Prada SS27
Depois de estreias e promessas de reinvenção, primavera/verão 2027 encontra as grandes casas italianas num momento menos interessado em começar de novo e mais preocupado em continuidade.
Numa indústria tão obcecada com o novo, há qualquer coisa de reconfortante quando uma Semana da Moda decide não começar por uma revolução. Milão abriu a temporada com uma pergunta aparentemente simples: o que acontece quando tiramos as calças? Prada respondeu com 63 saias. Por toda a cidade, primavera/verão 2027 revelou uma curiosidade semelhante por aquilo que a Moda passou nos últimos anos a tratar como secundário: a roupa. Vestir-se. O prazer quase antiquado de uma peça que não precisa de um conceito explicado em comunicado de imprensa para justificar a sua existência. Depois de temporadas marcadas por estreias, despedidas, mudanças de cadeiras e promessas de reinvenção, as marcas italianas parecem finalmente ter chegado a um momento menos preocupado com a apresentação de uma nova identidade e mais interessado em descobrir o que acontece depois de essa identidade ser estabelecida.
Comecemos pela Jil Sander, onde Simone Bellotti apresenta a sua terceira coleção para a casa e, talvez por isso mesmo, começa a fazer uma pergunta mais interessante do que “o que é a sua Jil Sander?”. A questão agora é: quais os limites de uma linguagem definida pela restrição? O desfile abre com um vestido-casaco de pele preta, sem gola, severo e impecável. A alfaiataria segue, assim como as proporções controladas e uma paleta dominada por preto, cinzento e outros tons neutros. Quase subitamente, a perfeição começa a perder a compostura. Um casaco reúne-se de forma estranha na cintura, um blazer parece ter sido amarrotado e reconstruído, botões surgem onde não esperávamos encontrá-los e os colarinhos das camisas tornam-se demasiado grandes para as peças que os acompanham. Durante décadas, a precisão foi uma forma de diferenciação para a Jil Sander. Hoje, num mercado saturado de roupa minimalista, o rigor tornou-se quase uma norma. A resposta do designer é aquilo que descreve como algo “um pouco errado”: pequenas perturbações inseridas dentro de sistemas extremamente precisos.

Jil Sander SS27
Na Prada, a tese é relativamente simples, pode aliás ser reduzida a uma palavra: saias. Nos bastidores do desfile masculino de junho, Miuccia Prada confessou algo que rapidamente se transformou numa das frases mais discutidas da temporada: “I don’t wear jeans”. Três meses depois, a provocação ganha corpo. Ou melhor, ganha saia. Não há calças na primavera/verão 2027. Em vez delas, há 63 interpretações de uma peça que a codiretora criativa da marca já descreveu como sendo, para ela, equivalente a uma t-shirt: democrática, familiar. Aqui, a saia transforma-se num laboratório. Há saias curtas, compridas, transparentes, técnicas, plissadas, florais, quase arquitetónicas. Blusões de pele desgastada escondem bainhas femininas. Velcro funcional torna-se ornamentação. Cristais espalham-se como flores. Materiais fingem ser outros materiais. A peça é simultaneamente banal e estranha, familiar e completamente nova.

Prada SS27
A Gucci propõe uma ideia um pouco mais difícil de responder. Quantas primeiras coleções pode ter um diretor criativo? Uma hora antes do desfile, o diretor criativo da marca, Demna Gvasalia, publicou no Instagram uma proclamação que The Store Show seria a primeira coleção em que apresentaria a sua visão pessoal completa para a marca. Depois de La Famiglia, na pré-coleção de outono, e da coleção de outono/inverno 2026/27, esta primavera/verão é a sua terceira estreia. Esta estação, o designer baseia a coleção no seu cenário: uma loja Gucci. Se o cliente é uma parte fundamental da forma como Demna entende a Moda, então a loja torna-se o cenário lógico para estudar a relação entre Gucci e quem a compra. A coleção começa pela alfaiataria. Casacos cintados, camisas com colarinhos levantados, calças de corte impecável. Os house codes infiltram-se lentamente: horse bits, cintos que crescem até ocuparem a cintura inteira, referências equestres, pele, pêlo, padrões animais. O streetwear idiossincrático de Demna marca presença no formato de fatos de treino e hoodies oversized. Modelos com uma idade mais avançada evocam um glamour quase cinematográfico, enquanto modelos mais jovens aparecem em tweed, vestidos justos e enormes óculos de sol.

Gucci SS27
Na Bottega Veneta, Louise Trotter continua um exercício diferente. Se Demna está a descobrir até onde pode levar os códigos da Gucci, Trotter parece interessada em descobrir quanto movimento pode suportar a linguagem artesanal da Bottega. Na sua terceira estação, a designer britânica conduz uma investigação cada vez mais segura dos códigos históricos da Bottega Veneta, sobretudo quando esses simbolos são colocados em movimento. O intrecciato permanece, mas a sua materialidade é manipulada em malas de ráfia cujas franjas quase tocam o chão, nos nós rígidos aplicados a casacos azul-marinho e nos lenços que se dançam à volta da cintura. A seda ganha pregas enquanto a modelo caminha. As franjas deslocam-se. Os volumes expandem-se e contraem-se. Uma ideia consegue sobreviver à repetição? Consegue continuar interessante depois de deixar de ser novidade? Long story short, consegue sim.

Bottega Veneta SS27
Most popular
Chopard x Vogue Portugal: uma noite mágica na redação com a Torres Joalheiros
25 Sep 2026
Relacionados
