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Tendências 11. 1. 2019

Come as you are, as you were

by Mónica Bozinoski

 

Depois de Marc Jacobs recuperar a sua coleção da primavera de 1993 para a Perry Ellis, chegou a vez de Anna Sui reimaginar o estilo grunge para uma nova geração.

Bénédicte Loyen, Marc Jacobs e Cecilia Chancellor ©Instagram/@marcjacobs

Smells like teen spirit? Os dados do Google parecem confirmar que sim. Segundo o relatório anual da empresa norte-americana, que monitoriza os temas, as personalidades e as perguntas mais pesquisadas no motor de busca, o ano de 2018 foi marcado pela nostalgia de tempos não tão distantes – no que diz respeito às pesquisas de Moda do ano passado, 1980’s fashion, Grunge style, 1990’s fashion e 2000s fashion ocupam os quatro primeiros lugares, respetivamente.

Acreditamos que estes dados não chegam como surpresa – do revivalismo de alguns dos coordenados mais icónicos de Gianni Versace ao regresso da Linea Rossa da Prada, não é segredo que a nostalgia tem sido uma das maiores cartadas da indústria da Moda nos últimos anos. Porque é que estamos tão obcecados com estes “fantasmas” do passado?

A resposta pode não ser unânime, mas encontramos algum sentido para todos estes regressos quando olhamos para a nova geração de consumidores – uma geração que “cresceu" a admirar imagens de Kate Moss em slip dresses, a analisar cuidadosamente todas as escolhas de Carrie Bradshaw em O Sexo e a Cidade, a partilhar aquela imagem de Elizabeth Hurley com aquele vestido safety pin da Versace (o #goals parece-nos mais do que óbvio), e a encontrar um “novo” ícone de estilo em Carolyn Bessette-Kennedy.

 

Se o revivalismo é o novo preto, Redux Grunge é o novo LBD. Corria o ano de 1992. Na direção criativa da Perry Ellis, Marc Jacobs imagina uma coleção primavera 1993 que foi tão disruptiva quanto criticada. A inspiração de Jacobs – citado pela edição norte-americana da Vogue, o designer explicou que o look para a coleção primavera 1993 da Perry Ellis era influenciado pela “autenticidade do mundo da música e pelo modo como as suas amigas modelos já se vestiam na altura” -, resultou num desfile que, ainda hoje, permanece um marco no mundo da Moda. Num trench-coat longo, camisa de flanela e botas Dr. Martens, Christy Turlington estabelece o tom para um rol de modelos (entre elas Kate Moss, Naomi Campbell e Carla Bruni) vestidas naquilo que poderiam ser “achados” do guarda-roupa de Courtney Love ou de uma loja de segunda mão em Seattle, berço do movimento imortalizado por nomes como Nirvana, Sonic Youth ou Pearl Jam – o grunge.

“Foi a primeira vez que fui inabalável na minha determinação de ver a minha visão ganhar vida na passerelle, sem comprometer a criatividade”, disse Marc Jacobs sobre a coleção que deu um novo significado à influência do movimento grunge na indústria da Moda. Cathy Horyn, na altura jornalista do The Washington Post, escreveu: “O grunge é um anátema para a Moda, e uma Casa importante da Seventh Avenue lançar um statement daquele género, aquele preço, é ridículo”. Pouco tempo depois da apresentação da primavera 1993, e de forma dissimulada, Marc Jacobs foi despedido da Perry Ellis. Vinte e cinco anos mais tarde, “e numa altura em que o mundo precisa do grunge, mais do que nunca”, Marc Jacobs revisitou 26 looks da icónica coleção, agora em nome próprio – vestidos slip adornados com padrão xadrez e motivos florais, camisas de flanela, casacos oversized e cardigans de malha são algumas das peças que materializam o espírito autêntico, livre e tolerante de Redux Grunge.  

Imagens da coleção Redux Grunge ©Marc Jacobs

Apesar da coleção para a primavera de 1993 de Perry Ellis permanecer uma das mais memoráveis do seu tipo, Jacobs não está sozinho neste revivalismo. Para celebrar este regresso, o criativo pediu à designer e amiga de longa data, Anna Sui, que revisitasse a sua própria coleção grunge. Dos vestidos maxi às riscas aos estilos apron, originalmente usados por nomes como Naomi Campbell, Shalom Harlow e Kristen McMenamy durante a apresentação da coleção primavera 1993 de Anna Sui, este regresso ao passado é mais do que um revisitar de estilos icónicos – é uma celebração de duas visões criativas distintas, mas igualmente disruptivas.

 
 
 
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“Eu e o Marc fomos ver um o concerto dos Nirvana no New York Coliseum juntos”, relembra Anna Sui em entrevista à edição norte-americana da Vogue. “Na altura, a Moda acontecia muito desta forma. Estava ali, como algo que pairava no ar. Tanto eu como o Marc adorávamos a música, conhecíamos estas bandas, e íamos a concertos juntos. Todas as revistas de rock que existiam na época tinham a Courtney Love e o Kurt Cobain na capa. Estas eram as coisas que, provavelmente, também estavam no moodboard do Marc. O Steven Meisel fez aquelas fotografias icónicas para a Vogue com a Kristen McMenamy, a Nadja Auermann e a Naomi Campbell. Era algo do momento”.

Para Anna Sui, vinte e cinco anos depois, a relevância desta coleção – e da coleção de Marc Jacobs para a Perry Ellis em 1992 -, está na sua autenticidade original. “Não era algo mainstream, e transmitia um sentimento muito especial…”, defende a designer. “Era uma tendência genuína, um movimento genuíno”.  

“Genuíno” parece ser a palavra obrigatória quando pensamos numa das figuras mais marcantes do movimento grunge. “Kurt Cobain era a antítese do homem macho americano”, diz Alex Frank, um editor do The Fader, citado pela edição norte-americana da Vogue. “Ele era um verdadeiro feminista e confrontava as políticas de género nas suas composições musicais. Numa altura em que as silhuetas mais justas eram a norma, ele conseguiu transformar o look desleixado e largo em algo cool, e não interessava se eras homem ou mulher. Acho que ele ainda representa o ideal de romântico para muitas mulheres”.

Numa altura em que procuramos redefinir as convenções de género, normalizar o conceito de feminismo e encontrar um toque de autenticidade, de tolerância e de liberdade, sentimentos que parecem estar cada vez mais distantes da realidade em que nos movimentamos, e porque a Moda é – e sempre será -, um veículo de crítica, um statement político e um reflexo do tempo em que existe, o regresso do grunge parece fazer tanto sentido hoje, como fez em 1992. 

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