Christian Dior Alta-Costura FW26
Para o outono/inverno 2026, a tradição da Alta-Costura não é uma prisão, mas uma matéria-prima em constante transformação.
A Alta-Costura sempre viveu entre duas forças opostas: a necessidade de preservar uma tradição construída ao longo de décadas e a urgência de provar que essa tradição ainda tem algo a dizer. A resposta desta temporada não está no abandono da história, mas na sua transformação. Uns designers desmontam os códigos herdados, outros suavizam-nos, outros levam-nos ao limite da estranheza. Em comum, existe uma recusa da nostalgia como destino.
Matthieu Blazy não nega o passado, mas recusa a possibilidade de uma linha de inspiração unilateral. À distância, as silhuetas parecem quase contidas, saias abaixo do joelho, casacos de linhas suaves, proporções generosas que recusam a feminilidade histórica de uma cintura definida. Mas basta aproximarmo-nos para perceber que nada é exatamente aquilo que parece. É na textura que Blazy constrói a fantasia. O tweed é o alvo de metamorfoses, transforma-se em pétalas, nuvens ou palha, enquanto bordados fazem flores e aves escaparem da superfície dos tecidos como se a roupa recusasse permanecer bidimensional. A coleção inspira-se no imaginário dos contos de fadas, mas evita qualquer leitura literal. Em vez de princesas, surgem pequenos gestos de estranheza: criaturas escondidas nos saltos dos sapatos, plantas que parecem crescer sobre as peças, referências discretas ao universo pessoal de Gabrielle Chanel. É uma abordagem particularmente interessante num momento em que tantas casas de luxo parecem aprisionadas pela própria herança. Blazy não reproduz Chanel, conversa com Chanel. Há uma diferença fundamental entre preservar um legado e fossilizá-lo. O arquivo é o primeiro capítulo de uma história nova.

Chanel Alta-Costura FW2
Se Blazy responde à tradição com subtileza, Jonathan Anderson responde-lhe através da transformação. Na Dior, o novo diretor criativo enfrenta um dos maiores desafios da Moda contemporânea: como reinterpretar códigos tão reconhecíveis sem ficar preso à sua própria história. A resposta está menos na reconstrução do passado e mais na sua interpretação. A silhueta idiossincrática perde rigidez, a cintura estruturada dá lugar a formas mais fluidas e os volumes parecem libertar-se da arquitetura tradicional da maison. Casacos desconstruídos, vestidos moldados através de pregas profundas e superfícies torcidas fazem a roupa parecer menos construída e mais esculpida. Inspirado pela obra de Lynda Benglis, Anderson aproxima a Alta-Costura da escultura, explorando nós, dobras e volumes orgânicos onde o tecido ganha uma presença quase física. Certas peças ultrapassam a mera comunicação conceptual com o trabalho da artista e aproximam a tradução. Leques enfeitados que ocupam tanto o peito como as costas de certos vestidos são referências diretas ao legado de Benglis. Anderson tem um talento específico para conduzir tais explorações. No que é apenas a segunda coleção de Alta-Costura da sua carreira, outono/inverno 2026 é um passo confiante. O designer não procura regurgitar o legado da prática, mas expandir as suas bordas.

Christian Dior Alta-Costura FW26
Na Schiaparelli, Daniel Roseberry empurra legado para territórios desconhecidos. A sua Alta-Costura vive precisamente dessa tensão entre beleza e desconforto, entre o familiar e o estranho. A coleção explora um imaginário quase pós-humano, onde o corpo deixa de ser apenas vestido e passa a ser reinventado através de placas escultóricas, superfícies semelhantes à pele e materiais inesperados como látex e silicone. É uma continuação natural do legado surrealista de Elsa Schiaparelli: não usar a roupa para tornar o corpo mais belo segundo convenções existentes, mas para questionar aquilo que entendemos como beleza. Roseberry compreende que a maior força da casa não está apenas nos seus símbolos reconhecíveis, mas na sua capacidade de tornar o impossível visível.

Schiaparelli Alta-Costura FW26
Se Blazy encontra o extraordinário, Anderson procura novas formas para uma herança histórica e Roseberry transforma o corpo num território de experimentação, os três acabam por responder à mesma pergunta: qual é o papel da Alta-Costura num momento em que tudo parece já ter sido visto? Duran Lantink, por outro lado, escolhe responder destruindo a própria pergunta. A sua estreia na Alta-Costura para Jean Paul Gaultier parte da ideia de que respeitar uma tradição não significa protegê-la da mudança. Lantink pega na pompa do século XVIII, nas silhuetas de corte e na ideia de elegância aristocrática apenas para as desmontar. Os vestidos deixam de desenhar o corpo e passam a distorcê-lo, as crinolinas tornam-se estruturas visíveis, o tule explode em volumes descontrolados, a alfaiataria ganha uma estranheza quase caricatural. Há uma inteligência particular na forma como evita recorrer aos clichés mais reconhecíveis de Jean Paul Gaultier. O sutiã de cone, as riscas bretãs ou as tatuagens estampadas quase desaparecem. Em vez de citar o arquivo, Lantink apropria-se daquilo que realmente definiu Gaultier: a recusa em aceitar o corpo como uma construção fixa. Tecidos recuperados do arquivo convivem com estruturas impressas em 3D, aproximando a Alta-Costura da engenharia tanto quanto do artesanato. O passado deixa de ser um objeto de veneração para se tornar matéria-prima.

Jean Paul Gaultier Alta-Costura FW26
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