Durante anos, procurámos o café perfeito para publicar. Hoje, começamos a procurar o lugar onde ninguém espera que se publique nada. Entre matchas, abacates e specialty coffees impecavelmente curados, todos diferentes e todos iguais, talvez tenhamos chegado a um ponto de saturação estética. Esta é uma reflexão sobre a tasca como contraponto — não ao brunch, mas ao algoritmo.
Há umas semanas, fui ao Douro passar o meu dia de anos. Já chegámos tarde e queríamos almoçar fora do horário habitual dos restaurantes. Fizemos aquilo que se faz hoje em qualquer lugar: abrimos o Google e deixámo-nos guiar pelas sugestões — os restaurantes mais recomendados, os mais “trendy”, os mais fotografados, mais perfeitos. Todos fechados. Não havia ali espaço para grandes improvisos e a fome já era muita. Sem grande expectativa, escrevi “tascas” na barra de pesquisa do Google. Em poucos segundos, apareceu-nos a Taberna do Zé, situada a escassos metros do local onde estávamos, como sugestão.
Chegámos à dita taberna e havia uma mesa de plástico no exterior que parecia estar à nossa espera, como se não estivesse ali para impressionar ninguém. Sentámo-nos antes mesmo de o senhor Zé aparecer. “Sentem-se à vontade, ainda servimos”, disse ele com aquela simpatia franca que tantas vezes encontramos nas gentes do Norte. O menu estava colado na parede. O vinho era da casa. O pão chegou sem explicação. E, de repente, tudo aquilo que não tinha sido desenhado para ser experiência tornou-se exatamente isso. Mais do que a comida típica portuguesa e deliciosa, ficou a forma como fomos recebidos: sem narrativa, sem intenção, sem curadoria. Só aquela presença que passou a ser rara nos nossos dias.
A verdade é que a tasca, ou os restaurantes ditos típicos portugueses, sempre foram, de certa maneira, vistos como lugares do quotidiano, do banal, do popular.
Mas, e falo como lisboeta de gema, sempre lá fomos parar, sobretudo quando o objetivo era comer bem e barato. As coisas mudaram um bocadinho, entretanto. Com a chegada de novos públicos e de novas referências culturais, vemos este hábito de frequentar tascas ir diminuindo a olhos vistos. Digamos que estes espaços "imperfeitos", os únicos que ainda não parecem ter sido desenhados por um moodboard do Pinterest, foram desaparecendo discretamente do centro da conversa. No seu lugar, surge uma nova paisagem urbana, cuidadosamente construída para ser vivida, fotografada e partilhada. Em Lisboa, esta lógica não só se instala, como se expande.
A partir de meados da década de 2010, vemos a cidade começar a ser atravessada por uma nova paisagem de cafés que poderiam existir em Copenhaga, Melbourne ou Los Angeles. Não como exceção, mas como padrão. Um movimento que acompanhou a consolidação de Lisboa enquanto destino turístico global (num país onde o turismo representa hoje cerca de 11,9% do PIB, segundo dados do INE) e a transformação gradual da cidade numa economia cada vez mais orientada para a experiência, para a circulação e para o olhar. Mas mais do que este crescimento, o que se torna visível é uma mudança de linguagem.
Os espaços começam a falar entre si. Matcha cerimonial, brunch contínuo, tostas de abacate, specialty coffee, cerâmica artesanal, mesas em madeira clara, paredes em microcimento. Não são apenas escolhas gastronómicas ou decorativas, são códigos. Repetidos, reconhecíveis, imediatamente legíveis. Uma gramática visual que transforma o espaço em imagem antes de este ser vivido.
Esta transformação já foi, inclusive, observada. No caso de Lisboa, a proliferação desta linguagem visual foi objeto de investigação académica no estudo Instagramable experiences at brunches in Lisbon: search for taste or likes?, de Priscila Krolow e Patrícia Dias, da Universidade Católica Portuguesa. As investigadoras analisaram alguns dos brunches mais populares da cidade e chegaram a uma conclusão reveladora: existe uma forte semelhança entre as imagens produzidas pelas próprias marcas e aquelas publicadas pelos clientes.
As empresas procuram parecer espontâneas e autênticas, enquanto os utilizadores reproduzem, quase inconscientemente, uma estética padronizada que as autoras designam por “instagramism". Neste contexto, escolher um sítio para comer deixa de ser apenas isso: passa a ser a escolha de um cenário onde a experiência possa ser projetada na vida digital.
Os próprios participantes reconhecem que o prazer da refeição já não depende apenas do sabor, mas também da possibilidade de viver o espaço e de o transformar numa imagem partilhável. A comida, a decoração, a luz natural e a mesa deixam de ser elementos separados e passam a fazer parte de uma única experiência visual. O brunch deixa, assim, de ser apenas uma refeição para se tornar numa narrativa construída para existir simultaneamente no espaço físico e no Instagram.
Num momento em que tantos cafés parecem desenhados para existir primeiro no Pinterest e só depois na cidade, a mesa de plástico, o guardanapo de papel e o vinho da casa funcionam quase como um gesto de resistência.
Esta uniformização não acontece apenas em Lisboa. Um estudo internacional sobre cultura gastronómica contemporânea descreve um fenómeno curioso: cidades de diferentes países começam a partilhar exatamente os mesmos códigos visuais e gastronómicos. O mesmo matcha servido em copos transparentes, o tal specialty coffee, os famosos bagels, as usuais bowls, cerâmica artesanal, madeira clara, plantas estrategicamente colocadas e interiores minimalistas repetem-se de Copenhaga a São Francisco, de Seul a Lisboa. Os autores sugerem que se está a formar uma espécie de "Global Brooklyn”, uma linguagem estética internacional que faz com que muitos espaços pareçam pertencer mais à Internet do que ao bairro onde se encontram.
Num ensaio publicado no The Guardian e adaptado do livro Filterworld: How Algorithms Flattened Culture, o jornalista cultural e crítico da revista The New Yorker, Kyle Chayka, defende que muitos dos cafés que hoje consideramos autênticos não são, afinal, autênticos ao bairro ou à cidade onde existem, mas a uma geografia algorítmica partilhada por Instagram, Google e TikTok. Durante anos, ao viajar por cidades tão distintas como Berlim, Quioto ou Reiquiavique, o escritor apercebeu-se de que encontrava sempre o mesmo cenário — mesas comunitárias em madeira, paredes claras, specialty coffee, plantas cuidadosamente colocadas, pratos fotogénicos. Não eram cadeias internacionais, mas espaços independentes que, influenciados pelas mesmas plataformas digitais, acabaram por convergir para a mesma sintaxe visual.
A autenticidade deixou de ser geográfica para passar a ser algorítmica. Para descrever este fenómeno, Kyle Chayka criou, ainda em 2016, o conceito AirSpace: uma geografia sem fricção, composta por espaços que parecem existir fora do lugar onde estão.
O café de Lisboa fala o mesmo vocabulário do café de Copenhaga ou de Melbourne, não porque pertençam à mesma marca, mas porque foram moldados pelos mesmos feeds, pelos mesmos algoritmos e pelas mesmas referências. São espaços que poderiam literalmente mudar de cidade sem que quase nada precisasse de ser alterado. A geografia dissolve-se e é substituída por uma estética global.
Há um momento em que Chayka diz que o problema não é o estilo. O problema é a homogeneidade. O autor escreve que o minimalismo mudou, as madeiras mudaram, as plantas mudaram, o microcimento substituiu outros materiais... Mas a sensação continua igual. "Os sinais mudam, mas a uniformidade permanece”. Chayka cita ainda uma investigadora que resume o fenómeno de forma brilhante: "Estes espaços deveriam representar individualidade, mas são incrivelmente monótonos”.
E é exatamente este o paradoxo. Vamos todos ao mesmo café para mostrar que somos diferentes quando, na verdade, somos todos iguais.
É por isso que a tasca, talvez um dos últimos espaços que ainda não sofreu o processo de AirSpace, ganha todo um novo significado. Num momento em que tantos cafés parecem desenhados para existir primeiro no Pinterest e só depois na cidade, a mesa de plástico, o guardanapo de papel e o vinho da casa funcionam quase como um gesto de resistência. Não porque sejam sofisticados, mas porque ainda não parecem conscientes da câmara do telemóvel. Na tasca não existe um "signature latte"; não existe uma narrativa de marca cuidadosamente construída; não existe uma experiência desenhada para o algoritmo. Existe apenas um lugar. Algo que se tornou inesperadamente raro. Não há matcha na tasca. E, cada vez mais, é exatamente esse o ponto.
*É Tuga ou Nada, a música oficial de apoio à Seleção Nacional para o Campeonato do Mundo 2026. O tema reúne cinco nomes do rap português: Sam The Kid, Bispo, Gson, Papillon e Sir Scratch.
Originalmente publicado no The Portuguese Summer Issue, na edição de julho/agosto de 2026 da Vogue Portugal, disponível aqui.
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