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Entrevistas 5. 4. 2021

A herança da criatividade

by Maria Nunes

 

Daciano da Costa descrevia o design como algo “efémero e teatral”. Mas a obra que deixou nada tem de efémera. A sua intemporalidade é por demais evidente. E a prova de que a criatividade pode ser um produto familiar está no Atelier Daciano da Costa. 

Inês Cottinelli © Estudio Peso 

Daciano da Costa (1930-2005),“pai do design português” , foi também pai de cinco filhas. Uma delas, Inês Cottinelli, está agora à frente do Atelier Daciano da Costa, que expõe e reedita peças originais do seu largo espólio, com o intuito de dar a conhecer o legado do artista. Arquiteto, “defensor militante do design”, professor, pintor, a sua obra tem uma importância que transcende fronteiras e que em muito contribuiu para criar “uma paisagem moderna em Portugal.” 

No território nacional, é possível encontrar a memória de Daciano em edifícios como a Fundação Calouste Gulbenkian ou o Centro Cultural de Belém. Também já chegou a Paris e está a caminho de Nova Iorque. Um mundo de possibilidades infinitas, deixado por um criador inigualável, que transmitiu o gosto pela curiosidade e o apreço pelo génio a toda a sua família. 

Em conversa com a Vogue, Inês Cottinelli assume que cresceu num mundo criativo, emotivo, cheio de cor. Hoje, trabalha para manter vivo o património do pai, e para inspirar as futuras gerações de criadores a superarem-se a si próprias. Tal como ele fez.

O seu pai dizia que “a arquitetura é para as pessoas viverem”. Qual a sua relação com esta definição? 

O historiador Rui Afonso Santos dizia que o trabalho do meu pai tinha uma consciência ética fortíssima e a noção de desempenho social. O meu pai via o design como um veículo de transformação social. Ele dizia que o design existia para mudar o mundo. Ele achava que os objetos só terminavam com o uso e a fruição de cada um de nós. A arquitetura era, para ele, a interdisciplinaridade entre o espaço exterior e o interior. 

Decidiu enveredar pelo mundo da arquitetura por influência direta do seu pai? Como estabeleceu a sua relação pessoal com esta área? 

Sou uma de cinco irmãs, e sou paisagista. Tinha uma relação de grande proximidade com o meu pai em temas que diziam respeito ao campo. E entrei em arquitetura paisagista justamente porque havia essa vontade do espaço exterior, da arquitetura da terra. Pus o pé na arquitetura sempre no sentido dessa relação com a paisagem. Todas as definições vêm de forma intuitiva e emotiva, não tanto racional. E tive a sorte de ter essa convivência natural e herança cultural. 

Cadeira Alvor, foto original do projeto Hotel Alvor de 1968

Como surge a vontade de continuar o legado do seu pai? 

Eu não concordava com a dissociação da sociedade sem antes “arrumar a casa.” Queria perceber se havia um novo rumo a dar àquela sociedade. Que era, apesar de tudo, uma referência e um nome do design português do século XX. E assumi a liderança de comunicar e valorizar a obra do meu pai. Registei a marca Daciano da Costa como marca de design, com a assinatura do meu pai. Comecei a perceber a sua obra muito mais em detalhe. Tenho vindo a conhecê-lo muito melhor desde que ele nos deixou e que comecei este projeto, em 2013. 

O que faz o Atelier Daciano da Costa?

Temos um espaço expositivo, um espaço de trabalho e um espaço para receber as pessoas. Este projeto passa pela área institucional, ou seja, explicar onde está a obra de Daciano. Era fundamental arrumar a obra. Alguma parte do arquivo já está classificada e disponível para quando preciso de a consultar. Depois foi necessário estabelecer e manter os contactos com as instituições que apostaram na obra de Daciano, como a Fundação Calouste Gulbenkian e o CCB. E a componente humana, as pessoas vão dando rumo e são essenciais para valorizar a obra. Estamos cá para ouvir, receber e perceber se é necessário recuperar, reparar, divulgar. A comunicação é a base. O meu pai trabalhou muito, tem uma obra extensíssima, mas a comunicação era zero. Estávamos na proporção inversa. 

Como vê esta experiência de influenciar outros artistas? 

Era essencial perceber como é que outros profissionais reinterpretam Daciano. Foi um fio condutor importantíssimo para o nosso projeto. Perceber que estes objetos podem viver noutros ambientes que não aqueles que foram projetados pelo Daciano. Ver peças do Daciano a povoarem os universos das pessoas é a componente afetiva e um dos motores deste projeto. Para as gerações mais novas, se eu não fizer esse trabalho de comunicação, não vão saber quem foi, nem a importância que teve. Há uma vontade de trazer esse universo de alunos e colaboradores para aqui. Queremos que seja um ambiente criativo e que seja inspirador para novas gerações de designers. Preciso de um veículo que me eternize o espólio, tem de viver por si só e tornar-se uma fundação. É um sonho que tenho. 

Foto original de projetos de mármores de 1964

Agora que a coleção de Daciano da Costa integra museus internacionais, o que espera para o futuro da obra de Daciano? 

Eu queria muito que a obra de Daciano estivesse em dois museus lá fora, que eram dois museus que o meu pai dizia que eram os museus de referência para ele. Eram o Centre Pompidou e o MOMA. E em 2015 entrou na coleção permanente do Pompidou. A entrada no MOMA foi adiada devido à pandemia, mas continuamos a trabalhar. Essa comunicação faz parte de uma lógica curatorial de comunicar com uma seriedade de não desvirtuar as intenções do autor sobre certa intervenção. Vamos continuar a melhorar o website e lançar a loja online. 

“Defendo que ensinar é um ato criativo”, afirmou o seu pai em 1998. Sendo a criatividade o tema desta edição, como é que a definiria? O que significa a criatividade para si? 

Criatividade é a ação mental e manual de criar qualquer coisa. Para mim a criatividade representa qualquer coisa espontânea. Teria de ser resultado de tudo aquilo que é a inspiração. A criatividade é o motor da nossa vida. Não é possível criatividade racional, eu não a entendo assim. No minuto em que se está a pensar que se tem de ser criativo, não se é. É uma atitude. 

O seu pai foi uma das pessoas mais criativas da sua geração. Como é que ele era enquanto pessoa criativa? Como era o seu processo de criação? 

O processo era completamente manual, era desenhar. Ele dizia que desenhar era a única forma de pensar. A sua inspiração eram as viagens, ele não tirava fotografias, ele usava o desenho como forma de ver. Desenhar trazia-lhe uma dimensão única. Ele dizia que as pessoas só podem fazer bem aquilo que fazem todos os dias. E tinha muito que trabalhar porque tinha uma família, isso também era um motor para o meu pai. A sua criatividade vinha dos dois lados. Acredito que ele começava por pensar no todo e não fazer uma dissociação do que eram as várias disciplinas. 

Cerâmicas Palace, desenho original de Daciano da Costa c.1970.

O seu pai incentivava o lado criativo em si? O que é que ele lhe ensinou? 

Raramente falava de si e do seu trabalho. Falava das suas viagens de trabalho, trazia-nos sempre recordações e objetos de artesanato que eram importantes para ele, e fazia-nos tocar uma cultura. Ele nunca impôs a arquitetura. Tivemos liberdade e autonomia. Crescemos com isso. A única vez que ele me disse não foi quando eu achava que ia ser escultora. Ele tinha medo que com essa escolha fosse mais difícil ser independente. Ele incentivava muito o lado criativo, mas também tinha essa cautela. Só tinha filhas e tinha essa preocupação de nos deixar com as ferramentas necessárias para sermos auto-suficientes e livres. Ele acreditava muito em nós, dizia que o mundo das mulheres era muito mais engraçado e criativo. 

Como é a sua relação com a criatividade, como é o seu processo criativo individual? 

Eu tinha vontade de juntar aquilo que pensava de escultura. Era uma coisa que fazia parte do meu dia a dia desde pequena. E era muito incentivada pelo pai, para essa manualidade. A forma de criar e a minha criatividade também vinham dessa ponte que estabeleci entre a arquitetura e a paisagem, porque não conseguia separar uma coisa da outra. Tinha essa vontade de criar espaços orgânicos. No entanto, também há a parte criativa de ser mãe. São várias as frentes criativas. 

Sente que de alguma forma tinha dificuldade em criar uma identidade artística própria, sem influências da sua família? 

Foi muito fácil criar a minha própria identidade. A procura do excecional pode resultar desastrosa, essa pressão de criar para ser excecional. O trivial pode ser igualmente fantástico. A vontade de criar é perceber quais são as necessidades. O motivo não podemos ser nós, isso está errado. O meu maior ato criativo foi ter decidido avançar com este projeto em 2013. Todos os dias me sinto com vontade de criar e de viabilizar essa criação em novas gerações de designers. 

Galeria do Atelier Daciano da Costa

Como se sentia enquanto filha do Daciano da Costa? Sentia uma pressão acrescida? 

Todas sofríamos do mesmo: filho de peixe sabe nadar. Havia essa componente genética e podíamos valorizar ou não. O meu pai dizia para nunca se “encostarem à bananeira”, ou “têm de ser sérias com o vosso trabalho.” Essa seriedade e esse rigor eram às vezes cansativos. Ele era uma pessoa intensa. Lembro-me de o meu pai nos fazer exercícios em que tínhamos de desenhar com um motivo. Habituámo-nos a desenhar os pensamentos. E aí havia um pouco a questão de quem é que ia criar o melhor desenho. São momentos criativos de família.

De que forma estar tão envolvida na obra de Daciano da Costa influenciou o seu percurso profissional?

Influenciou muito. Essa paleta de cores com que convivemos, e os materiais. A intemporalidade do design do meu pai existe e está à vista. Lembro-me das cores do Hotel Alvor me terem influenciado, que eram as cores dos barcos. Nas nossas viagens de carro, tínhamos dissertações sobre a cor, a luz, a arquitetura, a paisagem, sobre tudo. Tínhamos essa sorte. E estão lá, gravadas. Esse sentido crítico e estético, do material, estrutura e textura. 

Sendo uma pessoa criativa, como é que este novo confinamento tem afetado a sua produção artística?

Nesta segunda etapa, talvez tenha afetado mais a criatividade, focámo-nos mais no trabalho de fundo e que não exige tanto essa criatividade. Há uma maior oportunidade de ter tempo de pensar. Dá-nos tempo de leitura, de refrescar memória, de introspeção. Dá-nos outro tempo que nós não sabíamos que existia.

Artigo originalmente publicado na edição de março de 2021 da Vogue Portugal.