Beleza  

A cara da minha vizinha é melhor que a minha: o impacto dos padrões de beleza

05 Oct 2026
By Rita Petrone

Editorial Memórias Enganosas, da edição Luxo da Vogue Portugal, publicada em maio de 2018.

Cobiçar faz parte da experiência humana. Pertencer também. Já a Beleza sempre nutriu uma propensão para a homogeneidade — da mítica regra dourada às feições que cada vez mais se fazem sentir como um fenómeno de copy paste. Mas o que é que acontece quando juntamos questões de autoestima a este mix? Criam-se padrões de beleza, silenciosos mas implacáveis.

“Espelho meu, espelho meu...” Não é preciso entoar a pergunta que se segue para o cérebro perceber o rumo que tem de tomar. A lengalenga está tão enraizada em nós que conseguimos completá-la quase em modo de autofill. Afinal, é embalados neste mantra mental que começam grande parte dos episódios da série Aventuras da Beleza, durante os quais dissecamos cada detalhe da nossa figura ao espelho. Aprender a lidar com o nosso reflexo é, hoje, algo tão intrínseco à experiência humana como dar os primeiros passos ou aprender o abecedário. Mas saber aceitar as nossas feições é outra história — uma que tem pano para mangas. Chegar a um consenso com a nossa aparência é a diferença entre olhar e ver. É um processo complexo; tornado cada vez mais difícil — e doloroso — devido à forma como somos bombardeados com referências idílicas e figuras cujo padrão é (quase) impossível de replicar.

Segundo um estudo de 2020 sobre imagem corporal, realizado pela Comissão para as Mulheres e a Igualdade do Parlamento do Reino Unido, mais de um terço dos adultos sente-se ansioso ou deprimido devido à sua aparência. Na mesma medida, quase metade considera que devia haver uma maior diversidade nos meios de comunicação social tradicionais. Pondo os pontos nos is, a maioria das pessoas tem uma perceção negativa da sua imagem e não se sente representada nas imagens que permeiam o seu dia a dia. Mas o problema começa cedo, tal como prova um relatório da Dove sobre autoestima e redes sociais, publicado em 2022. De acordo com estes dados, que exploram a realidade sentida por raparigas com idades compreendidas entre os 10 e os 17 anos, mais de 7 em cada 10 raparigas concordam que passar menos tempo nas redes sociais seria melhor para a sua autoestima, já que mais de metade das inquiridas afirma não se sentir à altura dos padrões de beleza projetados nas redes sociais. Em termos práticos, esta insegurança traduz-se no facto de 9 em cada 10 raparigas seguirem pelo menos uma conta que as faz sentir menos bonitas. Na infância e na adolescência, esta distância entre a beleza real e a que nos persegue no plano digital é particularmente perigosa. Nesta fase, “a identidade não se constrói em palavras abstratas, mas na pele”, diz-nos Francisca Silva Ferreira, psicóloga clínica e diretora clínica do Núcleo Casa.

“O corpo é a casa onde o jovem habita, a ponte através da qual corre, abraça e se dá a conhecer ao mundo. No entanto, quando os padrões de beleza se tornam fortalezas inalcançáveis, essa casa deixa de ser um porto seguro e transforma-se num território sob cerco”, explica. É um fenómeno silencioso, doloroso e tangível. “Quando a autoestima fica refém de uma imagem, o jovem perde a capacidade de se sentir inteiro”, continua a psicóloga. “Reduz o seu valor ao traço do rosto ou ao contorno da silhueta, calando a inteligência, a sensibilidade e a alegria que habitavam em si”. O resultado é um sentimento de inadequação extremo. A este cenário, seguem-se anos de dúvida constante, de planos caídos por terra — não vá alguém querer imortalizá-los com fotografias ou vídeos —, de dietas que substituem água por nutrientes ou nas quais as calorias são contadas a dedo. Cria-se uma sensação de solidão no espaço que a nossa mente habita, no cerne da nossa identidade. Instala-se uma fossa entre o eu que somos, o eu que nos olha de volta ao espelho e o eu que queremos, a todo o custo, ser, como se se tratassem de três entidades diferentes — distantes. Tudo isto acontece sem nunca se suspeitar que, talvez, não estejamos sozinhos neste barco. Que, como humanos que vivem em sociedade, raras são as experiências que se comprovam verdadeiramente únicas. Afinal, atire a primeira pedra quem nunca partilhou um ínfimo deste loop. 

''O corpo é a casa onde o jovem habita, a ponte através da qual corre, abraça e se dá a conhecer ao mundo. No entanto, quando os padrões de beleza se tornam fortalezas inalcançáveis, essa casa deixa de ser um porto seguro e transforma-se num território sob cerco.''

Francisca Silva Ferreira, psicóloga clínica e diretora clínica do Núcleo Casa

A Perturbação Dismórfica Corporal define-se como um ponto de rutura, durante o qual a relação com a própria imagem se torna gravemente fraturada. Neste ponto, como explica Silva Ferreira, deixamos de habitar o corpo a partir de dentro e tornamo-nos um mero observador, distante e implacável, de nós mesmos. Passamos a encarar a própria biologia como um objeto com defeito, algo que precisa de ser escondido, corrigido ou até punido. “O drama clínico deste abismo é que a intervenção médica altera a anatomia, mas nunca a alma”, continua a psicóloga. “A ilusão do alívio dura poucos dias e a obsessão rapidamente migra para outra falha, porque a ferida original nunca foi estética, foi de rejeição”. O Dr. Leandro Nobre Azevedo, especialista em cirurgia plástica reconstrutiva e estética, concorda: “[o principal risco da dismorfia corporal] é que nenhum procedimento será suficiente. A pessoa deixa de procurar harmonia e passa a procurar uma perfeição que simplesmente não existe”. Este tipo de pressão tem os seus alicerces na cultura de consumo contemporânea, que intensifica os olhares da sociedade e os afia de forma tóxica. O ato de consumir corpos e caras que se intitulam perfeitos é algo que vai muito para lá de apenas ver a sua imagem; como reflete Silva Ferreira, “converte essa comparação passiva num nó no estômago, num aperto no peito e numa insónia dolorosa, [fazendo sentir] no próprio corpo o peso da rejeição social”. Este tipo de quadro espelha-se, frequentemente, num isolamento profundo ou na prática exaustiva de exercício físico mas, quando nos jovens, o grande custo da padronização estética é o próprio roubo da infância. “A brincadeira espontânea, o chão sagrado onde a mente infantil aprende a ser livre, [é] trocada pela reprodução mecânica de rituais de beleza de adultos, antecipando em anos as ansiedades do mundo maduro”, avisa a psicóloga. “Saber quando a preocupação com a imagem ultrapassou a fronteira da vaidade e se tornou um cativeiro emocional exige um olhar atento”, continua. “A dor estética raramente se anuncia com gritos. Instala-se em silêncio na rotina”. 

Hoje, em plena era digital, vivemos uma altura em que qualquer tendência pode tornar-se viral em poucas horas, tal como o Dr. Nobre Azevedo explica. “O problema surge quando essas referências criam expectativas irrealistas. A anatomia, a qualidade da pele, a idade e o processo de envelhecimento são diferentes em cada pessoa”, conta-nos. Atualmente, somos confrontados com um algoritmo cuja função full time parece ser desenhar um molde único de feições. “Vivemos na era da estética algorítmica, uma beleza sem pátria, sem tempo e sem humanidade”, diz Silva Ferreira. É neste mundo perfeito, tingido a cor de rosa e onde nem diferenças nem dores são um fator a considerar, que vive o epítome da beleza padronizada. “A riqueza da diversidade humana, com as suas assimetrias e singularidades que contam histórias, está a ser apagada para dar lugar a uma assustadora homogeneização”, confessa a psicóloga. Muitas destas imagens consideradas ideais, por mais irrealistas que sejam, chegam-nos de quem tornou a esfera pública o seu habitat natural. “Quando [as figuras públicas] exibem corpos esculpidos e rostos perfeitos sob a bandeira de uma beleza natural e sem esforço — ao mesmo tempo que escondem cirurgias, harmonizações e filtros pesados — estão a lançar [particularmente] sobre os jovens, uma pesada capa de culpa”, continua. “O adolescente assume a responsabilidade pela sua própria inadequação, pensando que, se a figura pública consegue ser perfeita apenas a treinar e a beber água, o problema reside na sua própria falta de força de vontade”. Esta banalização de procedimentos estéticos invasivos feitos em idades cada vez mais precoces vende promessas de pertença condicional, assente na alteração física ao invés de no trabalho psicológico. As redes sociais multiplicam e quantificam a dor que nasce do sentimento de inadequação, criando uma realidade em que “o valor do ser humano é medido e exposto em algoritmos através do número dos gostos, das partilhas e dos comentários”, diz Silva Ferreira.

Por um lado, tornámo-nos o nosso pior inimigo: deixámos de nos comparar ao que nos chega por via de conteúdo que consumimos para nos compararmos ao nosso próprio fantasma digitalizado – que é como quem diz, uma versão otimizada de nós mesmos.

Já a chegada da inteligência artificial deu origem a toda uma nova camada de preocupações no que diz respeito ao desfasamento da imagem real da imagem idealizada de cada um de nós. Hoje em dia, é mais fácil do que nunca olhar para um ecrã e ver refletida uma versão otimizada das nossas feições. “Os filtros e as edições criaram um espelho enganador que roubou a nossa referência do real”, afirma a psicóloga. É inevitável, este tipo de ferramentas está à mera distância de um clique. “O drama acontece quando o ecrã se apaga e o espelho real devolve a imagem verdadeira, surgindo um sentimento de estranheza e repulsa, como se a pele com textura, o cansaço nos olhos e a luz natural fossem falhas imperdoáveis”, continua. “Ao eliminar linhas de expressão e assimetrias, estas ferramentas ensinam o cérebro a rejeitar a própria humanidade, fazendo com que o rosto deixe de ser lido como um veículo de emoção para ser julgado como uma superfície plástica”. É tal e qual aquela sensação de quando o telemóvel inverte as selfies tiradas com a câmara frontal; quando, por uns segundos, antes de revertermos as fotografia ao seu estado original, questionamos se será mesmo assim que as pessoas nos veem na vida real, mas elevada ao extremo. Por um lado, tornámo-nos o nosso pior inimigo: deixámos de nos comparar ao que nos chega por via do conteúdo que consumimos para nos compararmos ao nosso próprio fantasma digitalizado — que é como quem diz, uma versão otimizada de nós mesmos. Mas, como explica a psicóloga, a inteligência artificial não inventa novos sonhos; funciona como um buraco negro que se alimenta de todas as imagens que já criámos, elevando os nossos preconceitos e obsessões ao seu auge. “O seu grande perigo é que edifica uma perfeição fria e matemática que não pertence à biologia humana”, diz. “A IA desenha corpos que não respiram, peles que não reagem ao sol e olhos com uma simetria irreal”, continua. “A devolução ao corpo biológico torna-se um choque devastador”. Além disso, é uma ferramenta que aplica e prioriza traços eurocêntricos, transmitindo a mensagem implícita de que as singularidades de cada origem étnica são um defeito a corrigir. 

Entre ecrãs e tardes passadas em frente ao espelho, para muitos, após longos períodos permeados por um sentimento de inadequação e procura por mudança, o destino final é a medicina estética. Como partilha o Dr. Nobre Azevedo, “tornou-se muito mais frequente receber pacientes que chegam com fotografias retiradas das redes sociais ou fortemente editadas”. “A IA veio intensificar esse fenómeno, porque cria rostos praticamente perfeitos, mas que, muitas vezes, não são anatomicamente possíveis”. O especialista em cirurgia plástica reconstrutiva e estética explica que os padrões de beleza estão cada vez mais uniformes, e que estamos perante uma tendência que prima por rostos muito semelhantes entre si: lábios excessivamente volumosos, maçãs do rosto muito projetadas e contornos extremamente definidos. Mas o caminho para chegar a esse ideal nem sempre é feito da mesma forma, quase que em resposta à complexidade da beleza e da indústria que gira à sua volta. Em consultório, os pedidos que chegam ao cirurgião variam bastante consoante a idade: “nos mais jovens, predominam os procedimentos preventivos e pequenas harmonizações faciais. A partir dos 40 anos, aumenta a procura por tratamentos que combatam a flacidez facial, o envelhecimento do pescoço, das pálpebras e do contorno mandibular”, diz-nos. “Já na cirurgia corporal, continuam a ser muito procuradas a cirurgia mamária, a lipoaspiração e a abdominoplastia, sobretudo após a gravidez ou grandes perdas de peso”.     

''A boa cirurgia plástica é intemporal (...) uma cirurgia bem conseguida não é aquela que transforma alguém, é a que faz com que a pessoa se sinta melhor consigo própria, mantendo aquilo que a torna única.''

Dr. Leandro Nobre Azevedo, especialista em cirurgia plástica reconstrutiva e estética

Dar o primeiro passo no mundo da medicina estética é — quando um estado mental deteriorado o dita — entrar num rabbit hole de decisões e mudanças irreversíveis. Perante este quadro, o resultado nem sempre é o esperado, servindo apenas como uma espécie de penso rápido para questões mais profundas. “As tendências passam”, reitera o Dr. Nobre Azevedo, “mas uma cirurgia pode acompanhar-nos para toda a vida. Quando alguém toma decisões apenas porque determinado formato de rosto, lábios ou corpo está na moda, corre o risco de se arrepender alguns anos depois”. Mas, ao fim do túnel, começa a ser visível uma luz, ainda que ténue e no limiar de penumbra. “Noto uma mudança positiva”, conta o médico, que esclarece que cada vez mais pessoas procuram resultados discretos e naturais. Atualmente, “os pacientes mais satisfeitos não são os que mais mudam, mas os que continuam a reconhecer-se ao espelho”. Um equilíbrio saudável, que assegura o direito à mudança ao mesmo tempo que afirma a importância de estabelecer limites dentro da própria identidade (e da procura pela mesma). “A boa cirurgia plástica é intemporal”, explica, “(...) uma cirurgia bem conseguida não é aquela que transforma alguém, é a que faz com que a pessoa se sinta melhor consigo própria, mantendo aquilo que a torna única”. Afinal, é preciso relembrar que a medicina estética é, no seu cerne, uma área médica, e não um serviço de consumo imediato — e, por vezes, insistir em tratamentos pode ser uma emenda pior que o soneto. 

O nosso corpo é o nosso refúgio mais íntimo, e deve assumir-se e ser visto como tal. É nele que habitamos, é através dele que conquistamos sonhos e é nele que eternizamos memórias. Nos casos onde existe uma clara rutura da relação que mantemos com ele, “o caminho da cura não passa por impor um amor estético forçado, mas sim por promover a naturalidade corporal, lembrando que o corpo não é uma escultura feita para apreciação do mundo, mas sim o veículo sagrado que nos permite viver, pensar, criar e sentir”, afirma a psicóloga Silva Ferreira. Mas não é por isso que deixa de ser algo belo, por pleno direito. No fundo, trata-se de assumir que a beleza e a perfeição não precisam de andar a par e passo — já que a perfeição vive num plano abstrato, inconstante e impossível de definir. No fim, fica apenas a certeza de que é algo a retirar da equação. Até porque, tal como conclui o Dr. Nobre Azevedo, a beleza é, acima de tudo e independentemente das contas feitas, uma questão de identidade.

Originalmente publicado no The Patterns Issue, a edição de setembro de 2026 da Vogue Portugal, disponível aqui.

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