequenos-almoços sem pressa ou fins de semana no campo. No entanto, por trás desse fenómeno, existe provavelmente uma explicação muito mais profunda.
O filósofo Byung-Chul Han vem alertando há anos, na obra A Sociedade do Cansaço, que vivemos imersos numa cultura que identifica o valor pessoal com o desempenho constante. A hiperatividade deixa de ser uma circunstância para se tornar uma forma de identidade. Descansar gera culpa. Não fazer nada parece um fracasso. E a capacidade de parar começa a ser vista quase como um luxo.
Talvez seja por isso a vida lenta não deva ser entendida como uma moda, mas sim como uma resposta. Não significa renunciar ao trabalho, à tecnologia ou à produtividade. Significa recuperar a possibilidade de escolher quando queremos estar disponíveis e quando não queremos. Poder ler um capítulo de um livro sem consultar o telemóvel, manter uma conversa sem interrupções ou caminhar sem sentir a necessidade de preencher cada silêncio com um novo estímulo.
No fundo, a questão vai muito além dos ecrãs. Trata-se de como queremos viver o nosso tempo e da relação que mantemos com ele. Porque a atenção não determina apenas aquilo em que pensamos, mas também aquilo de que nos lembraremos daqui a alguns anos. Talvez o verdadeiro problema não seja o facto de a vida passar demasiado depressa. Talvez o problema seja que passámos tanto tempo a tentar estar em todo o lado ao mesmo tempo que nos esquecemos do que significa estar plenamente num único lugar.
Traduzido do original, disponível aqui.
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