Entrevistas  

Honey To The Moon, uma história de amor

25 Aug 2023
By Maria Inês Pinto

O novo filme de Rob Woodcox é uma autêntica carta de amor ao próximo, mas sobretudo ao próprio. A Vogue Portugal conversou com o artista acerca deste projeto tão pessoal e especial.

A expressão artística do cineasta e fotógrafo Rob Woodcox é um testemunho da sua realidade e da dedicação em transformar as suas vivências em narrativas profundas. A sua jornada na fotografia converteu-se numa ferramenta de sensibilização e diálogo sobre diversas questões sociais, como a dinâmica do sistema de acolhimento nos Estados Unidos, a experiência LGBTQ+, a positividade corporal, a equidade racial e a necessidade premente de justiça ambiental. Tendo feito parte do sistema de acolhimento como criança adotada, a perspetiva de Rob centra-se na empatia e na crença no potencial humano para superar adversidades. O seu trajeto pessoal também inclui o "coming out" em 2013, mais um dos motivos que o inspirou a dedicar a sua energia e paixão à fotografia.

O percurso cinematográfico de Rob teve início com We Are Molecular, uma colaboração com Dra. Barbara Sturm e o Royal Ballet de Londres, que posteriormente o levou à co-realização de Spiral e culmina em Honey To The Moon, uma peça surrealista que explora a dinâmica do amor queer. É um filme altamente simbólico, que mergulha nas profundezas do amor em todas as suas facetas: o amor pelos outros, pelo próprio, e pela jornada que o envolve. Tendo como cenário o México, o seu trabalho convida a uma viagem de autodescoberta e harmonia.

De onde veio a inspiração para criar este filme? Sempre me considerei um romântico. Gosto de dar e receber amor, mas o meu percurso amoroso não tem sido nada fácil. Passei o Natal sozinho há dois anos e estava num estado emocional profundo depois de ter passado por uma separação, o que me levou a um turbilhão de reflexões sobre a minha vida, e a escrever. Comecei a pensar em todas as fases emocionais por que passo quando me apaixono ou desapaixono por alguém. Em última análise, todos os compromissos românticos acabam por chegar a um ponto em que tenho de me lembrar do meu valor individual e a apaixonar-me novamente por mim próprio. Este filme ilustra simbolicamente essa viagem, terminando com uma "limpeza" de elementos negativos da vida do protagonista e um regresso ao amor-próprio como base para uma vida mais saudável.

Como conseguiu encontrar o equilíbrio entre a expressão artística e a aspiração de criar um filme que ecoe junto do público, especialmente tendo em conta o retrato das relações queer? Sempre encontrei inspiração no surrealismo, pois permite que o público interprete uma narrativa no contexto da sua própria experiência. É uma linguagem mágica que se pode sentir, mas nem sempre se pode explicar. Ser queer num mundo fortemente construído para a expressão heterossexual é, por si só, uma viagem surrealista. Quero que o público sinta esses estranhos sentimentos universais de se apaixonar e desapaixonar, mas através da minha lente queer. Creio que não estou a tentar moldar-me a nenhum grupo de pessoas específico, mas sim a criar uma expressão humana que atravessa todas as fronteiras sexuais e de género. Quando nos sentamos numa sala de cinema e ouvimos o som estrondoso juntamente com estas imagens excecionais, acho que não há como não ficar comovido.

Há claramente uma mistura de surrealismo e romance. Como é que abordou a incorporação de elementos surreais na narrativa para aumentar o impacto emocional da viagem de amor entre a Lua e o Sol? O amor é como uma droga, às vezes faz-me sentir como se estivesse a flutuar e outras vezes pode parecer um fardo incapacitante que esmaga os alicerces da minha alma e a forma como vejo o mundo. O amor pode levar-nos aos limites da nossa perceção, e eu quis retratar isso com imagens surreais que cativam esses sentimentos profundos. À medida que fui percebendo cada etapa da minha própria viagem amorosa, escrevi poesia que representava cada experiência, o que, por sua vez, produziu fortes imagens surrealistas. O amor aliado ao tempo pode criar raízes profundas que fazem com que uma pessoa se sinta alicerçada - como na cena em que a Lua e o Sol se transformam em árvores -, mas o tempo pode simultaneamente dar lugar à apatia e à deceção, como as fendas que se formam nos seus rostos na cena adjacente. Imagens simbólicas como esta podem ser vistas ao longo de todo o filme.

Pode partilhar algumas ideias sobre o simbolismo por detrás das personagens Lua e Sol, e como se relacionam especificamente com as relações queer? O meu parceiro e eu referimo-nos um ao outro como o Sol e a Lua, mas em espanhol - Sol y Luna. Foi assim que tive a ideia de criar "máscaras" de Sol e Lua, e inspirei-me no primeiro filme criado por Georges Méliès, Uma Viagem à Lua, para as estilizar. Ser queer envolve muita luz e sombra - mas a um nível mais universal, penso que todos precisamos de ambas para apreciar os dois lados. Tudo o que sobe desce, o barulho é sempre seguido de silêncio, a vida é uma questão de equilíbrio, e eu queria que estas duas personagens representassem esse fluxo.

No final, a Lua e o Sol afastam-se, mas há uma sensação de cura e crescimento. Pode explicar melhor os temas da resiliência retratados? O amor-próprio é a base para uma participação saudável em comunidades maiores. Penso que muitas pessoas se sentem oprimidas na sociedade e são frequentemente desencorajadas a procurar o amor-próprio. Desde a representação de romance das "princesas da Disney" à propaganda religiosa dos casamentos perfeitos, as pessoas nunca são encorajadas a procurar a felicidade por si próprias. Os pais pressionam constantemente os filhos para encontrarem um parceiro e terem filhos, sem nunca considerarem o que os próprios podem querer. Descobri que investir tempo, energia e amor em mim produz resultados mais felizes e gratificantes, e estou mais propenso a participar em comunidades para encontrar ligações e investir na melhoria do nosso mundo; fico num estado mais saudável para as pessoas à minha volta. Especificamente em relação ao amor, é quando me sinto mais confiante e independente que finalmente encontro alguém com quem vale a pena passar tempo de forma romântica. Talvez seja essa energia que cria uma atração mais profunda. Embora a ideia de um parceiro para toda a vida ainda me pareça possível, comecei a pensar nos parceiros como guias temporários que surgem em diferentes fases da vida para nos podermos ensinar uns aos outros.

O filme tem um estilo visual único. Pode falar sobre as opções artísticas e as técnicas utilizadas para retratar a narrativa? Passei os últimos 15 anos como fotógrafo, compondo meticulosamente cenas com grandes grupos de pessoas. Durante anos, as pessoas disseram-me que devia aplicar este conhecimento visual ao cinema e finalmente optei por fazer a transição. Queria navegar entre interações próximas e distantes ao longo do filme para retratar os vários estados emocionais. Os ângulos de câmara próximos podem trazer à tona emoções mais profundas, enquanto as composições mais distantes fazem com que o espetador se sinta mais contemplativo sobre o estado geral das coisas. Enquanto estou a viver uma relação, é fácil sentir-me perto e longe, feliz e triste, curioso e complacente. A forma como a câmara está parada e em movimento, por vezes, permite-nos sentir as suas emoções, mantendo o voyeurismo surrealista noutros momentos. Tivemos a sorte de ter um bom orçamento para equipamento que nos permitiu conseguir um movimento suave - prendendo os espetadores ao mundo surreal que criámos.

O que espera que o público retire deste filme, especialmente no que diz respeito ao retrato das relações queer, e porque é que é importante que estas histórias sejam contadas? A representação é sempre fundamental para que qualquer grupo de pessoas seja incluído na sociedade. A mera existência de uma história de amor queer promove este processo de expansão dos direitos queer, dando as boas-vindas a diversos públicos para apreciarem esta experiência humana tão universal. O amor é belo e merece ser celebrado - quer seja dirigido ao próprio ou aos outros. Quero que as pessoas sintam emoções profundas quando virem este filme - talvez para se ligarem às suas próprias experiências passadas e imaginarem novas possibilidades.

Há algum momento marcante durante a criação deste filme que gostaria de partilhar connosco? O processo criativo deste filme foi repleto de momentos marcantes, mas um que se destaca é o facto de termos descoberto a nossa melhor localização no dia anterior às filmagens. Tínhamos feito uma pesquisa seis meses antes e os níveis de água no rio eram mais seguros. Quando chegámos para a nossa visita pré-filmagem, as condições tinham mudado drasticamente e era quase impossível filmar onde queríamos. O departamento de turismo do estado onde filmámos esteve sempre ao nosso lado e, no último momento, alguém disse: "Já viram o outro lado da cascata? Talvez funcione melhor." À beira do pôr-do-sol e uma hora de carro depois, ficámos de queixo caído ao descobrir uma área dez vezes mais bonita do que a que tínhamos explorado anteriormente. Acabámos por mudar metade das cenas do filme para este local, o que ajudou muito a definir o tom e a qualidade de produção de todo o filme. O sol e o tempo cooperaram connosco durante todo o processo, proporcionando as condições exatas que esperava e ainda não consigo acreditar nisso!

RealizadorRob Woodcox
ProdutoresAna Cardona, Constanza Perez e Irlanda Tapia
Produtor ExecutivoAoi
Diretor De FotografiaAngello Faccini
Designer De ProduçãoAileen Ruelas
EdiçãoSebastián Sedas
MúsicaFederico Gonzále
Co-RealizadorEduardo Cifuentes
Maria Inês Pinto By Maria Inês Pinto
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