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Tendências 28. 1. 2020

Kintsugi, a perfeita imperfeição

by Sara Andrade

 

Já o leu algures, porque a Internet tratou de o espalhar, qual metáfora para corações partidos: se atirar um prato ao chão e depois colar os cacos, ele volta a ser o que era? A resposta é não. Mas o que o ciberespaço não elabora é que a peça – seja a loiça ou o seu sistema emocional – pode ficar melhor. Basta pôr um pouco de kintsugi na ferida.


Obra Translated Vase, 2016, com fragmentos de cerâmica, epoxy e folha de ouro de 24 quilates, Yeeksooyung. Fotografia: Yang Ian; cortesia Yeesookyung.

O kintsugi – ou kintsukuroi – é uma técnica japonesa de reparação de cerâmicas que colmata as falhas de uma peça cobrindo-as de resina misturada com pó de ouro, prata ou platina. Reza a história que foi o shogun japonês Ashikaga Yoshimasa (que reinou de 1449 a 1473 durante o período Muromachi do Japão) que devolveu à China uma danificada tigela de chá em porcelana chinesa, para ser reparada, e o que recebeu de volta foi uma peça reconstruída com inestéticos agrafos de metal. 

O desagrado foi tal que Yoshimasa pediu aos artesãos japoneses uma solução mais esteticamente aprazível de reparação, resultando nesta arte de “colar” fissuras com laca dourada. A popularidade foi tão exacerbada que alguns colecionadores foram acusados de quebrar cerâmicas de grande valor para que pudessem ser reparadas em modo kintsugi. A técnica, apesar da origem nipónica, pode ser aplicada a cerâmicas de berços diferentes, como China, Vietname, Coreia… e até ao mundo atual – de forma metafórica, claro, mas não menos poderosa em sentido.

"O kintsugi não é só uma técnica – é uma filosofia de vida que coloca as falhas não como defeitos, mas como fatores de evolução.”

Numa altura em que tanto se sublinha o respeito – e na edição de janeiro da Vogue que lhe dá primazia e honras de chamada de capa –, o processo do kintsugi encerra o simbolismo perfeito para o termo que serve de mote para esta edição, tanto quanto para o repto que os dias que correm exigem: ao recuperar peças partidas com um curativo em ouro, a técnica não está apenas a enfatizar as falhas de um objeto, destacando-as de forma bela, como está a passar a mensagem que os artigos não deixam de ter valor por estarem com defeitos de uso ou partidos, que há vida – e beleza – além das cicatrizes. 

Considerando que o séc. XXI, infelizmente, ainda tem mostrado casos de desrespeito para com minorias e comunidades não conformes com as normas sociais de outros tempos – da LGBTQIA+ à feminina, sem esquecer a população idosa e as de diferentes etnias –, esta técnica que chega do séc. XV vem trazer uma lição não só de igualdade ao planeta, mais de 500 anos depois, mas também de sustentabilidade, privilegiando a reutilização e reparação em detrimento do descartável. O kintsugi não é só uma técnica – é uma filosofia de vida que coloca as falhas não como defeitos, mas como fatores de evolução. 

É que ao unir fragmentos com este tipo de verniz polvilhado a ouro, restaurando a peça à sua forma original, mas transformando a sua estética para que evoque o desgaste que o tempo e a vida provocam sobre as coisas físicas, esta arte também versa sobre o valor das imperfeições e a mutabilidade da identidade, tornando-se uma referência à importância da resistência e até um testamento do valor próprio face às adversidades. 

Aliás, o processo de secagem no kintsugi é determinante, porque pode durar semanas, por vezes meses, até endurecer (tal como o ser humano leva o seu tempo para recuperar de mazelas físicas ou emocionais). Mas esse tempo é fulcral para garantir a coesão e durabilidade (tal como em nós), reforçando esta ideia de uma técnica que incentiva a resiliência com uma recompensa final: perceber que as cicatrizes nos tornam melhores (e aos outros) – um processo de aceitação que deveria ser mais corrente nos tempos que correm. 


Detalhe de obra na exposição Yeesookyung: Whisper Only to You no Museo e Real Bosco di Capodimonte, Nápoles, Itália. De 12 de outubro, 2019 
a 13 de janeiro, 2020. Foto Amedeo Benestante; cortesia do Ministero per i Beni e le Attività Culturali e del Turismo – Museo e Real Bosco di Capodimonte.

 

O mundo atual habituou-se a camuflar as fraquezas: seja através de um sorriso mascarado ou, principalmente, de um qualquer filtro de redes sociais, mostrar o lado perfeito tornou-se um modo de estar, discriminando as falhas como algo a erradicar. Ou seja, todos os preconceitos que condenamos na sociedade, e que passam pela intolerância e segregação, aplicamos à nossa própria maneira de conduzir a vida. Devíamos todos aprender um pouco de kintsugi para o aplicar na life in general, como se diz por essas redes sociais flawless.

Ou, então, aprender um pouco com Yeesookyung, a artista coreana que, não tendo sido inspirada pelo kintsugi, parece partilhar a sua filosofia. A escultora de Seul, nascida em 1963 e um nome proeminente das Artes desde a década de 90, começou um projeto em 2001 intitulado Translated Vase, inspirado nas jarras brancas da Dinastia Joseon (1932-1910) e no trabalho da ceramista italiana Ana Maria. 

O projeto evoluiu para novos contornos, em 2002, reinventando-se a cada série, e continua em vigor: “interesso-me muito por coisas que estão partidas, abandonadas, que falharam”, começa por explicar, sobre esta série em particular, à Vogue. “Porque acredito que é o ponto de partida, ou o nascimento de algo muito criativo. Uma porcelana tem um passo-a-passo deveras interessante do início ao fim e é transformada várias vezes ao longo do processo. Primeiro, a argila é misturada e moldada num torno. Depois, fica a secar e é cozida duas vezes no kiln [forno]. Quando sai, já se transformou num objeto totalmente diferente da argila original. Por isso, partir porcelana tem uma dimensão simbólica grande. Nesse momento, perde ao mesmo tempo a sua beleza e função, o que é uma espécie de morte para o objeto. Mas, depois, torna-se capaz de renascer e torna-se uma ótima matéria-prima para o meu projeto Translated Vase.

Sobre o processo, explica que, “primeiro que tudo, trago as peças de cerâmica partidas dos estúdios de cerâmica em I-cheon e Yeoju, na Coreia. Depois, lavo os cacos e separo-os de acordo com o seu formato. De seguida, tento encontrar um par para cada fragmento de forma a que se torne uma extensão desse pedaço, usando um adesivo, que é a resina de epoxy. Finalmente, cubro as fissuras com ouro de 24 quilates e pó de ouro.” Neste ponto, não seria de estranhar pensar que a técnica usada é a tal do kintsukuroi, mas Yeesookyung esclarece que, apesar de muitas vezes lhe perguntarem sobre isso, “particularmente os japoneses que se cruzam com o meu trabalho e estão familiarizados com esta técnica de reparação”, não foi esse o seu móbil. 

“Quando comecei o Translated Vase em 2000, o intercâmbio cultural entre o Japão e a Coreia não estava tão acentuado como atualmente – tal como acontecia com a Internet –, por isso não tinha nenhuma informação sobre esta técnica de reparação japonesa.”, esclarece. “Eu escolhi ouro porque, em coreano, a pronúncia da palavra que quer dizer ‘ouro’ e da palavra para ‘fissura’ é a mesma, ‘Geum’. São homónimas. É por isso que uso ouro para preencher as fissuras. Usar os cacos de jarras partidas era uma espécie de tabu, na cultura coreana, por isso resultou no ênfase de uma falha.”, remata, acrescentando que “uma peça partida de cerâmica encontra outra peça e apoiam-se uma na outra. E a brecha – ou ferida – é enfatizada com o dourado. Pessoalmente, espero que as pessoas encontrem a beleza das suas vidas através destas peças. Todos os dias, o meu trabalho aproxima-se mais de um processo de descoberta e menos sobre chegares a um determinado destino. Enquanto crio, o processo muda as minhas crenças e muda-me também. Eu trabalho de forma a aprofundar-me e para ser alguém diferente do que era ontem.” 

“Interesso-me muito por coisas que estão partidas, abandonadas, que falharam. (...) partir porcelana tem uma dimensão simbólica grande. Nesse momento, perde ao mesmo tempo a sua beleza e função, o que é uma espécie de morte para o objeto. Mas, depois, torna-se capaz de renascer (...)" - Yeesookyung.

Talvez a artista não se tenha inspirado no kintsugi, talvez a própria seja um resultado do kintsugi, ainda que inadvertidamente. Ou pelo menos, contribuiu largamente para sublinhar esta vertente de enfatizar falhas, preenchendo-as a ouro: “A série Translated Vase, que começou em 2002, resume-se a esculturas construídas a partir de fragmentos de cerâmica descartados. Há talentosos mestres ceramistas que reproduzem peças tradicionais de cerâmica coreana e, ao mínimo defeito, são destruídas para manter a raridade e valor das obras primas sobreviventes. Eu reconstruí estas peças destruídas como se fossem puzzles tridimensionais, cobrindo as zonas rachadas com ouro. Desde o momento da destruição, eu ganho a oportunidade de intervir e fabricar novas narrativas numa linguagem que é minha.”

Detalhe de obra na exposição Yeesookyung: Whisper Only to You no Museo e Real Bosco di Capodimonte, Nápoles, Itália. De 12 de outubro, 2019 a 13 de janeiro, 2020. Foto Amedeo Benestante; cortesia do Ministero per i Beni e le Attività Culturali e del Turismo – Museo e Real Bosco di Capodimonte.

 

A inspiração chegou-lhe depois de terminar uma exposição sobre a primeira versão do Translated Vase, a tal de 2001 que resultou de uma colaboração em que pediu a “Ana Maria, uma ceramista em Albisola, Itália, para fazer jarras ao estilo da Dinastia Joseon (1392-1910), depois de ler uma lenda sobre essas jarras e um poema descrevendo uma jarra branca da dinastia.” Conta-nos: “A acompanhar as diferentes fases da tradução para a minha linguagem artística, a noção da porcelana branca da Dinastia Joseon desmaterializou-se da jarra para o texto e foi depois traduzida, transformada, re-materializada e transformou-se numa representação das jarras. As dozes jarras, resultado do meu projeto, são híbridas tanto na forma como nas imagens à sua superfície. Elas estão interligadas com características tanto da cultura italiana como da cultura coreana.” E contrapõe que, ao início, falhou neste projeto, “exatamente porque imaginava uma determinada forma final.”

Agora, “não penso num propósito específico ou numa forma especial na qual quero transformar as jarras. Tento sempre focar-me no momento em que estou a criá-lo. E tento trabalhar com cada pedaço”, revela sobre a versão atual do Translated Vase (apenas um entre muitos dos projetos de um longo portefólio que vale a pena explorar e que encerra outros  merecedores de igual aplauso), que surgiu depois dessa exposição em 2001 terminar: “regressei à Coreia e visitei o estúdio de um mestre ceramista para saber mais sobre a porcelana branca Joseon. Durante a minha visita, pude observar a porcelana acabada, a sair do kiln a lenha. E percebi também que o mestre estudava com grande atenção e dedicação cada um, e depois partia mais de metade das porcelanas. Estava um dia luminoso e o som da cerâmica a partir ecoava no vale. Foi um momento muito dramático. O sol refletia nos cacos e brilhava de uma forma tão bela. Peguei nalguns pedaços para trazer de volta para o meu atelier e deixei-os na mesa. Por vezes, a única coisa que fazia era tocar neles. Um dia, dois dos cacos pareciam encaixar perfeitamente, como o tal puzzle. Esse acaso foi muito significante, serviu de rastilho à [atual] série Translated Vase.”

Além desta bonita coincidência entre o trabalho de Yeesookyung e o kintsugi, esta técnica toca também noutra filosofia japonesa que bate da melhor forma no que ao assunto do respeito diz respeito: wabi sabi é uma abordagem estética focada na aceitação da imperfeição e do que é efémero. Uma espécie de ensaio sobre a tolerância que se refere à prática do desapego, ao viver com a simplicidade, a insuficiência, num princípio que se rege pela perceção do belo enquanto aceitação da transitoriedade da vida. Esta arte de valorização da imperfeição remonta ao Japão do séc. XV (mesma altura da génese do kintsukuroi) e tem por base os ideais do zen-budismo (que também se entrelaça numa série de artes japonesas, entre elas a da cerâmica), numa filosofia que aprecia o despojamento. Num paralelismo com a atualidade, wabi sabi pode passar pela ideia do slow living, do desacelerar, da concentração no que importa e na preferência pelo natural, respeitando também os tempos do planeta.

Juntar esta ideologia à técnica do kintsugi (que, decretamos já, deve passar a vocábulo corriqueiro depois do hygge, lagom, ikigai e outros termos que são muito mais que os caracteres que os formam), e aplicar estas filosofias a um quotidiano que muitas vezes nos tira desnecessariamente do sério, é tudo o que o respeito, na sua aceção mais lata, quer dizer: respeito pelo envelhecer, pela bagagem de vida, pelas diferenças (afinal, todas as peças reparadas pelo kintsugi são inevitavelmente únicas e distintas), pela aceitação e pela tolerância. Restaurar o que quer que seja é anunciar que os danos contam uma história (tal como as rugas) e que enaltecê-los é tornar essa história ainda mais bonita. 

Talvez nunca tenha ouvido falar do kintsugi, mas se a frase de Leonard Cohen “There’s a crack in everything. That’s how the light gets in” faz algum tipo de ressonância, desconstruir o kintsukuroi à luz desta frase é dar uma dimensão totalmente diferente a ambas – tanto à arte, como à palavra. E tudo o que isso engloba – celebrar as diferenças, admirando-as como símbolo de superação, ao invés de ostracizá-las – só pode impor respeito.

 

Artigo originalmente publicado na edição de janeiro de 2020 da Vogue Portugal.

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