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Entrevistas 22. 6. 2020

Maria Leite: “Não existem ainda condições para exercer esta profissão a longo prazo”

by Rui Matos

 

Aproveitámos a estreia do mais recente trabalho cinematográfico de Maria Leite para conversarmos com a atriz.

“Desde quando é que ter um só trabalho serve para sobreviver?” Esta é uma das primeiras linhas de Telma, a personagem que Maria Leite interpreta no filme Os Tradutores, de Régis Roinsard. Numa analogia face à realidade atual do mundo, e em particular da cultura em Portugal, como é que a atriz olha para esta interrogação? “Sinto que esta frase do guião corresponde à realidade e é triste constatar isto”, responde-nos Maria, via email. Maria Leite cresceu no Algarve, mas a paixão pela comunicação e pela imagem trouxeram-na até Lisboa, onde estudou Ciências da Comunicação na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. No entanto, foi no palco do grupo de teatro da universidade que o bichinho pela representação se cimentou - uma paixão que tinha despoletado anos antes, nas tardes que passava em Loulé a requisitar filmes. 

O casting d’Os Tradutores foi anunciado em fevereiro de 2018 e Maria Leite vigorava entre alguns dos nomes já estabelecidos do cinema europeu, como Olga Kurylenko, Riccardo Scamarcio e Lambert Wilson. Mas até Roinsard encontrar a tradutora portuguesa que precisava para esta longa, percorreu um longo caminho - em França não havia nenhuma atriz que lhe enchesse as medidas, e em Portugal não havia nenhuma atriz que fosse a Telma que havia idealizado. “Quando apareceu a Maria Leite, disse logo: ‘É ela, é absolutamente ela que quero para este papel.’ A Maria é uma grande atriz, alguém muito feminista e politicamente ativa. Isso interessava-me muito para a personagem que ela interpreta no filme,” contou o realizador ao site C7nema.

N’Os Tradutores, Maria dá vida a Telma, uma das nove tradutoras contratada para traduzir o último livro de uma trilogia mega-famosa. Mas o trabalho de sonho rapidamente se transforma num pesadelo quando os primeiros capítulos dessa obra aparecem online. Quem é o culpado? Esta é a grande questão. 

Maria Leite tem uma visão muito realista do que é ser artista em Portugal, um país que não olha para a cultura com olhos de ver. Apesar de todas as dificuldades que o setor pode enfrentar, é com carinho que a atriz fala da sua paixão, mas não vale a pena esperar que Maria se transforme numa atriz/influencer, como a própria afirma, mais à frente na nossa conversa: “Para isso prefiro fazer outra coisa.” 

Para interpretar Telma, a Maria teve que rapar o cabelo, furar as orelhas e fazer ginásio. Como foi preparar esta personagem? 
A composição da minha personagem é o resultado de meses de trabalho de vários departamentos do filme. A minha personagem tinha, desde o início, uma personalidade vincada que já vinha escrita assim. Foi a partir do guião que os vários departamentos trabalharam na pré-produção. A Telma foi escrita e a direção de arte compôs a partir do que estava escrito. Nos ensaios juntei esses elementos e impliquei-me no papel, com os outros atores, e foi a ensaiar com o Régis (Roinsard, o nosso realizador) que fomos descobrindo em conjunto a maneira de estar e de interpretar de cada um. 

Considera que o processo criativo de uma personagem consegue ser tão estimulante como dar vida a uma personagem assim que se ouve “ação”? 
O processo criativo de uma personagem só termina quando o filme está pronto a estrear, quando está terminada a pós-produção. O tratamento (pós-produção) que é dado ao som e à cor contribui para o universo do filme, e logo também da personagem. O que acontece entre o ação e o corta é uma parte muito pequena do processo todo, em que há uma atenção pela parte de toda a equipa que triplica, um profundo estado de alerta, ligados por um objetivo comum - fazer o melhor possível para não estragar o take e eventualmente fazê-lo de forma que comunique, que funcione o melhor possível, que esteja em consonância com o universo criado. Esse clima de atenção é poderoso, mas não sinto que seja mais estimulante do que a forma como todas as fases do processo se interligam no que resulta no filme final. 

Como é que foi trabalhar com nomes como Lambert Wilson, Olga Kurylenko e Ricardo Scamarcio? 
Tive o privilégio de trabalhar com pessoas, não com nomes. Toda a equipa era altamente qualificada e de uma grande generosidade. Havia sempre alguém disposto a conversar sobre cinema e a partilhar diferentes pontos de vista sobre ver e fazer cinema.

"O medo do desemprego é uma constante, mesmo quando estamos a trabalhar."

Já afirmou por diversas vezes, em entrevistas, que o glamour que tanto se associa à vida de um artista em Portugal é um mito. Como é de facto a vida de uma atriz em Portugal?  
Não me sinto habilitada para falar em nome de toda a classe profissional ou para fazer um retrato representativo, muito menos assumir que sei como é de verdade a vida de uma atriz em Portugal. As nossas situações são todas atípicas porque perante o desemprego, cada um vai-se desenrascando como pode e nisso com mais ou menos dificuldade, preocupação e medo. O medo do desemprego é uma constante, mesmo quando estamos a trabalhar. As rodagens terminam. Os espetáculos têm carreiras que chegam ao fim. O próximo trabalho pode chegar daí a dois ou três meses, se estivermos a atravessar uma boa fase na nossa carreira. Tudo a recibo verde, sem proteção social digna. Por enquanto e que eu saiba, só os Teatros Nacionais têm capacidade para contratar atores. Existem dois teatros nacionais em Portugal, façam as contas. Por enquanto tenho o privilégio de ser uma assalariada do Teatro Nacional São João, enquanto atriz do elenco "quase" residente. E a seguir? Voltem a entrevistar-me daqui a um ou dois anos. Poderei estar a exercer outra atividade, mas não enquanto montra publicitária nas redes sociais. Para isso prefiro fazer outra coisa.

Como é que se olha para o futuro da cultura em Portugal?
Há vários grupos de trabalho a pensar o presente e o futuro da cultura em Portugal neste momento, nomeadamente o sindicato CENA/STE ou a Ação Cooperativista que estão a fazer um trabalho no qual me revejo e que subscrevo, na exigência de tomada de medidas a curto prazo, como a criação de um verdadeiro fundo de emergência social até ao levantamento de todas as normas de condicionamento da atividade profissional para todos os trabalhadores do setor, bem como a defesa do estatuto de intermitência, que me permitiria perspetivar o futuro profissional de forma mais constante e consistente. 

Políticas culturais, aplicação de um código laboral… O que é que pode ser feito para que a cultura, e todos os intervenientes, em Portugal possam evoluir e, acima de tudo, terem uma segurança?
A lei de intermitência em França data de 1936, para o setor do cinema. Passado algum tempo alastrou-se a outras áreas da cultura. Estamos em Portugal, no ano de 2020. São quantas décadas, ao todo? 

 

De que forma é que acha que a Europa olha para a indústria do cinema em Portugal? 
Não tive contacto com uma impressão generalizada que resumisse uma opinião unívoca sobre a nossa indústria de cinema, mas fiquei com impressão de que é apreciada em todo o seu espectro e variedade, cada pessoa com quem falei sobre cinema português (e foram várias) tinha uma opinião e um gosto diferente.

Trocar ideias com outros atores é um estímulo para continuar esta jornada como atriz? 
Neste momento faço parte do elenco "quase" residente do Teatro Nacional São João, onde trabalho com uma equipa de pessoas que estimo e que me fazem sentir diariamente que fiz a escolha certa. Tenho tido a sorte de trabalhar com várias pessoas que me fazem sentir isso.  

"Existe uma narrativa desinformada de que a nossa profissão é um trabalho tão espetacular, tão maravilhoso, que temos sorte e devíamos ficar calados quando temos trabalho."

É atriz há uma década, é com otimismo que olha para o seu futuro nas artes em Portugal, ou quem sabe além-fronteiras? 
Considero que não existem ainda condições para exercer esta profissão a longo prazo sem um sacrifício que não estou disposta a fazer. Quando falo de sacrifício, falo dos meus direitos. Existe uma narrativa desinformada de que a nossa profissão é um trabalho tão espetacular, tão maravilhoso, que temos sorte e devíamos ficar calados quando temos trabalho, seja lá ele em que condições for. É um argumento que não nos respeita enquanto cidadãos com direitos e deveres iguais. Sem intermitência não há futuro. 

Desde muito jovem que a Maria gosta de ler e neste filme a literatura tem um papel importante. Quais foram os livros que lhe fizeram companhia nestes últimos tempos. O confinamento foi bom para pôr a leitura em dia?
Por acaso não li grande coisa. Tenho lido mais notícias do que outra coisa. No contexto do serviço educativo do TNSJ, fizemos várias leituras encenadas durante o confinamento, uma delas d'A Morte de Ivan Illich, de Lev Tolstoi. Mais recentemente, reli a Declaração Universal dos Direitos Humanos e as Lições de Sobrevivência, um texto para cena de Mickaël de Oliveira.  

O que é que vem a seguir no percurso da Maria?
Vou continuar em cena com o espetáculo Castro, uma produção do TNSJ, encenada pelo Nuno Cardoso que estava em digressão antes da pandemia. No ecrã, aguardo a estreia de uma longa-metragem em que trabalhei recentemente, chamada Mar Infinito escrita e realizada pelo Carlos Amaral e produzida pela Bando à Parte (ainda não tem data de estreia anunciada).

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