Editorial Pantone: Rainbow Nonsense, da edição Nonsense da Vogue Portugal, publicada em julho 2021.
Esqueça tudo o que lhe ensinaram sobre combinar padrões. Das passerelles de outono/inverno 2026 às regras que realmente importam, a arte do "pattern clashing" está ao alcance de todos os que se atrevem.
Durante décadas, vivi sob a ditadura do pandã. Se tivesse sapatos castanhos, castanho teria obrigatoriamente de ser o cinto. A carteira, se existisse, agradecia-se na mesma tonalidade, e Deus nos livre de um relógio com uma bracelete preta. Cores e padrões eram remetidos aos seus pares na melhor das hipóteses, mais frequentemente ainda eram condenados ao isolamento, rodeados por um mar de tons neutros. A tendência opressiva resumia-se a uma só palavra: harmonia. Azul com azul, flores com flores, riscas com riscas. O bom gosto era quase sempre sinónimo de contenção, e qualquer desvio dessa cartilha era visto como um acidente de percurso, um deslize estético ou, pior ainda, um sinal de falta de educação visual. Depois, como acontece ciclicamente na Moda, alguém decidiu colocar a única questão que verdadeiramente interessa: e se fizéssemos precisamente o contrário? Afinal, por que razão haveria um estampado floral de passar a vida inteira fechado na companhia de outros florais? Porque não apresentá-lo a um xadrez escocês, a uma risca diplomática ou até a um leopardo suficientemente seguro de si para não se sentir ameaçado? O pattern clashing nasce de insubordinação.
Ninguém nas passerelles de outono/inverno 2026 mostrou tanta proficiência para a arte de misturar padrões como Dries Van Noten — como seria de esperar. O legado da marca, baseado na justaposição da ornamentação oriental e num minimalismo belga, é, em grande parte, responsável pela popularização do pattern clashing. Para a sua terceira coleção feminina na direção da marca, Julian Klausner volta a provar a sua aptitude para a extensão da linguagem visual. Sobre o tema de memórias de infância e o ato inevitável de crescer, florais, jacquards, grafismos e riscas coexistem. Convém, no entanto, não confundir liberdade com a anarquia. Misturar padrões continua a ser um exercício de composição, muito mais próximo da decoração de interiores do que da matemática. Basta entrar numa casa verdadeiramente vivida para perceber que flores, riscas, tapeçarias orientais e porcelanas chinesas convivem em perfeita paz há séculos, sem que ninguém sinta necessidade de pintar tudo de branco para "equilibrar". A elegância nunca esteve na ausência de informação visual; esteve sempre na forma como essa informação é organizada. Dois padrões são quase sempre mais interessantes do que três. Não por uma questão de puritanismo visual, mas porque toda a boa composição precisa de espaço para respirar. Quando um estampado dialoga com outro, o olhar encontra um percurso. Quando aparece um terceiro interlocutor demasiado exuberante, a conversa arrisca transformar-se num jantar onde todos falam ao mesmo tempo. Claro que existem exceções — e a Moda vive delas —, mas convém lembrar que a edição continua a ser uma das formas mais sofisticadas de criatividade.
Há depois duas maneiras muito distintas de construir este diálogo. A primeira procura a coesão. Os padrões podem ser diferentes, mas partilham uma paleta cromática ou pertencem à mesma família visual. Um floral pequeno encontra um floral ampliado; riscas grossas convivem com riscas finas; diferentes animal prints aproximam-se através dos mesmos castanhos ou dourados. É uma exuberância organizada, profundamente italiana, onde o excesso nunca abdica da elegância. Roberto Cavalli é a referência. A segunda estratégia é misturar padrões com escalas diferentes. Paisleys mínimos e florais gigantes, tartan mini e leopardo maxi. As proporções enganam o olho. De longe, a mistura parece menos caótica, a ilusão é apenas revelada quando nos aproximamos. Nesta arte, Meryll Rogge é a mestre: na sua primeira coleção para a Marni, riscas mínimas em degradê são sobrepostas a florais metálicos.
Há um último detalhe que raramente merece atenção. Os estampados foram feitos para se moverem. Ganham vida quando caminhamos, quando o tecido ondula, quando uma manga acompanha um gesto ou uma saia reage ao vento. Demasiada estrutura pode tornar qualquer combinação pesada, quase rígida, como se os padrões estivessem presos uns aos outros. O movimento cria distância, suaviza contrastes e permite que cada elemento encontre o seu lugar. Algumas das melhores combinações parecem banais num cabide e extraordinárias numa pessoa. Por mais que argumente a favor, bem sei que o pandã nunca desaparecerá verdadeiramente. Continuará a existir quem procure sapatos para combinar com o cinto e almofadas para combinar com o sofá. E não há mal nenhum nisso, tem o seu tempo e lugar. Mas há também um prazer quase infantil em descobrir que um floral pode apaixonar-se por um xadrez, ou que duas ideias aparentemente incompatíveis acabam por formar um casal improvavelmente feliz.
Originalmente publicado no The Patterns Issue, na edição de setembro de 2026 da Vogue Portugal, disponível aqui.
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