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Notícias 6. 8. 2020

O silêncio dos inocentes

by Mónica Bozinoski

 

Da ansiedade à depressão, falar sobre saúde mental deixou de ser o tabu que era dantes. Mas o estigma que lhe é associado, e que faz com que muitos vivam ainda em silêncio, continua à espera de ver o mesmo destino. 

©Ilustração de Jesse Draxler

Parem de invalidar a minha doença porque, como qualquer outra, é apenas isso – uma doença. Sou uma estudante, e acredito que o estigma não ‘acabou’. Ando pelos corredores, e sei que o estigma não chegou ao fim. Peço ajuda e consigo perceber que o estigma não chegou ao fim. O estigma não ‘acabou’ porque já ouvi comentários incontáveis sobre como eu não poderia ter uma doença mental por causa do meu nível académico. De ‘não parece que tenhas’ a ‘mas és tão inteligente’. As palavras queimam dentro de mim como um isqueiro perto de um papel – devagar, mas seguramente – com a dor da invalidação e a falta de apoio. Tenho transtornos ‘altamente funcionais’, o que faz com que seja mais fácil para as pessoas pensarem que estes são uma fachada. Mas isso não significa que a minha doença seja menos real. Ainda luto. Ainda sinto dor. E às vezes, tarefas como pôr os pés no chão ou desligar a luz do quarto são aparentemente impossíveis. Só porque alguém não consegue ver alguma coisa, não quer dizer que ela não esteja lá. Parem de invalidar a minha doença porque, como qualquer outra, é apenas isso – uma doença. É por isso que o estigma não chegou ao fim.” Publicada no site da Teen Vogue em 2017, a experiência da speaker e performer Delicia Raveenthrarajan permanece um reminder doloroso para 2020. Por muito que falemos sobre saúde mental, o estigma ainda existe. Por muitas campanhas e hashtags que tentem normalizar as doenças mentais, o estigma ainda existe. Por muito que digamos que está tudo bem, que a ajuda existe, que não tem de ser assim, o estigma ainda existe. E o pior de tudo é que, mais vezes do que menos, o sofrimento acontece em silêncio, escondido nas margens de um todo que “não parece”.

Atualmente, a Organização Mundial de Saúde estima que mais de 264 milhões de pessoas em todo o mundo sofrem de depressão. Nos Estados Unidos da América, um em cada quatro adultos vai ao encontro do critério que os psicólogos usam para diagnosticar um distúrbio ou doença mental grave. Avançado pela revista Time em maio deste ano, este número triplicou durante a pandemia do novo coronavírus, e representa uma subida de cerca de 700% em relação a dados recolhidos em 2018. Nesse ano, 4% das pessoas na faixa etária entre os 18 e os 29 anos, à semelhança daquelas entre os 30 e os 44 anos, reportavam um distúrbio mental grave – atualmente, o número aumentou para 38% e 37%, respetivamente. Ainda nos EUA, e fruto da pandemia, registou-se um aumento de 20% no número de prescrições de medicamentos antidepressivos e anti-ansiedade durante o lockdown. O cenário é preocupante, e as estatísticas em território nacional seguem a mesma ten- dência. Segundo dados da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental, Portugal é o segundo país com a mais elevada prevalência de doenças psiquiátricas da Europa, ficando atrás da Irlanda do Norte. De acordo com a mesma fonte, mais de um quinto dos portugueses sofre de uma perturbação psiquiátrica, com as perturbações mentais e do comportamento a representarem 11,8% da carga global das doenças no país. Os números confirmam um problema grave e crescente – e imploram por uma solução. “Falar abertamente sobre saúde mental ajuda a que as pessoas saibam que há mais pessoas a sofrerem do mesmo que elas possam estar a sofrer e, consequentemente, a sentirem que não são ‘estranhas’ ou ‘loucas’, e que podem ter ajuda”, defende Catarina Portela, psicoterapeuta HBM na Clínica da Mente, em Lisboa. “Falar abertamente sobre este tema ajuda também a que as pessoas possam reconhecer, mais depressa, quando pessoas próximas possam estar a sofrer de alguma perturbação e facilitar o acesso a cuidados de saúde.”

À Vogue, a especialista começa por explicar o que é o estigma das doenças mentais. “A doença mental é muitas vezes associada a pessoas que vemos terem comportamentos totalmente desajustados, como por exemplo alguém, sozinho, começar a gritar coisas aparentemente sem sentido no meio da rua. Ninguém, à partida, se identifica com este tipo de comportamentos, pelo que se distancia, acreditando que algo assim nunca lhe poderá acontecer”, esclarece. “O estigma da doença mental vem do desconhecido. É um assunto muito complexo e que se reveste da maior importância, na nossa sociedade, pois manifesta-se em atitudes discriminatórias. Estas atitudes podem resultar em consequên- cias muito danosas, como o retardamento ou impedimento da procura de cuidados de saúde, podendo constituir-se, também, como uma enorme barreira para a qualidade de vida das pessoas com doença mental e dos seus familiares. O estigma abrange, não só, pessoas que têm uma doença mental, como as que já tiveram.” Como elabora Catarina, “os preconceitos acerca das doenças mentais são ideias preconcebidas, falsas crenças estigmatizadas”, sendo que os mais comuns passam “pela crença de que as pessoas nunca irão recuperar, são violentas e perigosas para a saúde, podem perder o controlo a qual- quer momento, são empregados de baixa qualidade, não devem ter atribuídas posições de responsabilidade no trabalho”. O impacto de ter e perpetuar estes preconceitos, como confirma a psicoterapeuta, “é absolutamente destruidor, sendo suficiente para que as pessoas que têm ou já tiveram doença mental se sintam desintegradas da sociedade, pouco autoconfiantes, e com dificuldade para atingirem todo o seu potencial.”

Combater o estigma torna-se por isso cada vez mais urgente, e um bom sítio para começar é com a nossa própria narrativa, contrariando o uso de palavras como “louco” ou “doente” de forma leviana. “Segundo a psicologia e a neurociência, quando pronunciamos palavras, resgatamos significados. Todas as palavras geram emoções específicas”, explica Catarina. “As palavras ‘louco’, ‘maluco’, ‘demente’, ‘OCD’, ‘psicótico’, entre várias outras, podem trazer emoções muito desagradáveis, não para quem as diz, mas para quem as ouve, estando a contribuir-se para crenças estigmatizantes acerca das doenças mentais. O problema de alguém que tem muito apreço pela limpeza ou organização, e que fica irritado quando as coisas não estão arrumadas, dizer, levianamente, que é ‘OCD’, manifesta-se na desvalorização do sofrimento de quem padece, de facto, da perturbação emocional, designada por Perturbação Obsessivo-Compulsiva.” Pegando nesse mesmo exemplo, a psicoterapeuta afirma que “uma pessoa com Perturbação Obsessivo-Compulsiva não retira prazer da limpeza ou da arrumação, como tira uma pessoa que gosta de ter a sua casa limpa e organizada. Uma pessoa com esta perturbação vê-se obrigada a realizar um comportamento para sair de um estado de sofrimento imenso provocado pelos seus próprios pensamentos.” E continua: “Para estabelecermos uma boa comunicação e, neste caso mais específico, não perpetuarmos o estigma e respeitarmos as pessoas com doença mental, é muito importante estarmos atentos às palavras que utilizamos, respeitando todo e qualquer indivíduo perante as suas especificidades.” Para além disso, como avança a especialista, combater efetivamente o estigma das doenças mentais passa também por compreender que “os comportamentos problemáticos podem resultar de uma perturbação mental, tratável, e não de uma falha de caráter”, e que nesses comportamentos se podem incluir, entre outros, a irritabilidade, a preocupação excessiva, a dependência e a hipocondria. “Devemos tornar-nos conscientese mais atentos às doenças mentais, por forma a podermos contribuir positivamente para uma melhor qualidade de vida das pessoas que têm ou tiveram uma doença mental, permitindo-lhes aceder ao maior número de oportunidades possível para que possam viver em comunidade, como membros ativos e autoconfiantes.”

Por muito que falemos sobre saúde mental, o estigma ainda existe. Por muitas campanhas e hashtags que tentem normalizar as doenças mentais, o estigma ainda existe. Por muito que digamos que está tudo bem, que a ajuda existe, que não tem de ser assim, o estigma ainda existe. É por isso que temos de continuar a falar, a normalizar, a cuidar. O estigma existe, mas a expectativa de que ele possa chegar ao fim, também – e ainda que a palavra “esperança” possa estar perdida, a verdade é que o momento que estamos a viver pode representar uma mudança na forma como falamos sobre saúde mental, doenças mentais e estigma. “A pandemia veio, sem qualquer dúvida, reafirmar a importância de falarmos, abertamente, sobre saúde mental”, defende a psicoterapeuta, referindo que o surto veio revelar que as pessoas, no geral, ficaram mais predispostas a estados mais depressivos ou ansiosos, ou ambos. “O desequilíbrio do estado emocional das pessoas vai comprometer os seus comportamentos no seio familiar, profissional, e afetar o bem-estar geral, sendo muito importante a literacia na área da saúde emocional. O facto de as pessoas não saberem quando as suas vidas vão retomar a normalidade é um imenso fator de risco para a sua saúde mental.” Mas não é só a pandemia que pode vir a mudar a narrativa. “Os protestos globais e o intenso ciclo noticioso que se seguiram ao homicídio de George Floyd no Mineápolis pela polícia dos EUA é um reminder contínuo do trauma que a comunidade negra tem enfrentado, e continua a enfrentar [...] A juntar aos relatórios de que as pessoas negras estão a morrer desproporcionalmente de coronavírus no Reino Unido e nos EUA, temos uma florescente crise de saúde mental no seio desta comunidade.” Num artigo que defendia que o movimento Black Lives Matter não é apenas sobre alcançar a mudança e amplificar uma geração de vozes silenciadas, mas também sobre longevidade, as palavras da jornalista Eni Subair para a edição britânica da Vogue vinham confirmar aquilo que há muito se tem propagado – a discussão sobre saúde mental precisa de ser de todos, e para todos. Como resume Catarina Portela, “o movimento Black Lives Matter e das comunidades negras em todo o mundo veio reafirmar a importância da consideração pelos direitos e liberdades dos seres humanos, proclamados na Declaração Universal dos Direitos Humanos, considerando-se que qualquer forma de discriminação ou violência pode afetar o bem-estar dos indivíduos, potenciando doenças mentais e outros desequilíbrios emocionais.” Quando o silêncio ocupa o individual, ficamos todos a perder enquanto coletivo. Quando o estigma toma conta do individual, ficamos todos a perder enquanto coletivo. Quando a humanidade é negligenciada ao individual, ficamos todos a perder enquanto coletivo. É por isso que temos de continuar a falar, a normalizar, a cuidar – e a fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para garantir que ficamos mais perto de acabar com o estigma das doenças mentais. 

SERVIÇOS DE APOIO:

Serviço de aconselhamento psicológico SNS 24 – 808 24 24 24 
SOS Voz Amiga - 213544545 | 912802669 | 963524660
Associação de Apoio aos Doentes Depressivos e Bipolares - 218 540 740/8 | 968 982 158 
Sociedade Portuguesa de Psicanálise - 300 051 920
Linha Conversa Amiga - 808 237 327 | 210 027 159

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