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Editorial "Freedom on Hold", de abril 2020

Editorial 14. 5. 2020

Editorial maio/junho 2020 | Happy Together

by Sofia Lucas

 

“We are only as strong as we are united, as weak as we are divided.” - J.K. Rowling

Ilustração de José Santana.

No dia 29 de maio de 1919, o jovem astrónomo inglês Arthur Eddington transformava Albert Einstein numa celebridade, provando a teoria científica mais significativa do universo desde a gravidade newtoniana: a teoria da relatividade. Durante um quarto de milénio, a conceção do espaço como estático e absoluto por Newton nunca havia sido questionada. De acordo com a sua teoria, a gravidade é uma força que, tal como o magnetismo, atua através do espaço, mas não no espaço, e a luz viaja apenas em linhas retas. De acordo com a teoria de Einstein, espaço e tempo são uma entidade única – o tecido fundamental do universo – e a gravidade é uma força causada pelo espaço-tempo, onde os objetos maciços dobram o tecido do próprio espaço-tempo com a sua força. Numa época em que pouquíssimos cientistas consideravam a relatividade plausível e nenhum inglês arriscaria a sua reputação ao defender as ideias de um alemão, Eddington resolveu testar a teoria de Einstein e, com a sua pequena equipa, viajou para a remota ilha do Príncipe, para observar o maior eclipse solar total – 6 minutos e 51 segundos – que acontece uma vez a cada 500 anos. Numa experiência incrivelmente ambiciosa, a nível prático e conceptual, depois de dias de fortes chuvas e céus nublados, já quase resignados ao fracasso, Eddington e a sua equipa observaram com admiração as nuvens a dissiparem-se mesmo a tempo do eclipse, abrindo caminho para o telescópio que haviam transportado para o acampamento nas encostas. No momento em que a Lua ofuscava completamente o Sol, Eddington conseguiu registar fotograficamente a luz das estrelas do aglomerado Hyades, posicionada diretamente atrás do Sol, a partir do ponto de vista da Terra, provando que Einstein estava certo, e Newton errado, e que o enorme campo gravitacional do Sol distorcia o próprio espaço-tempo, curvando o caminho da luz das estrelas, para torná-la visível da Terra. Este foi um triunfo científico de um enorme significado. Foi, sobretudo, um momento humano e encorajador: logo após o final da Primeira Guerra Mundial, um inglês pacifista, que se recusara a ser recrutado sob o risco de ser preso por traição, e um judeu alemão pacifista, juntos, conseguiram uma das maiores realizações científicas da Humanidade, unindo um mundo dividido sob o mesmo céu, sob as verdades mais profundas do Universo, precisamente na sua hora mais sombria.

De sombra e de luz se escreve a História da Humanidade, a mesma que nos provou vezes sem conta que é na união que podemos, e devemos, encontrar a verdadeira força. A própria teoria da relatividade o confirma, estamos todos ligados num tecido universal de espaço e tempo. Não é a primeira vez que o mundo, de uma forma tão global e a todos níveis, atravessa uma fase tão sombria, na perda, na dor, na incerteza. Mas é na certeza de que não existe sombra sem luz que deve assentar a resiliência de que o mundo precisa, na noção de que somos todos seres interdependentes. A noção de que precisamos uns dos outros, independentemente das diferenças, que nunca nos deviam ter separado. Se há algo que este imenso "eclipse" mundial, com o nome de COVID-19, nos veio relembrar é que estamos todos ligados, que somos todos elos de uma cadeia, e que muito mais do que uma cadeia viral, somos uma cadeia humana. E que distanciamento social, necessário, não implica distanciamento humano, porque nunca precisámos de estar tão unidos como agora.

Os medos irracionais e o pânico têm de dar lugar à construção e reconstrução, à criatividade, à humanidade, na força da união. Para que os mais fortes possam proteger os mais vulneráveis, que em qualquer sociedade carregam sempre o fardo mais pesado das dificuldades. Ninguém sabe o que vem a seguir, nem o que será exatamente o futuro. Mas na verdade, nunca o soubemos, nem nunca o saberemos. Não existe um antídoto para a imprevisibilidade, só podemos criar estratégias para dar significado a uma vida que sabemos ser instável e provisória, mas que queremos viver em equilíbrio e abrir caminhos para a felicidade, que todos nós almejamos. Porque até nessa busca, estamos juntos.

La Mujer de Piedra se Levanta y Baila, pela artista Pamen Pereira. © Pepe Caparros

Na Vogue, acreditamos que só UNIDOS podemos reconstruir um caminho de equilíbrio, combater o caos com a criatividade que reinventa e constrói. E não estamos sozinhos. Juntamente com a revista GQ, e em modo Standing Together, Happy Together, lançamos uma edição única. Única nos dois sentidos, por acontecer uma só vez, e por dar forma à união das duas publicações (re)unidas numa só, num statement igualmente único, que reune as diferentes vozes e visões das duas equipas e respetivos colaboradores numa edição tão especial. As andorinhas, pássaros icónicos no nosso país, que anunciam auspiciosamente a chegada da primavera, são as protagonistas de uma capa conjunta e simbólica. As aves voam em grupo para rentabilizar as suas energias, ao mesmo tempo que usufruem das mais-valias dos elementos do grupo, como a sabedoria dos mais velhos e a resistência dos mais novos, num exemplo de entreajuda. Em conjunto, vão revezando quem lidera o bando e, enquanto umas vão procurando alimento, outras estão mais atentas ao perigo. Na unidade, e não no individualismo, tornam-se mais fortes. Recurso sábio que a natureza nos ensina e que não devemos perder de vista, enquanto Humanidade.

A força de uma corrente não está no número de elos, mas na união entre eles. Quanto mais fortes, mais obsoleta será a diferença entre eles, porque já não são elos: são um só.

Ilustração de José Santana.

Read the english version here.
Publicado em maio 2020 na edição Union da Vogue Portugal.

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